Bate-pé caipira no compasso da família Fernandes

Grupo tradicional de catira da região do Médio Araguaia marcou presença no programa Encontro com Fátima Bernardes no dia 16 deste mês.

por Dandara Morais

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“Não é necessário fazer teste de DNA, todos nascem batendo pés e palmas”

Barra do Garças – A catira ganhou o gosto popular e tomou a cidade em forma de poesia; o sentimento, a cultura e a labuta do homem do campo são levados à compreensão das famílias urbanas. Apesar de toda a variedade cultural e rítmica que permeia a música brasileira, a moda de viola é, sem dúvida, a expressão musical mais típica do caipira.

A história dos Catireiros do Araguaia começa ser escrita em 1959, com o casamento dos cantores Orlando Fernandes, que na época cantava com seu irmão Zezinho, hoje conhecido como Zé do Cedro e Joana de Araújo, que cantava com a Neide, sua prima, e o Nico, o Cacique da dupla Cacique e Pajé.

“Foi amor à primeira vista”, Joana Araújo Fernandes, 72 anos, aposentada conta que conheceu seu esposo, Orlando Fernandes, em 1958, num espetáculo de circo. Seis meses depois resolveram se casar.

Após o casamento surge, então, a dúvida, continuar cantando em busca de sucesso e fama ou criar família? Pouco tempo depois Joana fica grávida de sua primeira filha. Joana e Orlando continuam cantando, por Monte Aprazível e região, agora aonde iam levavam Vera, a primogênita. Joana conta que em 1960, Vera ainda pequenina já batia os pezinhos, a cultura estava no sangue.

Lá por volta de 1974, Seu Orlando é chamado para cuidar de uma fazenda em Araguaiana, interior de Mato Grosso. Ele vem e traz toda a família, naquele momento ele, dona Joana e mais seis filhos. Em Barra do Garças – MT ficam conhecendo  um dos desbravadores da região, Valdon Varjão (1923 – 2008), que ajudou e incentivou a criação do grupo Catireiros do Araguaia.

O grupo Catireiros do Araguaia cresce conforme a família, hoje são 57 pessoas tocando, cantando e dançando catira, dona Joana diz: “Optamos por criar família, tinha a possibilidade de ter fama, continuar só na cantoria, ganhar dinheiro com isso, mas nós preferimos, com a graça de Deus, criar a nossa família. Hoje ao invés de sermos só nós dois, somos 57 pessoas, e todos dançam catira.”

A organização do grupo é patriarcal, Seu Orlando e dona Joana estão à frente; mas  hoje, o professor Otamiro Araújo Fernandes, 44, ajuda a coordenar o grupo. Otamiro comenta que esse modelo tem dado certo, são 54 anos de tradição familiar. “Meus pais impuseram na educação a questão cultural e religiosa, e funcionou, criaram nove filhos e ainda conseguiram que esta bandeira fosse passada de geração para geração”, observa. Assim como ele, todos os filhos têm outra profissão, mas o Catireiros do Araguaia esta em primeiro lugar na vida deles.

Catireiros do Araguaia é reconhecido nacionalmente, em 1980 se destacou dos demais grupos de catira por ser o primeiro a ter participação feminina na dança. Otamiro conta que, com a diversidade musical que tomou o país, viver de música é impossível se você não se render ao mercado. Então, a família Fernandes vive uma luta constante pra levar por onde passa a tradição e a cultura dos catireiros.

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Histórias ganham vida nas mãos de Dona Joana

A catira é uma dança ligada à religião e ao costume do homem do campo, era a forma com que as pessoas da roça comemoravam um dia de trabalho produtivo. Após os mutirões organizados para plantar, colher, roçar, a festa estava garantida. Dona Joana ressalva “a catira é uma dança popular, é uma dança que veio lá do meio do mato, do mutirão do meio da roça, as pessoas trabalhavam o dia inteiro e quando era noite não era baile, era moda de viola e catira a noite inteira” conta.

Em sua trajetória, o grupo Catireiros do Araguaia tem se apresentado em diversos estados brasileiros: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, Tocantins, São Paulo e Distrito Federal. Em 2010 foram premiados no Voa Viola- Festival Nacional de Viola, com a canção Araguaia Presente de Deus, de composição de Joana Fernandes. No palco, toda a família reunida, pais, filhos, netos e bisnetos levando a tradição e a cultura dos Catireiros do Araguaia.

Fotos: Muryllo Simon / Arquivo

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