Durante o 10º Encontro da Rede de Sementes do Xingu coletores fundam associação

O encontro reuniu representantes de grupos de coletores de 21 municípios, 18 assentamentos e 17 aldeias. Junto com técnicos e convidados o grupo discutiu o Balanço anual e planejou o futuro da Rede de Sementes

Por Rizza Matos

Porto Alegre do Norte, MT – Entre os dias 28 e 30 de junho 90 pessoas estiveram reunidas no 10º Encontro da Rede de Sementes do Xingu. Entre elas coletores de sementes, viveristas, técnicos e representantes da Organização Ecossocial do Araguaia, (OECA), Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), INCRA (DF e MT), Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Ministério do Meio Ambiente (MMA) e Secretaria Municipal de Agricultura de Confresa. Também acompanharam o Encontro os apoiadores do Instituto Bacuri e Natura. A atividade foi organizada pelo ISA e contou com apoio da Articulação Xingu Araguaia (ANSA, ATV, CPT, ISA e OPAN).

O Encontro

Neste ano esteve na pauta do Encontro: gestão de negócios sociais; institucionalização da Rede; qualidade, comercialização, preços das sementes e custos com a coleta; novo Código Florestal e acesso ao crédito do Fundo Rotativo da Rede. “Esse encontro foi marcado pela qualidade e maturidade da participação dos coletores nas discussões e tomadas de decisões. A fundação da associação Rede de Sementes do Xingu como figura jurídica autônoma coloca um conjunto de desafios que os coletores demonstraram estarem aptos a enfrentar”, disse Rodrigo Junqueira, coordenador adjunto do Programa Xingu do ISA.

Luis Carrazza, coordenador da Central do Cerrado, (Brasília, DF) e Arthur Dalton Lima, colaborador da Cooperafloresta, (Barra do Turvo, SP) contaram as experiências das duas associações que representam. A Central do Cerrado reúne diversas entidades e comercializa mais de 200 produtos diferentes. A união veio da necessidade de conquistar mais espaço no mercado e diminuir os custos com logística e encargos fiscais. Para Luis, o excesso de burocracia não deve desanimar quem está tentando legalizar um empreendimento. “Se primeiro você for se adequar 100% as leis não vai começar nunca, o ideal é ir fazendo, vendo a aceitação do produto e ir se adequando, conforme for surgindo as necessidades”.

A Cooperafloresta é uma iniciativa comunitária de agroflorestas. Os alimentos orgânicos produzidos nessas áreas são comercializados em feiras em Curitiba (PR). Artur contou que a associação recebe apoio por meio de projetos, mas que a produção é suficiente para custear a comercialização e a renda gerada é responsável pela maior parte do sustento das famílias envolvidas.

Outro desafio da rede é alargar as fronteiras e se consolidar no mercado de sementes. Solon Izidoro, da empresa Globo Rural Sementes (Goiânia, GO), explicou a dinâmica desse mercado, quais são as espécies mais procuradas, como funciona os contratos e ressaltou a importância da qualidade genética das sementes.

A Dra. Fatima Piña-Rodrigues, do projeto Semeando Florestas da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos, SP), coordenou a oficina de criação de mapas e identificação e seleção de matrizes.  Durante a oficina os coletores aprenderam a importância de mapear suas áreas de coleta com coordenadas geográficas, de identificar e marcar as matrizes para aperfeiçoar o trabalho e garantir a qualidade, variedade e viabilidade das sementes.

Coletores marcam matrizes durante a aula prática.

Coletores marcam matrizes durante a aula prática. Foto: Rizza Matos

Na segunda noite do Encontro, durante a noite cultural, foi lançada a terceira edição do livro Plante as Árvores do Xingu e Araguaia, organizado pela ISA.  Logo após foram entregues kit’s de coleta para os coletores e grupos que mais se destacaram em 2012. E Depois se apresentaram os grupos de dança e música indígenas Kayabi, Waurá e Xavante, além do cantor Edilson de Santa Terezinha.  Durante o encontro também foi promovida uma feira de trocas de sementes, artesanatos e alimentos.

Grupos premiados durante o Encontro. Foto: Dannyel Sá

No último dia, os coletores revisaram os requisitos para se tornar um coletor da Rede e trocaram experiências sobre o dia-a-dia do ofício. Com ajuda de Ernane do Espírito Santo, consultor da AXA, o grupo fez alguns cálculos dos custos para coleta de determinadas espécies. Odete, coletora do PA Macife (Bom Jesus do Araguaia), compartilhou as dificuldades em beneficiar o tamarindo. E depois das contas, seguindo um princípio da Rede, o preço do quilo dessa semente subiu de valor. Já o grupo Muvuca de Diamantino relatou as desvantagens econômicas e logísticas de estar a 655 km da Casa de Sementes mais próxima (Canarana). O Instituto Bacuri (São Paulo, SP) ouviu o relato e ofereceu o apoio necessário para construir essa Casa de Sementes que vai beneficiar 21 coletores. “Essa era a notícia que nós gostaríamos de ouvir”, disse Rosinete, coletora do grupo.

Odete, coletora do PA Macife, explicando as dificuldades de benefiar o tamarindo.

Odete, coletora do PA Macife, explicando as dificuldades de benefiar o tamarindo. Foto: Claúdia Araújo

Institucionalização da Rede

O 10º Encontrou é o marco inicial da Associação da Rede de Sementes do Xingu. Em assembleia, os sócios-fundadores, criaram a entidade e escolheram a diretoria: Bruna Dayanna Ferreira, coordenadora técnica da Rede de Sementes do Xingu, Cláudia Araújo, agente da CPT e Acrísio Luís dos Reis, coletor e agricultor do PA Mana (Canabrava do Norte). O grupo também decidiu que vai continuar com a luta para implantar o consórcio de microempreendedores.

Da despedida, a certeza de que a vai seguir movida pelo desafio de semear mais árvores do Xingu Araguaia e atenta à necessidade de fortalecer um empreendimento social e sustentável que valoriza os conhecimentos dos povos tradicionais da Amazônia e do Cerrado.

Para ver mais  fotos do Encontro clique aqui

 O Código Florestal e a Rede de Sementes

Depois de um ano da aprovação do novo Código Florestal, o cenário ainda é de incertezas. A não aplicabilidade da lei, a anistia aos desmatadores, somado ausência de um plano de execução para o novo Código, estão sendo fortemente criticados pelas entidades da sociedade civil. Por outro lado, o novo Código Florestal aumentou e acelerou as discussões sobre o mercado de sementes e mudas nativas, o que influencia o trabalho da Rede de Sementes do Xingu.

Atualmente circula entre os Ministérios uma minuta de lei que pretende regularizar o inciso VII  do artigo 58 do novo Código  que dispõe sobre compra de sementes  e mudas  para o reflorestamento das áreas degradadas. A proposta foi batizada como PASEM, Programa de Aquisição de Sementes e Mudas Florestais e foi apresentada no primeiro dia Encontro por João Daldegan Sobrinho, da Coordenação-Geral de Desenvolvimento de Assentamentos do INCRA (Brasília, DF).  Além de caracterizar quem pode ser considerado coletor de semente a minuta prevê que para os reflorestamentos nos assentamentos da reforma agrária as sementes sejam compradas dos próprios assentados. A ideia é que o PASEM funcione de forma parecida a de outros programas de aquisição do governo como o CONAB e o PNAE.

 

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