É tempo de praia no Araguaia. É tempo de cuidar dos nossos rios.

Os festivais de praia que iniciam com o mês de julho nos levam à reflexão sobre a qualidade ambiental dos rios da região

Por Maíra Ribeiro

Julho está chegando e junto com o mês, a temporada de praia no vale do Araguaia. Os tão esperados Festivais de Praia começam a pipocar nas cidades beira-rio, com seus palcos na areia e turistas vindos de outros estados.

A temporada é tudo de bom. Assistir shows na praia de água doce, apreciar cerveja e peixe frito com os pés na areia e o privilégio de se refrescar nos rios abençoados destas terras. Famílias planejam o ano todo a chegada da temporada para acampar e literalmente mudar-se por algumas semanas para a beira de rios e lagos. Essa cultura típica do Araguaia é uma ótima vivência na natureza pelos moradores daqui, como diz aquele velho ditado de que é preciso conhecer para respeitar.

Os principais rios da região e que recebem os Festivais de Praia são o Rio Araguaia e o Rio das Mortes. Além das suas praias, há vários lagos, cachoeiras e ilhas que completam a exuberância desta nossa região. Não podemos esquecer da Ilha do Bananal, que podemos ostentar de boca cheia como a maior ilha fluvial do mundo. Trata-se de um enorme ecossistema peculiar, que combina um regime hídrico bem específico com uma diversidade ecológica e cultural, onde vivem os povos Karajá e Javaé.

De nada vale louvar toda essa riqueza, porém, se não trabalharmos para a conservação real dos rios e das vidas e relações que abrigam. O assoreamento é um dos maiores problemas ambientais enfrentados pelo Rio Araguaia desde sua nascente, segundo um estudo de 16 anos de monitoramento desse rio, conduzido pela Universidade Federal de Goiás (UFG).

Pela dinâmica de cheia e vazante do Rio Araguaia, as margens sempre mudam de lugar, aparecendo barrancos e praias cada vez em pontos diferentes. Esse assoreamento é natural. Mas não é dele que nos referimos aqui. O assoreamento que tem crescido muito nas últimas décadas nestes rios tem a ver com o resultado do processo erosivo causado por pessoas. Podemos citar o manejo inadequado do solo nas atividades agrícolas e a retirada da mata ciliar dos rios. A mata ciliar é aquela que se forma ao redor dos cursos d’água e freia vento e chuva, funcionando como um verdadeiro filtro da água que desce até o rio. Apesar da mata ciliar ser protegida como Área de Preservação Permanente (APP) pelo Código Florestal, é muito comum seu desmatamento, seja para aumentar a área de pasto ou lavoura, seja para instalação de empreendimentos imobiliários. Em todos os casos, o resultado é o assoreamento muitas vezes silencioso dos rios. O desmatamento de qualquer vegetação nativa colabora para erosão e assoreamento dos rios.

Por se tratar o Araguaia de um rio largo mas pouco profundo, sua capacidade de transportar os sedimentos que chegam com os assoreamentos é reduzida. Assim, por causa da ação humana, o rio vem recebendo mais sedimentos do que é capaz de transportar no seu fluxo. Consequentemente, as praias vão crescendo, em tamanho e número. Não querendo acabar com a alegria dos turistas, isso deixa o rio cada vez mais frágil e seco.

Um outro problema mais recente que os rios da região vem enfrentando é o uso crescente de agrotóxicos. Neste caso, os produtos tóxicos são levados pela água das chuvas ou pelo vento até os rios. Perto desse potencial de contaminação química, o assoreamento de terra e areia infelizmente parece até um problema menor.

Existem iniciativas interessantes que vale a pena serem conhecidas e replicadas, como a Campanha Y Ikatu Xingu, que atua na recomposição e proteção das nascentes e afluentes do Rio Xingu, e o projeto Rio Limpo, Rio Lindo, que atua no monitoramento e educação ambiental do Rio das Mortes.

Por fim, os festivais de praia trazem mais gente para a praia, o que também significa mais pressão sobre a dinâmica desse ecossistema. Todos já sabem, mas não custa enfatizar que, independente dos problemas de desenvolvimento e planejamento rural e urbano, cada um é responsável por não poluir o espaço em que passeia e se diverte. Poluição aqui não se refere somente ao lixo deixado pra trás. A poluição sonora é uma das mais agressivas nos Festivais de Praia, tanto nas apresentações oficiais quanto nos sons automotivos.

Saiba mais sobre a pesquisa no Rio Araguaia da UFG: http://www.jornalufgonline.ufg.br/

Conheça a campanha Y Ikatu Xingu: http://www.yikatuxingu.org.br/

Confira a página do projeto Rio Limpo, Rio Lindo: http://rio-limpo-rio-lindo.webnode.com/

Imagem: Alexandre Lemos

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