Redes de sementes trocam experiências e discutem o futuro em expedição inédita

A 1º Expedição e Intercâmbio da Rede de Sementes do Xingu (RSX) reuniu 60 participantes de 28 e 30 de maio.

Coletores da RSX e de outras redes da Amazônia e do Cerrado, compradores e colaboradores trocaram experiências e refletiram sobre o futuro

A 1º Expedição e Intercâmbio da Rede de Sementes do Xingu (RSX) reuniu 60 participantes entre os dias 28, 29 e 30 de maio. Coletores da RSX, representantes de outras redes de sementes da Amazônia e do Cerrado, compradores e colaboradores trocaram experiências, refletiram sobre o futuro e os desafios da produção e manejo de sementes florestais.

A expedição começou na sede da Associação Indígena do Xingu (Atix) em Canarana (MT) e dali saiu para visitar fazendas que restauraram e continuam a restaurar áreas degradadas. Depois seguiu para Nova Xavantina (MT) onde se encerrou. Em Canarana, os participantes ouviram uma apresentação da bióloga Rosely Sanches, doutoranda da Unicamp e pesquisadora associada do ISA. Ela fez um histórico do trabalho de recuperação florestal e mostrou a evolução do desmatamento nas cabeceiras do Rio Xingu entre 1997 e 2004. Relatou como foi que o ISA e seus parceiros deram início à Campanha Y Ikatu Xingu, que depois daria origem à Rede de Sementes. A Y Ikatu Xingu nasceu em 2004 com a proposta de recuperar as nascentes e matas ciliares do Rio Xingu e a Rede de Sementes foi criada em 2007 para colaborar com a recuperação florestal promovida pela campanha. (saiba mais sobre a campanha)

Na época em que a campanha teve início, Rosely trabalhava no ISA, no Parque Indígena do Xingu (PIX) e lembrou as preocupações do cacique Mairawe Kaiabi. “A cabeça do Xingu está doente, dizia ele, referindo-se às nascentes dos afluentes do rio, que ficam fora do Parque. Mairawe pediu ajuda ao ISA e aí organizou-se um encontro em Canarana, reunindo indígenas, grandes e pequenos proprietários, agricultores familiares, instituições de ensino e pesquisa, autoridades municipais, estaduais e federais e organizações da sociedade civil. Assim começou a campanha”, relembrou a pesquisadora.

Uma das técnicas utilizadas pela campanha na restauração é o plantio direto mecanizado, que demanda uma quantidade significativa de sementes. Assim, optou-se pela muvuca, mistura de sementes nativas de diversas espécies do Cerrado , fornecidas pela Rede e que é usada com bastante sucesso (saiba mais). A semeadura direta, ao contrário da utilização de mudas, diminui em até 50% os custos com o plantio. A rede conta hoje com 350 coletores espalhados em 21 municípios de Mato Grosso.

Wareaiup Kaiabi e o cacique Managu Ikpeng, resgataram as ações desenvolvidas pela Campanha. Ambos contextualizaram o esforço dos coletores e o valor que tem essa recuperação para os povos que vivem no PIX. “Nós somos apicultores e também estamos preocupados com a nossa floresta. E junto com os coletores queremos preservar as nossas matas”, afirmou Managu Ikpeng.

Em Canarana, a expedição visitou as áreas de restauração da fazenda São Roque, de Amandio Micolino. Ele se tornou parceiro da Campanha Y Ikatu Xingu em 2008 e parte das sementes colhidas foram plantadas nos 6,5 hectares que estão em restauração em sua propriedade. Durante a visita os coletores observaram as diferentes etapas da restauração, reconheceram as espécies das sementes que coletaram. “É muito bom a gente ver as sementes que a gente coleta sendo plantadas, a gente fica animado em saber que está dando certo”, disse Odete Severino Barbosa , coletora de Bom Jesus do Araguaia.

Em Nova Xavantina, visita aos corredores verdes

No segundo dia, a expedição seguiu para Nova Xavantina, onde conheceu de perto o trabalho do grupo que atua no município. Eles se organizam de maneira coletiva, beneficiam juntos as sementes que possuem polpas e criaram protocolos para entrega das sementes, para garantir a qualidade do lote. E para alguns integrantes desse grupo a coleta de sementes é a principal fonte de renda. Vera Oliveira vende as sementes para Rede e usa a polpa das espécies para outros produtos. “As sementes me deram uma oportunidade muito grande, a vida da minha família melhorou. Antes trabalhava como doméstica para complementar a renda, mas hoje a coleta de semente é minha atividade principal”.

A expedição também conheceu a Casa de Sementes gerenciada pelo grupo que coleta cerca de 40 espécies. Ela funciona no quintal de Luzia Marutina de Souza. Ali, os coletores e convidados ouviram as experiências do grupo, tiraram suas dúvidas e debateram sobre suas responsabilidades. Ronaldo Nogueira da Silva, de Santa Cruz do Xingu (MT), conta que antes trabalhava com derrubada de mata, mas começou a perceber que a atividade trazia prejuízos para a natureza. “Quando o Cassiano (referindo-se a um técnico do ISA) chegou e contou que ia começar a trabalhar em um projeto para restaurar as nascentes eu disse ‘quero estar junto de vocês’”. Ronaldo conta que a semente não é sua única renda, mas é uma das mais importantes. “Essa renda da semente ajuda muito, não é pouco e nem médio, é muito mesmo. Toda vez que estava sufocado foi o dinheiro da semente que me ajudou e fico muito satisfeito porque estamos ajudando a preservar a floresta, porque hoje as águas dos rios já estão diferentes, quase não tem peixes e os bichos estão com fome na mata”.

