Cantor xavante Márcio Tserehité lança seu terceiro disco

CD Watsihöiba mistura ritmos e temas ancorado nas raízes xavantes

Por Maíra Ribeiro / Comunicação AXA

Foi lançado em setembro o terceiro disco de Márcio Tserehité, cantor da etnia a’uwẽ-xavante que reside na aldeia Belém na Terra Indígena (TI) Pimentel Barbosa, município de Canarana, Mato Grosso. O disco Watsihöiba, que em livre tradução significa corpo estelar, tem onze faixas todas compostas e cantadas pelo músico na língua a’uwẽ-xavante e produzido pelo músico Alexandre Lemos.

Os temas das músicas alternam desde questões do cotidiano da aldeia, como o cuidado com a saúde das crianças, ou sobre a sua cultura, como a reverência à força criadora e à serra próximo à aldeia, até temas românticos e as mudanças culturais que o povo a’uwẽ-xavante vem enfrentando. Em levada de reggae, a faixa “Tsapritô” é um alerta aos indígenas que estudam na cidade, muitos dos quais ao invés de levar esse conhecimento para ajudar suas comunidades, se esquecem da sua cultura. A tradução do título explicita o recado: não mude de lado. A faixa Adzöritô fala da relação entre homens e mulheres, para o marido não bater nas suas esposas e tratá-las bem e para a mulher respeitar o seu companheiro. Alexandre Lemos falou para o blogue de notícias da AXA sobre o trabalho: “É importante notar a seriedade com que o cantor xavante compõe músicas que contam sobre a vida do xavante, discutem problemas e refletem sobre o futuro, de forma criativa e contemporânea. Se fosse uma música tradicional xavante, não caberia mesclar ritmos e instrumentos, o interessante desta proposta é mostrar com outra sonoridade, a realidade indígena xavante, sem perder a influência da tradição, presentes na maneira de cantar e tocar o violão do Tserehité ”.

Em 2009, Tserehité lançou seu primeiro CD Marãiwatsihöiba, e em 2011, o segundo Marãiwatsihöiba II, com apoio do Programa Microprojetos na Amazônia Legal da Funarte. Este segundo disco de Tserehité foi o primeiro de um cantor a’uwẽ-xavante com encarte, tradução das letras para o português, além de contar com mais instrumentos e arranjos musicais. Nos três trabalhos do cantor, os discos foram produzidos e arranjados por Alexandre Lemos.

Este terceiro trabalho do cantor foi feito de forma independente com patrocínio particular. O momento atual é de divulgação do trabalho nas aldeias a’uwẽ-xavantes e distribuição do CD para que seja usado como material educativo nas escolas indígenas e não-indígenas da região. “Todo o trabalho que a gente fez, só faz sentido agora que os xavantes de outras aldeias estão ouvindo e refletindo sobre o que ele está falando nas letras. O objetivo do CD se cumpre quando os xavantes vem conversar sobre as letras, discutir sobre o xavante na cidade ou sobre a relação do xavante com o cerrado” conclui Alexandre.

Músicos a’uwẽ-xavantes

Dentro das comunidades a’uwẽ-xavantes há diversos cantores, que compõe e cantam suas músicas na língua indígena. Muitos já gravaram CD, de forma independente, geralmente acompanhados de violão ou teclado. Destacam-se, além de Tserehité, o músico Florentino, do grupo Tsawidi da TI São Marcos, Luciano da TI Sangradouro, Miguélio e Vicente, ambos da TI Parabubure, mas há muito mais cantores xavantes. Os temas são diversos, sendo que as temáticas mais comuns são as românticas, mas sempre remetendo à cultura a’uwẽ-xavante. São músicas diversas da tradicional, porém a base rítmica remete àquela.

As comunidades a’uwẽ-xavantes apreciam muito o trabalho dos cantores. A loja Brassom em Barra do Garças, Mato Grosso, é referência para as comunidades a’uwẽ-xavantes encontrarem os discos de seus cantores a’uwẽ-xavantes preferidos, mas o meio mais comum com que se disseminam as músicas são o pen-drive ou cartão de memória.

Longa jornada

Há algum tempo, gravar e distribuir um disco era algo restrito. Com o avanço tecnológico, este trabalho se tornou mais acessível, mas, ainda mais para um músico indígena que vive na aldeia, esta tarefa é difícil e cara.

Márcio Tserehité, que trabalha na escola da aldeia, está sempre compondo e trabalhando com as crianças através da música. Com músicas novas na bagagem, pouca após finalizar seu último disco, já tinha material e disposição tserehitepara gravar um novo trabalho.

