Tentativa de homicídio à xavante cria tensão em Nova Xavantina

Conflitos na cidade não podem resultar em intolerância e ódio

No domingo, 12/05, o xavante Levi tinha ido ao mercadinho próximo à casa onde mora na cidade de Nova Xavantina, Mato Grosso, comprar uns artigos para sua família. Ele já havia sido avisado que estava jurado de morte por suas dívidas com drogas. Levi tentava se recompor na sua vida, com sua família, mas ainda tinha recaídas na sua dependência, realidade vivida por milhares de brasileiros, e cada vez mais crescente entre jovens indígenas, vendo seu povo marginalizado e sem perspectivas na sociedade envolvente. Naquele dia, Levi levou seis tiros à queima-roupa, a mando, suspeita-se, de traficantes. Ele se recupera atualmente no pronto-socorro em Barra do Garças.

Dois dias depois do ocorrido, na terça-feira, 14/5, um grupo de xavantes, familiares de Levi revoltados com a tentativa de homicídio e com a impunidade que eles sentiam que iria acontecer, se juntaram para, como eles disseram, fazer justiça com as próprias mãos. Ao longo do dia, cerca de 40 homens xavantes, entre adultos e jovens, arrombaram uma casa e invadiram e saquearam um mercado.

Independente da motivação, trata-se de ato criminoso e que será apurado e julgado pelos órgãos competentes, assim como, espera-se, a tentativa de homicídio de Levi. Os sentimentos de raiva e vingança que podem tomar a família da vítima, seja ela indígena ou não, são compreensíveis, mas dentro das regras de convivência impostas pelo Estado de Direito em que vivemos, ações neste sentido devem ser julgados de acordo com a lei vigente.

No fim da tarde, numa reunião entre representantes da prefeitura, da polícia e de indígenas, chegou-se a um acordo. As lideranças indígenas comprometeram-se a convencer o grupo a parar com os atos de vandalismo na cidade e tentar recuperar e devolver os itens saqueados. Enquanto isso a Polícia se comprometeu mais uma vez a dar uma resolução rápida e efetiva ao crime cometido contra Levi. Hoje, foi noticiado que um suspeito da tentativa de homicídio foi preso em Primavera do Leste.

Em resposta aos atos cometidos, tanto a mídia local como a comoção popular levou a cidade de Nova Xavantina a um estado de pânico e desinformação. Nos mercadinhos e filas de banco, as versões da história são diversas e aumentadas, circularam boatos como saque a diversos mercados, a morte do indígena, toque de recolher e a vinda de comboios indígenas para aterrorizar a cidade. Alguns meios de comunicação chegaram a usar palavras como “carnificina”, o que contribuiu para criar um sentimento de terror. O sensacionalismo veio acompanhado por ódio e intolerância, e não era difícil ouvir comentários nas ruas como “deveria ter matado mais”.

O que preocupa nestas situações é o sentimento de ódio mútuo. Indígenas xavantes se vem atacados pelo não-indígena e desconta sua indignação em qualquer um. Por outro lado, a comunidade xavantinense, em geral, passa a enxergar todo e qualquer xavante como criminoso. Aumenta a tensão e o preconceito que já existem na cidade, e nestes casos de conflito, se tornam mais explícitos e levam ao ódio.

 Ódio e preconceito

Não é a primeira vez em que ocorrem conflitos entre as comunidades xavantes e as cidades próximas a Terras Indigenas dessa etnia. Porém, estas situações não são exclusivas a realidade indígena.

Após a Segunda Guerra Mundial, uma parcela dos japoneses que viviam no Brasil não acreditou na derrota do Japão na guerra. Destes, uma parcela menor fez represália àqueles que entendiam que o Japão tinha perdido a guerra, através de ataques e até assassinatos. Estes atos de intolerância levaram a um grande preconceito e incompreensão da população brasileira por todo e qualquer japonês, chegando ao ponto de linchamento público de japoneses no interior de São Paulo, após um assassinato na cidade.

Outro caso bem conhecido por todo brasileiro refere-se às ocupações espontâneas e irregulares de morros no Rio de Janeiro, que por falta de planejamento público e moradia deram origem a inúmeras favelas, algumas muito famosas como Rocinha, Mangueira e Borel. Tomadas pelo poder de traficantes de drogas, eram geralmente noticiadas negativamente na mídia como lugares violentos, habitados por marginais, analfabetos e malandros. Por décadas e até os dias atuais, os moradores dessas ocupações pejorativamente chamados de favelados eram tidos todos como criminosos. Ultimamente, com a ascensão econômica das classes mais baixas, e portanto tornando-se a principal camada consumidora chamando atenção da mídia e dos anúncios, passou-se a mostrar o povo batalhador e trabalhador com cultura própria e viva que ali vive, chegando a ser o Morro do Alemão cenário de novela das 9.

Os casos em questão não diminuem a gravidade dos atos criminosos praticados por organizações específicas, mas mostram claramente que a generalização destes atos para toda uma comunidade gerou e gera conflitos ainda maiores e preconceitos difíceis de serem quebrados. Após a Segunda Guerra Mundial, todo japonês era um fanático assassino, e durante anos, todo favelado era suspeito. As pessoas nesta condição se viam com vergonha, negando sua identidade ou sua origem, devido ao preconceito e até ódio criado por situações isoladas que, devido à falta de conhecimento e compreensão dos fatos, levou a discriminação de toda uma comunidade.

Quando há contato entre diferentes culturas, estes conflitos ficam mais evidentes e mais complexos. A diferente forma de ver o mundo e de reagir às situações concretas leva a um estranhamento que é normal quando se trata de uma forma de entender e respeitar o diferente, mas que pode tomar forma de preconceito e intolerância quando vem acompanhado de ódio e superioridade.

Esses exemplos nos ensinam que não podemos permitir, nesse momento de tensão e excessos, que atos impensados de uns poucos perturbem a compreensão e a harmonia que deve marcar a convivência de diferentes grupos sociais ou étnicos em nossa cidade.

Fonte: Blog da Funai Nova Xavantina

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