Em Nova Xavantina muitas espécies são coletadas nos corredores verdes que resistem nas propriedades particulares. A expedição visitou uma dessas áreas onde o grupo coleta olandi, mirindiba, tucum, angelim e guariroba e conversou sobre as diferenças da coleta na Amazônia e no Cerrado.

No último dia o grupo visitou o campus da Universidade Estadual de Mato Grosso, Unemat onde ouviu as experiências dos representantes das redes de sementes de Apuí (AM), da Rede de Sementes da Amazônia, da Rede de Sementes do Cerrado, da Rede de Sementes Portal da Amazônia, de Alta Floresta (MT), da Associação Floresta Protegida (AFP) de Tucumã (PA), e do Pacto Xingu – projeto de restauração que está acontecendo em São Félix do Xingu (PA). “Nós estamos do outro lado do Xingu e temos interesse de criar uma rede de sementes lá também”, disse Ademar Rodrigues, secretário de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de São Félix do Xingu. “Nesses encontros nós aprendemos as diferentes formas de organização dos grupos. Nós viemos falar do nosso trabalho e aprender sobre o trabalho de outras pessoas”, disse Anderson Rogério Lopes, animador da Rede Portal da Amazônia.

A 1º Expedição aproximou outras redes de sementes da Amazônia e do Cerrado, e os coletores da RSX e identificou e compartilhou práticas e informações. Para Rodrigo Gomes Vieira, da Rede de Sementes do Cerrado, a expedição proporcionou um momento de aprendizagem. “Nós entramos em contato com professores, técnicos, produtores e nivelou o nosso conhecimento, porque não adianta ter só o diploma, tem que ouvir as pessoas que trabalham no dia a dia e que fazem as coisas acontecer”.

Rogerio Brasileiro, sócio-proprietário da Reflorestar, hoje a maior compradora da Rede, foi um dos participantes e explicou aos coletores como funciona o seu trabalho. Antes, Rogério tinha uma madeireira, mas abandonou o ramo e hoje sua principal atividade é a restauração de Áreas de Preservação Permanente (APPs) de projetos hidrelétricos em Goiás. “O custo do plantio convencional chega a R$ 18 mil por hectare e com a muvuca você consegue fazer por R$ 8 mil. E as perdas são mínimas” ressaltou. Ele tem contratos até 2018 e espera trabalhar em parceria com a Rede de Sementes. “Sem o trabalho dos coletores nada disso seria possível. No ano passado fizemos 600 hectares e nesse ano temos 850 hectares para plantar e sem a Rede não tem como dar continuidade no trabalho”. Seu depoimento emocionou os participantes.

Rede de Sementes e Unemat inauguram laboratório de sementes

Por último o grupo acompanhou a inauguração do Laboratório de Qualidade de Sementes Florestais da Unemat, uma parceria entre a universidade e o ISA. O laboratório vai análisar a qualidade das sementes da Rede de Sementes do Xingu e futuramente poderá desenvolver pesquisas acadêmicas.

Mariney de Meneses, coordenadora do laboratório, disse que um dos objetivos é obter a certificação do Ministério de Agricultura Pecuária e Abastecimento. “Além de ser uma adequação legal a certificação agregará mais credibilidade e garantias aos compradores e coletores dessas sementes” disse a professora.

Cláudia Araújo, secretária da associação da Rede de Sementes do Xingu disse ao coordenador do campus, Amintas Nazareth Rossete, que ao atender as demandas da agricultura familiar da região, o laboratório executa seu papel social de universidade pública. “Na maioria das vezes as universidades servem aos grandes projetos agropecuários que têm apenas interesses lucrativos, e agora com esse laboratório a universidade pode apoiar o trabalho feito pelos pequenos produtores da região”.

Entre os desafios das redes de sementes estão a adequação às normas técnicas e a estruturação dessas iniciativas para atender a demandas por restauração que crescem em todo o país. Entretanto, o futuro de iniciativas como a da RSX e da coleta de sementes dependerá e muito da implantação da nova Lei Florestal aprovada em 2012 e do ajuste à Instrução Normativa 56 do Ministério da Agricultura às realidades dos produtores de sementes florestais (saiba mais). Para Rodrigo Junqueira, coordenador adjunto do Programa Xingu do ISA, apesar dos avanços, algumas medidas exigidas pela IN são difíceis e até inviáveis de serem aplicadas. “A norma foi concebida e é aplicada equiparando as espécies de sementes nativas às sementes exóticas melhoradas e utilizadas em escala empresarial, como eucalipto e pinus. Conhecer e normatizar duas ou três espécies é bastante diferente de fazer o mesmo com centenas de espécies nativas que ainda são pouco conhecidas tanto do ponto de vista técnico como científico”.

Fonte: ISA

Imagem: Dannyel Sá/ISA

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