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Seu Salomão e a Marcha para o Oeste

Prosa com um pioneiro que mora em Nova Xavantina

Por Maíra Ribeiro

Aproveitando a realização do 27º Encontro dos Pioneiros da Marcha para o Oeste, em Nova Xavantina no início deste mês, apresentamos um pouco dessa parte oficial da história da região.

Na década de 1940, o governo de Getúlio Vargas impulsionou o processo de ocupação do interior do Brasil através da Marcha para o Oeste. Neste contexto, a Expedição Roncador-Xingu realizou a árdua tarefa de abrir estradas e fundar vilas na extensão de território que vai de Barra do Garças à São Félix do Araguaia no leste mato-grossense. Como resultado, a Expedição Roncador-Xingu construiu 43 vilas e cidades e 19 campos de pouso naquela década, dentre as quais, a pequena vila de Xavantina, onde atualmente se localiza a sede do município de Nova Xavantina.

O Coronel Flaviano de Mattos Vanique foi nomeado chefe da Expedição e recrutou cerca de quarenta sertanejos da região de Mato Grosso, em 1943. Dentre estes, foram recrutados os famosos irmãos Villas-Boas, que após alguns anos, assumiram papel de chefia, inclusive substituindo o Coronel Vanique. Estes sertanejos, que chegaram à Nova Xavantina com o Coronel Vanique, ou que somaram à Expedição após esse ano, foram os trabalhadores braçais que construíram concretamente este processo, conhecidos em Nova Xavantina como pioneiros.

A Expedição Roncador Xingu chegou na atual Aragarças em agosto de 1943. No fim desse mesmo ano, a Expedição partiria rumo ao Rio das Mortes e no dia 28 de fevereiro de 1944, funda a Vila de Xavantina. Só em agosto de 1946 que é feito o primeiro contato amistoso com os índios A’uwe-Xavante, que já habitavam esta região.

Seu Salomão

Salomão e sua esposa Guiomar em frente a sua casa em Nova Xavantina

Salomão e sua esposa Guiomar em frente a sua casa em Nova Xavantina

Salomão Gomes de Souza é um dos pioneiros que continuam residindo em Nova Xavantina. É membro fundador da APMPO (Associação dos Pioneiros da Marcha Para o Oeste) e ex-presidente dessa associação. Segundo ele, restam ainda residentes da cidade, cerca de seis pioneiros, que ele se lembra enquanto conversa comigo: Zé Goiás, Dito Celestino, Raimundo Pereira, Adão Gomes, João Gomes e ele mesmo, Salomão. Ele mora na mesma casa que “ganhou” da Fundação Brasil Central.

Conversar com seu Salomão é receber um mar de causos, aventuras e anedotas. História recente do Brasil que é um privilégio poder conhecer por quem a viveu.

Ele diz que chegou em 1947 no Mato Grosso, atraído pelo garimpo, era moço com cerca de 18 anos de idade. Soube em Aragarças que o Coronel Vanique estava “fichando” jovens para trabalhar. Veio direto para o Rio das Mortes, e ajudou a fundar a vila de Xavantina, trabalhando na horta da vila. Dali, partiu junto com a Expedição pelo Xingu afora, sob o comando de Cláudio Villas-Boas.

Porém, a história de fato feita pelas pessoas não é tão bonita quanto nos fazem acreditar os livros e séries de televisão. Seu Salomão conta que o trabalho seguia um regime de quartel e as condições de trabalho eram precárias. Muitos dos materiais usados eram sobras da guerra – Segunda Guerra Mundial –, como enlatados, grãos carunchados e até uniformes furados de bala eram usados pela equipe. O Coronel Vanique não fazia questão de dar condições mínimas aos seus homens, e através de um abaixo-assinado, os trabalhadores conseguiram que ele fosse substituído, entrando Orlando Villas-Boas no seu lugar. Fora os conflitos com os povos indígenas que aqui viviam e defendiam seu território, encontrando-se muitas vezes em situação de vida ou morte. E que seu Salomão relembra: não podiam matar.

Pouco se fala e reverencia na história sobre os homens que de fato estavam na frente de combate nesta luta que foi a interiorização do Brasil, cujos reflexos e conflitos existem até os dias atuais.

Imagens: superior acervo/InteressanteNews e inferior Maíra Ribeiro/AXA

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