Mato Grosso presente no III Encontro Nacional de Agroecologia

Estado levou delegação de 40 participantes no encontro que reuniu mais de 2.000 pessoas em Juazeiro da Bahia

Por Maíra Ribeiro/Comunicação AXA

De 16 a 19 de maio de 2014, mais de duas mil pessoas se reuniram em Juazeiro da Bahia para discutir “porque interessa à sociedade apoiar a agroecologia?” Esse foi o tema do III Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), organizado pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA). A ANA reúne movimentos, redes e organizações do país engajados em experiências concretas de promoção e fortalecimento da agroecologia e de alternativas sustentáveis de desenvolvimento rural. A agroecologia aqui é entendida não somente como uma forma de produzir alimentos – que lança mão dos processos ecológicos, valorizando a sociobiodiversidade e sem uso de agrotóxicos – mas como base para relações sociais e com a natureza que superam a produção de mercadorias que caracteriza a agricultura hegemônica atual.

Mato Grosso participou com 40 pessoas de diferentes regiões do estado, pertencentes a associações e grupos de base, movimentos sociais e entidades sociais de assessoria do estado (veja o quadro ao fim do texto). O Grupo de Comunicação da Articulação Xingu Araguaia (AXA) conversou com Cidinha Moura, da FASE/MT, que integrou a delegação mato-grossense, sobre a participação do estado no Encontro Nacional de Agroecologia.

O Encontro que começou muito antes

Uma característica deste encontro é que ele é feito por quem de fato pratica e constrói a agroecologia em nosso pais, de forma que todos os participantes deveriam integrar as delegações estaduais e estar diretamente envolvidos em experiências agroecológicas, com participação de 70% de agricultores e agricultoras. Ao longo de um ano e meio foram realizadas várias atividades preparatórias para o ENA, como encontros estaduais e caravanas territoriais. Além das trocas de experiências e discussões preparatórias para o encontro, as caravanas permitiram construir um panorama de conflitos e disputas vividas nos territórios para compor um quadro abrangente durante o Encontro Nacional de Agroecologia.

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Caravana Agroecológica e Cultural de Mato Grosso

“A realização da Caravana no sudoeste de Mato Grosso foi fundamental para o processo preparatório ao III ENA” lembra Cidinha. A Caravana Agroecológica e Cultural de Mato Grosso aconteceu em Cáceres entre 30 de outubro e 1º de novembro de 2013, organizada por movimentos e organizações integrantes do GIAS e contou com cerca de 150 participantes. Cidinha explica que “durante a caravana, fizemos a discussão da conjuntura atual de Mato Grosso enfatizando as ofensivas do agronegócio, mas também visitamos experiências agroecológicas como a ARPA, ARPEP, Associação Flor do Ipê, como formas de resistência ao agronegócio”. Durante o III ENA, o GIAS apresentou o que foi a Caravana Agroecológica e Cultural de Mato Grosso através da instalação pedagógica e assim, pode dialogar com pessoas de outras regiões do Brasil.

Palestras, experiências e mobilização

A estrutura e metodologia do encontro foram pensadas de modo a contemplar a discussão das ameaças e as experiências nos diferentes territórios. Assim, ocorreram oficinas temáticas autogestionadas e seminários, que abrangiam temas como reforma agrária, conflitos e reconhecimento dos territórios dos povos tradicionais, normas sanitárias e o PLANAPO (Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica). O PLANAPO foi construído pelo governo federal com participação da sociedade civil lançado no fim de 2013 visando ampliar e efetivar ações para orientar o desenvolvimento rural sustentável.

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Ato de encerramento do III ENA

Além das mesas redondas e palestras, o III ENA foi marcado por manifestações e atos em locais públicos. “Não podíamos deixar de manifestar as ameaças sofridas, mas também anunciar a agroecologia como modo de vida” diz Cidinha. O grande ato de encerramento em defesa da agroecologia e contra o agronegócio fechou a ponte entre Petrolina e Juazeiro sobre o Rio São Francisco no último dia do ENA. Além deste, algumas das manifestações ocorridas durante o encontro foram o ato contra a Monsanto, a manifestação denunciando o risco do mosquito da dengue transgênico e a ocupação do escritório da EMBRAPA em Petrolina pelas mulheres.

A participação das mulheres inclusive foi marcante no III ENA. As delegações estaduais deveriam ter paridade de participantes homens e mulheres, o que fez com que o encontro tivesse metade de participantes mulheres. No segundo dia do ENA, houve Plenária das Mulheres para discutir a superação do machismo dentro das relações sociais, seja familiares, seja frente a políticas públicas. “A Plenária foi muito animada, com importantes proposições e depoimentos de mulheres de todo o Brasil. A Plenária foi encerrada com grande ciranda sob o grito de ordem e lema das mulheres no III ENA: sem feminismo não há agroecologia!” conta Cidinha.

Caminhada que segue

O encerramento do ENA se deu com a entrega da Carta Política do encontro ao ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência da República, que se comprometeu a entregar à presidente Dilma. O documento foi fruto dos relatórios e discussões das atividades programadas, refletindo as discussões dos mais de 2 mil participantes. Ali estão presentes respostas às crises atuais enfrentadas pela sociedade, apontando a agroecologia como opção estratégica na perspectiva de um modelo com alimentação saudável, saúde coletiva, preservação do meio ambiente, trabalho com distribuição de renda e oportunidade aos jovens, dentre outros elementos.

“É de fato um enorme avanço e um sonho de sociedade que queremos e desejamos” disse o ministro Gilberto Carvalho ao receber a carta dos movimentos, afirmando que o Estado tem a responsabilidade de dar respostas efetivas às questões cobradas. No entanto, reconheceu que sem uma reforma política essa carta não se tornará realidade. “Não há correlação de forças hoje para que essa carta se torne realidade. As questões estruturais, enquanto houver a bancada dos latifundiários como maioria no Congresso Nacional, não conseguiremos avançar como precisamos. Precisamos garantir um Congresso que de fato represente a maioria dos brasileiros e não a minoria do poder econômico” ressaltou.

Diante deste enorme desafio da conjuntura atual, o III ENA serviu de guia também para as ações e articulações futuras. Em Mato Grosso, Cidinha Moura as elenca: fortalecer o GIAS enquanto articulação estadual de agroecologia; dar continuidade às caravanas agroecológicas e culturais no estado; e participar das sub-comissões do PLANAPO a nível nacional.

Leia a Carta Política do III ENA aqui

Algumas das organizações de Mato Grosso que foram ao III ENA:

– Associação Mutuca do Quilombo Mata Cavalo- Nsa. Sra. do Livramento
– Associação Regional de Produtores Agroecológicos (ARPA) – Mirassol d’Oeste
– Associação Regional de Produtores Extrativistas do Pantanal (ARPEP) – Cáceres
– Associação Rural Juinense Organizada para Ajuda Mútua (AJOPAM) – Juína
– Centro de Tecnologias Alternativas (CTA)
– Comissão Pastoral da Terra (CPT)
– Federação de Órgãos para Assistência Social e Educação (FASE)
– Grupo de Intercâmbio em Agricultura Sustentável de Mato Grosso (GIAS)
– Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)
– Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)
– Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
– Associações indígenas entre outros

Imagens: Cidirlene Cunha/Faceboook (superior e ato) e Articulação Nacional de Agroecologia (caravana)

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