Casa de líder dos Retireiros do Araguaia é queimada e aumenta tensão em Luciara/MT

Ameaças de morte e fechamento da estrada e do comércio são algumas das artimanhas utilizadas para intimidar as famílias retireiras

Por Comunicação AXA

Na noite de ontem (18/09), foi ateado fogo na casa de Rubens Sales, conhecido como Rubão, em Luciara/MT. Rubão é líder dos Retireiros do Araguaia e vem lutando para a criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Retireiros do Araguaia. O incêndio da casa de Rubão vem acompanhado de ameaças de mortes que retireiros e suas famílias vem sofrendo de fazendeiros e comerciantes do município, acusados pelos retireiros de mandatários do incêndio. Nos últimos anos, Rubão já fez várias denúncias para a Secretaria de Direitos Humanos.

foto retiro rubao

Casa do retireiro Rubão foi queimado em Luciara

Hoje, a única via de acesso terrestre à cidade, a MT-100, foi bloqueada numa tentativa de impedir a entrada da equipe técnica que irá ao município fazer a Cartografia Social dos Retireiros. Faixas contra a Reserva dos Retireiros foram espalhadas pela cidade, confirmando a posição dos fazendeiros e comerciantes. Os comerciantes comunicaram ainda que vão fechar os mercados da cidade nos dias 20 e 21. No mesmo dia 21, está marcada a reunião para a Cartografia Social dos Retireiros.

Retireiros do Araguaia em Luciara, Mato Grosso

A identidade retireira remonta aos primeiros ocupantes não-indígenas da região do vale do Araguaia. Estes criavam o gado solto nas pastagens naturais do cerrado e varjões da região, numa dinâmica de agroextrativismo do capim nativo. A prática tradicional adequada às características ecológicas e sociais locais tem evoluído e se mantido em algumas comunidades do vale do Araguaia e é muito presente no município de Luciara, o mais antigo povoado da região. O gado é criado de forma extensiva em terras comunais com pouca alteração da paisagem natural. Há ainda o espaço do retiro, local de moradia e manejo do gado, organizado individualmente ou em grupo. Nos retiros são construídas as casas, piquetes para manejo de gado, currais e cisternas. Os retiros se constituem numa forma de regime de propriedade privada, enquanto que a grande matriz de cerrado – incluindo os varjões, lagos, rios, matas não inundáveis e toda a paisagem – está submetida a um regime de propriedade comum entre os retireiros.

Com a ameaça que a privatização das terras, principalmente por grandes fazendeiros, trouxe a este modo de vida e produção tradicional, o grupo de Retireiros do Araguaia se organizou para garantir direito de uso da área comum e autonomia da sua identidade. Assim, em Luciara, os retireiros são um grupo social organizado desde 1999, e estão formalmente representados pela Associação dos Retireiros do Araguaia (ARA), composta por 94 famílias de retireiros, com mais de 450 membros.

Desde sua organização, os Retireiros do Araguaia lutam pela criação de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS), garantindo assim o uso tradicional da terra. Na mesma época foi enviada a solicitação da Reserva à Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Na mesma época, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio), em parceria com universidades, realizou o laudo socioeconômico e biológico da área.

Desde então, a criação da RDS tem sido motivo de conflito entre Retireiros, fazendeiros e comerciantes da cidade de Luciara-MT, que submeteram a área dos Retireiros do Araguaia a intensos processos de grilagem, desmatamento e cercas. O cercamento no entorno dos lagos prejudica e impede a politica de coletividade proposta pelos Retireiros. Com a recente desintrusão de grileiros da Terra Indígena Marãiwatsédé, os fazendeiros da região se dão conta de que podem perder as terras conseguidas de má fé.

Imagens: Retireiros do Araguaia

 

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