A iniciativa de gravar o terceiro CD de Tserehité começou a tomar forma na Aldeia Multiétnica e Encontro de Culturas Tradicionais em São Jorge, na Chapada dos Veadeiros, em julho de 2012. A aldeia Belém participou do encontro representando sua etnia com presença de dez a’uwẽ-xavantes, incluindo o cantor, junto com o produtor e músico Alexandre Lemos. Além dos cantos tradicionais xavantes e do artesanato que o grupo levou, o músico Tserehité se apresentou durante o evento tocando músicas do seu segundo disco Marãiwatsihöiba II. A participação no encontro rendeu a divulgação do trabalho e aumentou a rede de contatos dos indígenas desta aldeia, criando novos laços de amizade.

Uma destas pessoas que conviveu com os xavantes durante o encontro, foi à aldeia Belém no fim de 2012 rever os amigos e conhecer melhor a comunidade. Ao chegar lá, encontrou Tserehité ensaiando com Alexandre que coincidentemente estava naquele dia na aldeia. Vendo o empenho e dedicação, interessou-se em apoiar o projeto para torná-lo realidade.

A partir daí, seguiram-se encontros na comunidade do cantor com o produtor, discutindo e lapidando as letras das músicas. Um ponto importante nestes encontros foram as temáticas que seriam tratadas nas músicas, ao mesmo tempo diversificadas, mas com mensagens educativas e de reflexão sobre o futuro da cultura xavante. Depois, foi a hora de ensaiar as músicas para a gravação. Nesta etapa, o músico passou uma semana em Nova Xavantina, na casa de Alexandre, para tocar e arranjar as músicas. “A gente tentou fazer arranjos com base no violão e voz que ele já faz, e dar vida para a música de acordo com o tema” comenta Alexandre, que é baterista e percussionista.

Na sequência, o disco foi gravado de forma intensiva no estúdio de Fábio Eichmann em Aragarças, Goiás, que também participou do disco como músico e arranjador. Foram sete dias de gravação para captação das onze faixas. Márcio Tserehité gravou voz e violão, e em algumas faixas percussão e flauta. O disco tomou corpo com a participação de músicos que incluíram guitarra, contra-baixo, bateria, sopro e percussão, além de sons de ambientação do cerrado brasileiro. Nos intervalos, já começaram as preparações para o encarte do CD: textos, imagens e formatos.

A próxima etapa foi a tradução das letras em Nova Xavantina, com o apoio de colegas a’uwẽ-xavantes com fluência no português. Essa tradução possibilita a compreensão do público não-indígena das letras das músicas e facilita o uso arte-educativo do material nas escolas indígenas e não-indígenas da região. A arte gráfica buscou valorizar a paisagem do cerrado, que é o bioma no qual o a’uwẽ-xavante está inserido. O encarte é todo ilustrado por obras do pintor Miguel Peña, artista peruano radicado em Cuiabá, que cedeu as imagens para compor o projeto. Com a finalização do CD, enviou-se o material para a empresa que fez a prensagem e montagem dos CDs.

Todo o tempo de gravação do CD foi também um processo de capacitação de Alexandre como produtor cultural e de Tserehité como cantor independente, que teve que trabalhar com organização e responsabilidade no gasto do recurso, na prestação de contas e para lidar com os trâmites burocráticos e profissionais para realizar o disco.

Continuidade

Terminadas as gravações, depois de uma semana na cidade, o cantor voltou com saudades para sua vida cotidiana na aldeia: o trabalho na roça com sua companheira, a participação nos rituais e o trabalho musical com as crianças na escola. “O que mais admiro no Tserehité como parceiro neste trabalho é a capacidade de entender o processo de gravação de um disco, com o ponto de vista de um a’uwẽ-xavante autêntico que vive a própria cultura com alegria e com prazer” conclui Alexandre.

Após a espera impaciente da chegada dos CDs prensados, as músicas já começam a ser escutadas e difundidas pelas aldeias, cumprindo seu objetivo primário de fazer música a’uwẽ-xavante para o povo a’uwẽ-xavante.

Serviço

O quê: CD Watsihöiba, de Márcio Tserehité

Quanto: R$ 15,00

Onde encontrar: envie um e-mail para maraiwatsihoiba@gmail.com, ou na loja Brassom em Barra do Garças, MT

Mais informações: http://projetomale.wordpress.com

Imagens: Fredox Carvalho/Encontro de Culturas Tradicionais 2012 e arquivo pessoal de Márcio Tserehité

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