A fé de ‘Seu’ Júlio

Quebrante, arca caída, dor de dente, cobreiro e olho gordo. Essas são as especialidades do benzedor Júlio Francisco Marques, 75, cidadão pontalense que exibe com orgulho seu quadro de homenagem.

por Dandara Morais e Sckarleth Martins

Pontal do Araguaia/MT- A vida de ‘Seu’ Júlio é simples. Debaixo de uma mangueira ele realiza pequenos trabalhos artesanais, como pilão e tamboretes. Quando é interrompido por algum vizinho, aí a prosa dura à tarde inteira.

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“Ela adivinha até meu pensamento” Julio diz sobre a companheira Zenaide

Trabalhou como garimpeiro durante trinta e seis anos, profissão que afirma ser muito boa. “Achou diamante, dinheiro na hora”, diz. Foino dia 17 de outubro de 1986 que, num achado, ele conseguiu comprar a casa em que vive hoje com sua esposa,  Zenaide Lima.

Há todo o momento são parentes, conhecidos e inúmeros desconhecidos que batem em sua porta pra pedir uma benção: ‘Seu Júlio, preciso viajar. O senhor pode me benzer?’

—‘Com Deus eu vim, com Deus eu volto. Com Deus eu sou devoto’, profere o benzedor. ‘Seu’ Júlio Garante a tranquilidade na viagem: “Não vê nem calango!”.

Filho de benzedores, sempre conviveu com a casa cheia de gente e energias. Aos catorze anos, recebeu o primeiro chamado para seguir com o dom familiar de oferecer cura. Porém, somente começou a benzer em 9 de maio de 1992, quando tinha 54 anos, diz ele frisando a data. Aliás, não há ocasião que ele se escuse, sabe de cor o dia, o mês e o ano de todos os momentos importantes da sua vida.

Com orações e ramos de plantas, o benzedor faz o rito da cura: — “Homem bom, mulher mal. Casa velha e seda rasgada. Espinha desce e sobe”. — “Com Deus adiante, paz na guia. Acompanhe Deus e a virgem Maria”.

De sorriso espontâneo ele não se deixa abater tão facilmente. Comenta que pensou em desistir de benzer por conta da desconfiança de alguns sobre seu trabalho. Já foram até sua casa falar que ele não sabia de nada. “tem pessoas que ‘enche’ a paciência da gente”, desabafa.

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A benção

Seu Ordesino Elias Pereira é cliente assíduo de Seu Júlio desde 2009. Diz que procurou benzer-se por conta da inveja e do olho gordo. Ele trabalha com construção civil, e volta e meia esta debaixo da mangueira com Seu Júlio, seja pra uma prosa, seja pra uma benzeção. “Ih, direto! Geralmente quando a gente sente mei as coisa desandando pra trás, a gente já sabe que tem que procurar um benzedor”, diz Elias.

Seu Elias, como gosta de ser chamado, acredita na força que a benzeção tem, e diz que Seu Júlio é famoso, “vem gente de tudo quanto é canto procurar ele, de Jataí, de Frutal, do Xingú”. Mas ele afirma que tem que acreditar, porque é a fé que faz dar certo, “o benzedor tem que ter fé. E quem é benzido também” diz Elias.

Elias diz, orgulhoso, que Seu Júlio, apesar de ser apegado aos números e às datas, não conta dinheiro: “ele faz tudo de graça, não cobra nenhum tostão furado”. Para Seu Júlio, servir aos outros supera qualquer dificuldade, pois, seu lema é fazer o bem. “Tô aqui fazendo bondade pras pessoa até o dia que Deus dá licença. Enquanto tiver piscando o ‘ôi’”.

O vínculo entre quem benze e quem recebe a benção, portanto, se dá quando do cuidado com o outro que possibilita o bem viver consigo mesmo, numa situação em que o afeto e a sensibilidade são motrizes dessa relação.

A cura entre a tradição e a cultura

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Mãos que abençoam e transformam

A benzeção faz parte da história, da cultura popular brasileira e se constitui como prática de cura. Segundo o dicionário Aurélio, benzer é: “fazer o sinal da cruz sobre coisa ou pessoa recitando certas formas litúrgicas para consagrá-la ao culto divino ou chamar sobre ela o favor do céu”.

De acordo com a antropóloga e mestranda pela Universidade de Brasília, Érica Lobato, é tarefa difícil respaldar esse tipo de prática, principalmente pela falta de elementos ‘palpáveis’ ou ‘materiais’. Para Érica, tudo está muito no plano simbólico, as escolhas,

os ritos, a motivação. A antropóloga reflete quanto ao simbolismo existente entre os ritos de cura tradicionais e o conhecimento científico: “Será que poderíamos comparar o raminho de pimenta a um bisturi como objeto de manutenção da prática de cura? Raminho pra benzedeira, bisturi pro médico?”, questiona Lobato.

No plano da cultura e da expressão popular, é uma prática fluída de manutenção de maneiras de ser e viver de um povo que se afirma frente à contemporaneidade e perdura. Segundo o sociólogo e professor da Universidade Federal de Mato Grosso, Hidelberto de Souza Ribeiro, a tradição religiosa brasileira é constituída por uma moral Católica Apostólica Romana, mas, ironia à parte, devido à miscigenação cultural do povo brasileiro, os ritos tradicionais de benção estão sob influência histórica dos pajés, e dos Azende, índios africanos.

O benzedor acredita que tem dom de sentir (o bem e o mal), porque Deus lhe concedeu esse poder. Ele crê que foi escolhido para fazer o bem por uma força sobrenatural e, igualmente, quem o procura reforça essa crença.  A benção se dá, sem cobrar nada, por ser divina. Por isso, Hidelberto ressalta as questões morais do benzedor:  “se ele cobrar ele tá sendo antiético, ou pode ser punido como pecado espiritualmente”. E, para tradição popular, é neste momento de doação que o benzedor se fortalece.

Fotos: Dandara Morais e Sckarleth Martins

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