Benvinda, presente!

Com sua morte, lembramos de sua vida de luta e compromisso com o vale do Araguaia

Por Maíra Ribeiro, com a colaboração de Divanez Alves Correia e Cláudia Araújo

Maria Benvida Moraes faleceu aos 65 anos na manhã desta segunda-feira (18) em Maringá, Paraná, onde fazia tratamento contra um câncer. Ela era professora aposentada muito querida em Porto Alegre do Norte e uma das fundadoras da Associação Terra Viva de Agricultura Alternativa e Educação Ambiental (ATV).

Seu nome já diz tudo, Benvinda nos acolhia sempre com frutas do quintal e um papo antenado na ponta da língua. Teve sua vida compartilhada com Valdo Silva, grande agricultor, conhecedor das plantas e plantador de florestas do Araguaia.

Benvinda e Valdo

Benvinda e Valdo

Benvinda e Valdo são figuras incríveis e indissociáveis. Não só pelo companheirismo da vida conjunta ou por criarem com tanta dedicação seus dois filhos e as tantas árvores que já plantaram. Mas por compartilharem o sonho de transformação social e materializá-lo em ações, marcadas pelo comprometimento e pela integridade. Reservada, Benvinda tinha o olhar sempre atento e colocações firmes, jeito de quem já viveu e lutou muito na vida. Ela era a retaguarda e o esteio da família e dos sonhos construídos.

Militância e ensinamentos

Benvinda nasceu em Astorga no interior do Paraná, e veio para Mato Grosso ainda nos anos 1980. Sua primeira experiência no estado foi como educadora na diocese de Diamantino. De lá, engajou-se nos trabalhos com educação da Prelazia de São Felix do Araguaia, primeiro em Ribeirão Cascalheira e depois em Porto Alegre do Norte. Ela ouvia histórias de conflitos e resistência neste vale do Araguaia, e queria ajudar nos trabalhos desenvolvidos pela Prelazia.

De Porto Alegre do Norte e da educação, ela nunca mais saiu. Começou como alfabetizadora, formou-se no Projeto Inajá I em Santa Terezinha e cursou Letras na primeira turma de parceladas da Universidade do Estado de Mato Grosso – Unemat em Luciara. Trabalhou com o ensino fundamental e médio e se aposentou na Escola Estadual Alexandre Quirino de Souza em Porto Alegre do Norte, onde desenvolveu vários projetos além da sala de aula. Depois de aposentada, não deixou de cumprir sua missão. Junto com Valdo, ela ajudava na alfabetização de quatro crianças de forma lúdica em sua chácara, onde cada criança adotou uma árvore. “Era um orgulho de professora, as crianças e os jovens pediam conselhos, escutavam atentamente sua opinião sobre esses assuntos que ela sabia abordar com tanta delicadeza” nos conta Cláudia Araújo, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), grande amiga e companheira de Benvinda.

Num ambiente impregnado pela indústria cultural de massa, com suas músicas e novelas homogêneas, ela incentivava a criançada e a juventude a participar de atividades artísticas e intelectuais, como o teatro, a dança e a leitura. Tomou a frente no projeto apoiado pelo Escravo, nem Pensar! da ONG Repórter Brasil. Com muita garra e parcerias, desenvolveu um projeto de percussão popular na escola, formando um grupo que cantava ciranda e coco.

Dentro e fora da escola, sua vida foi marcada por sua paixão em viver e sua inquietude frente às injustiças sociais. Foi presidente e participante ativa do Sindicato dos Trabalhadores no Ensino Público (Sintep/MT) em Porto Alegre do Norte. Sempre participou e apoiou os movimentos sociais de Porto Alegre do Norte e região, como o movimento negro, de mulheres e, claro, ambiental.

Fé e teimosia

Era uma pessoa apaixonada pela natureza, que defendia a unhas e dentes. Sua casa em Porto Alegre do Norte é um cantinho do que ela almejava para a sociedade: uma casa aberta e aconchegante cercada por uma verdadeira floresta plantada e produtiva. Tem ainda uma casa de sementes, uma biblioteca, criação de pequenos animais, um viveiro de mudas e muitas flores. Mas ela não guardou para si ou para sua família esta paixão. Atuando na ATV, desenvolveu vários trabalhos socioambientais.

Denunciava o agronegócio como modelo de produção da morte, que extermina não só a fauna e flora, mas que mata aos poucos o ser humano, seja pela concentração das riquezas e exploração humana, seja pela contaminação por agrotóxicos e transgênicos. Denunciou a relação do modelo dominante com as doenças alérgicas das crianças na região e a mortalidade de peixes no Rio Tapirapé, que banha sua cidade.

O destino não podia ser mais triste e Benvinda foi vítima justamente de uma doença que ela tanto alertava pela sua relação com esse modelo produtivo. Descobriu um tumor maligno na região pélvica em fim de 2013 e começou o tratamento com quimioterapia, junto à sua família em Maringá.

Benvinda, porém, não é a única a enfrentar este mal, e continuamos na região expostos aos agrotóxicos liberados por ar, terra e água pelo agronegócio. Sua amiga e companheira de luta, Rose Costa, outra figura ativa de Porto Alegre do Norte, continua firme na luta contra o câncer. Neste ano, com a ausência das duas na cidade, Porto Alegre do Norte perdeu um pouco do seu brilho e parece tão somente mais uma pequena cidade sem graça de beira de estrada.

Benvinda vibrava com a possibilidade de transformar este vale do Araguaia, onde ela construiu seu lar, em um lugar melhor. Sua amiga e colega, professora Divanez Correia nos fala de Benvinda: “Atuava com convicção. Viveu com dignidade. Pregava o que fazia. Seu maior sonho era ver um mundo onde todos fossem tratados igualmente, tendo comida na mesa e amor no coração, como dizia Valdo, seu fiel companheiro”.

Seu legado está conosco e sua memória é a nossa força para continuar nesta luta.

Imagens: Dandara Moraes

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