Hetohoky – o povo Karajá em festa

O dia foi corrido na aldeia Santa Isabel. A mulherada Karajá preparou muita comida para distribuir entre os parentes. Os homens se enfeitaram para dançar e cantar o dia e a noite inteiros. A festa do Hetohoky é cheia de beleza e fartura!

Por Lilian Brandt ¹

Sábado passado, 29 de março, foi o dia mais movimentado de um ritual que começou em setembro do ano passado. O ritual Hetohoky marca a passagem dos meninos (período chamado Weryryhykỹ) para a fase de Jiré. São os primeiros contatos com um universo de ensinamentos do que é ser um homem Iny (Karajá).

Para quem vive na região do Araguaia, o povo Iny dispensa apresentação. Embora sejam mais conhecidos na região como “Karajá”, eles se reconhecem como “Iny”². São, afinal, os mais antigos moradores de toda a beira do rio Araguaia, tanto que não existe nem a ideia de um rio Araguaia sem esses indígenas. É como se eles sempre estivessem aqui, desfrutando de toda a beleza e fartura que o rio dá.

Santa Isabel do Morro, aldeia que também é chamada de Hawaló, é uma das maiores e mais populosas aldeias do povo Iny. Ela se localiza na Ilha do Bananal, estado do Tocantins, mas fica pertinho de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso.

Hetohoky significa literalmente “Casa Grande”, pois para a festa é construída uma grande casa próxima à Casa de Aruanã. A Casa de Aruanã é um local sagrado onde só homens podem entrar, com a única condição de terem passado pelo ritual de iniciação. O Cacique Sansão ressalta uma exceção: “mulheres que são pajé têm o direito de entrar na casa de Aruanã”.

Há outros rituais de iniciação masculina além do Hetohoky, rituais que demandam menos tempo, trabalho e custos para as famílias. O menino também torna-se Jiré pelos rituais Wou (espírito Tapirapé) e pela Festa de Aruanã. O modo mais simples é quando os homens da aldeia levam o menino para a casa de Aruanã, cortam seu cabelo e o pintam de preto.

A agilidade de uma ariranha

Aos meninos que passarão pelo ritual de iniciação dá-se o nome de Jiré, que significa literalmente ariranha. Samuel Yriwana Karajá, pai de uma criança Jiré, explica: “é ariranha por ser um animal ágil! A criança nessa fase tem que ser esperta e ágil para crescer rápido. Ele não perde tempo, isso é ensinamento pra ele. A pessoa parada não cresce rápido, por isso tem que estar sempre se movimentando”.

O Jiré tem seu corpo inteiramente preto, pintando de jenipapo de baixo para cima, “como a árvore de jenipapo, que cresce de baixo para cima”, diz Samuel. Favorecer o crescimento saudável das crianças é um dos pontos centrais do ritual. De setembro a março, “o menino dança com os (espíritos de) Aruanãs, que levantam ele, seguram o seu pé e puxam o menino para cima, para que ele cresça mais rápido”, explica Ixyjuwedu Karajá, conhecido como Sansão, cacique da aldeia.

Na fase de Jiré, os meninos recebem instruções que serão importantes por toda a vida. Eles aprendem a confeccionar os adornos que são feitos exclusivamente pelos homens e utilizados no ritual, além de outros artesanatos e artefatos utilizados no cotidiano. Também são ensinadas a eles a arte da caça e da pesca, e sobretudo, valores morais e espirituais.

Este ano a aldeia Santa Isabel tinha dois Jiré donos da festa. Enquanto estiverem nessa fase, os meninos devem servir à comunidade, sendo mensageiros, levando recados e fazendo coisas a pedido dos adultos, como buscar remos e flechas.

Nos tempos em que havia guerra, o Jiré tinha uma função muito importante: ele deveria ir à frente do grupo observando tudo, e se notasse a presença de inimigos, ele deveria voltar correndo para informar o grupo. As histórias do passado são lembradas, Samuel conta que certa vez “dois mensageiros viram dois Xavante sentados na árvore. Os dois pretinhos se deitaram no chão. Um Xavante ouviu, levantou para procurar, mas não viu nada e deitou de novo. Os meninos levantaram e saíram correndo para contar para os outros. Os Iny se prepararam, foram de encontro aos Xavante e começou a guerra”.

