Pesquisadores brasileiros buscam adaptação da agricultura às mudanças climáticas

O relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) divulgado nesta segunda-feira (9) contempla resultados da pesquisa brasileira, que atua há duas décadas, pelo menos, para oferecer alternativas para reduzir o aquecimento global. Estudiosos e cientistas de áreas como energia, saúde, transportes e agricultura estão empenhados em encontrar alternativas e propor soluções que ajudem a atenuar o impacto das mudanças climáticas.

Na agricultura, o relatório traz análise do impacto do aquecimento global e uma série de medidas de adaptação e mitigação. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa participou da elaboração do relatório como coordenadora de um dos seus volumes e foi responsável pelo capítulo que trata da segurança alimentar. Este capítulo incorpora estudos desenvolvidos por centenas de pesquisadores brasileiros ligados a dezenas de instituições e oferecem alternativas para reduzir o aquecimento global e maior segurança alimentar a partir do aumento da compreensão sobre a vulnerabilidade da agricultura frente ao impacto das mudanças climáticas.

Os estudos são resultado de ação da Embrapa, no âmbito do seu Portfólio de Pesquisas em Mudanças Climáticas, que reúne dezenas de projetos e instituições parceiras. Algumas das pesquisas conduzidas pela Empresa há mais de uma década simularam o comportamento de culturas em diferentes cenários de aumento de temperatura, avaliando o crescimento das plantas e a influências de pragas e doenças. Os resultados permitiram que o País adotasse políticas públicas para melhorar o seu sistema produtivo.

“O Portfólio nasceu com essa concepção de analisar o sistema produtivo como um todo, entender a relação da agricultura com as mudanças climáticas, analisar e propor soluções de adaptação que garantam a redução do risco e a sustentabilidade de cenários futuros”, diz o pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária Giampaolo Queiroz Pellegrino. Os resultados contribuíram para definir as prioridades, explica Pellegrino, que é presidente do comitê gestor do Portfólio.

Atualmente há seis grandes projetos desenvolvidos em rede relacionados à interação entre as mudanças climáticas globais e a agricultura. Três deles – SCAF, Climapest e AgroHidro – focam, respectivamente, na análise de vulnerabilidade e adaptação das culturas agrícolas, nos problemas fitossanitários e nos recursos hídricos, propondo medidas que incluem tanto o melhoramento genético como a alteração do próprio sistema de produção, com a adaptação das culturas agrícolas e o manejo dos recursos. Outros três – Pecus, Saltus e Fluxus – tratam da contribuição da agricultura para o aquecimento global e na sua mitigação, focando na análise da emissão de gases de efeito estufa e no balanço de carbono na pecuária, nas florestas e na produção de grãos. Os estudos da dinâmica de uso da terra também são vertentes importantes que permitem avaliar as emissões da agricultura e as demandas para a produção de modo integrado.

Outras pesquisas para adaptação genética de plantas a altas temperaturas e à seca realizadas na Unidade Mista de Pesquisa em Genômica Aplicada a Mudanças Climáticas (Umip GenClima), em parceria com a Universidade Estadual de Pesquisa (Unicamp), estão no foco de atuação da Empresa.

Os estudos da dinâmica de uso da terra também são vertentes importantes que permitem avaliar a agricultura, a pecuária e a demanda para a produção de culturas de modo integrado.“Qualquer ação sustentável que melhora a produção e o acesso aos alimentos é considerada uma alternativa de adaptação”, ressalta. Isso envolve a melhoria das estradas e da infraestrutura e o aproveitamento de resíduos agrícolas, por exemplo.

“O importante é a incorporação dos resultados às políticas públicas”, diz Pellegrino. Ele destaca programas governamentais como o Plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono) que promove a recuperação de pastagens, com técnicas de plantio direto, manejo de recursos hídricos, fixação biológica e acúmulo de carbono no solo. Além disso, o Plano Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e outras políticas relacionadas à melhoria da merenda escolar e da renda da população dão condições à sociedade para se preparar para os desafios das mudanças climáticas e seus impactos na agricultura, garantindo à sociedade o acesso aos alimentos, afirma o pesquisador.

Fatores de emissão de GEE

Parte das pesquisas desenvolvidas pela Embrapa buscam definir fatores de emissão de gases de efeito estufa específicos para as diferentes condições edafoclimáticas regionais do Brasil e para as atividades agropecuárias. Além disso, estão sendo desenvolvidos trabalhos para avaliação das emissões em sistemas produtivos e na utilização de determinadas tecnologias. Desta forma, busca-se mensurar o potencial de mitigação em integração lavoura-pecuária-floresta, plantio direto, florestas plantadas, fixação biológica de nitrogênio e recuperação de pastagens.

Segundo o pesquisador da Embrapa Agrossilvipastoril e coordenador do Inventário Nacional de Emissões de GEE – Setor Agricultura, Renato Rodrigues, a definição destes fatores será importante para se conhecer o potencial de mitigação das tecnologias e para o monitoramento da redução das emissões pelo Plano ABC. Para se chegar a estes fatores, no fim deste ano a Embrapa instalará o primeiro equipamento automático de coleta de análise de gases de efeito estufa pelo método de câmaras do país.

“Teremos grande representatividade temporal. Com este método conseguiremos trabalhar com medidas de emissão em horários difíceis de fazer a coleta manual. Com isso teremos mais precisão e volume de informações maiores, o que facilita chegar ao número dos fatores de emissão”, explica Renato Rodrigues.

Com a definição dos fatores de emissão, os inventários nacionais de emissão de gases de efeito estufa serão mais precisos, uma vez que estes dados são utilizados no cálculo da estimativa de emissão do país.

Fonte: Nadir Rodrigues e Gabriel Faria / Embrapa

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