Worysy e a chegada da comunidade de Fontoura

Durante o sábado, as mulheres correram entre as casas dos parentes distribuindo bacias de comida. As famílias dos Jiré, que são os donos da festa, precisam fornecer alimentos para muitas pessoas. Mas indiretamente todas as famílias da aldeia que têm crianças em casa participam no fornecimento de alimentação aos visitantes, numa proporção menor. Além das comidas, as famílias presenteiam seus parentes com esteiras, cestarias, redes e objetos adquiridos na cidade.

Quando estão enfeitados, os homens transformam-se em Worysy e seus nomes não podem ser mencionados. Por toda a tarde os Worysy de Santa Isabel cantaram, dançaram e correram pela aldeia.

No final da tarde, eles se reuniram em frente a casa de Sokrowé Karajá, o Ixỹ wedu da tradição, ou ainda “cacique da tradição”. Ele é o principal responsável pela organização do ritual do início ao fim. Em frente a sua casa, os Worysy passaram em seus corpos a “raiz sagrada”, feita a partir de três raízes, que leva o nome de iweru bekurá. “Quem vai lutar e correr passa no corpo para o espírito ficar animado, para não machucar e para correr bem”, explica Sokrowé.

Quando a noite chegou, todos se reuniram na beira do rio e continuaram cantando e dançando até a chegada da aldeia Fontoura. Apesar de durar muitos meses, o Hetohoky tem seu ápice no momento em que a aldeia que realiza a festa recebe os visitantes de outras aldeias. Vindos de barco, os Worysy de Fontoura chegaram no começo da noite de sábado, 29 de março, cantando e demonstrando bravura. É de arrepiar! Os cantos se encontravam e desencontravam numa sincronia espiritual.

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Após a chegada, todos se aproximaram da área onde está a casa de Aruanã, a Casa Grande e o mastro. Os homens lutaram Ijesu, uma luta tradicional que ocorre aos pares, aldeia contra aldeia. As mulheres ficaram em volta torcendo, gritando e rindo, até a hora que chegaram os Ajuesani.

Quem traz o espírito de Ajuesani é a aldeia convidada. Eles chegam ameaçadores e todas as mulheres e crianças devem sair correndo. As histórias do passado dizem que eles são terríveis, fazem mal às mulheres, às crianças, aos cachorros, às galinhas e… “corre que lá vem eles”! Entre gritos e risos, elas correram para se proteger, este é o momento de se resguardar, ficar em casa.

Só depois é que começa a disputa entre as aldeias para derrubar o grande mastro, que foi colocado ali alguns dias antes. A aldeia convidada tenta durante toda a madrugada derrubar o mastro, enquanto a aldeia anfitriã precisa impedir. A luta vai até o amanhecer, quando o Jiré chega para dar início a outro momento do ritual.

Durante os próximos dias, os Jiré ficarão dentro da casa grande, só saindo para ir ao mato caçar com a orientação de adultos. O encerramento da festa será no próximo sábado, 05 de abril, quando a Casa Grande será desmontada.

¹Agradecendo a colaboração de Idjawaru Karajá e Ixyjuwedu Karajá (Sansão) , Sokrowé Karajá e Samuel Yriwana Karajá. Txikotoetuke!

²Como ocorre com muitos nomes de etnias, a palavra “Karajá” era o modo como outra etnia chamava a eles e tem conotação pejorativa. Por isso, a palavra “Iny” tem o uso mais indicado em respeito ao povo.

³ Algumas referências de pronúncia: Hawaló (Raualó); Hetohoky (Retôrrocã); Iny (Inã); Ixỹ wedu (Ixã uedu); Jiré (Djiré); Worysy (Uorãssã) e Wou (Uou)

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Imagens: Lilian Brandt

 

 

 

 

 

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