Índios Kisêdjê retomam produção de óleo de pequi

Muito tradicional entre os índios do Parque Indígena do Xingu (PIX), o pequi começa a dar renda aos Kisêdjê, da Terra Indígena Wawi, que fica em anexa ao PIX. É que desde 2011, a comunidade por meio de sua associação, a AIK, trabalha com um projeto para produção e comercialização de óleo de pequi.

Por Rafael Govari / ISA

O pequi é muito apreciado pelos índios e faz parte de sua culinária tradicional. Todos os anos eles plantam pequi em roças de mandioca. Em 2006, os índios Kisêdjê plantaram três hectares em uma área degradada, totalizando 263 pés de pequi. A plantação começou a produzir neste ano e a primeira colheita está se iniciando.

Além do uso culinário gourmet, que está sendo descoberto por chefs de cozinha, o óleo é tradicionalmente passado no corpo pelos índios. Na cultura popular brasileira o óleo tem várias funções, como hidratante corporal, remédio para problemas respiratórios e repelente de insetos. A frase bem difundida na região é que roupa do índio era o óleo de pequi.

A ideia de produzir o óleo e vendê-lo à empresa Natura surgiu em 2000, para a produção de cosméticos, mas a iniciativa não progrediu. Em 2011, o projeto foi colocado em prática. De acordo com o colaborador do ISA, Eduardo Malta, os índios estavam buscando uma fonte de renda para suprir suas necessidades básicas, como tratamento de saúde, combustível para os barcos… “Então a comunidade resgatou a ideia”, disse Eduardo. O projeto conta com o apoio técnico do ISA e financeiro e organizacional do Instituto Bacuri e do Grupo Rezek.

Primeiro foi realizado um estudo sobre mercado (o óleo é utilizado na culinária, na indústria farmacêutica e de cosméticos); e também um estudo sobre as técnicas de produção.

Projeto pronto, foi conseguido o recurso, que envolveu vários parceiros, inclusive fazendeiros. Uma mini usina para extrair o óleo da polpa do pequi foi construída na aldeia Ngohwêrê. É uma casa de madeira que possui pia inox para lavar os frutos, fogão industrial onde são cozidos os pequis, máquina despolpadeira (inventada pelo produtor Edemo Correa, de Canarana), além de tacho, batedeira e prensa.

A produção em escala comercial do óleo no primeiro ano foi muito baixa. Em 2011 foram produzidos apenas 3 litros. Esse número aumentou para 10 em 2012. Mas o esforço foi recompensado e no ano passado ela saltou para 170 litros. Neste ano, a produção começa agora e se estende até o término de 2014.

Eduardo Malta explicou que o aumento foi possível graças à sabedoria dos índios. Vendo que a produção não era satisfatória, eles voltaram a utilizar sua técnica tradicional na extração do óleo, chamada de extração à frio, que tem o nome técnico de flotação (onde o óleo fica por cima). “Além de aumentar a produção, melhorou também a qualidade, ficando mais transparente e com o cheiro da fruta”.

A produção do óleo do pequi hoje movimenta as aldeias. “Em 2011 eram apenas dois jovens e no ano passado os cerca de 500 índios Kisêdjê se envolveram de alguma forma nos trabalhos”, explicou o colaborador.

Vencida esta etapa, agora há outra.

O mercado para o óleo existe, mas os clientes já possuem os seus fornecedores. No ramo dos cosméticos, um cliente encomendou apenas dois litros. Para conquistar o mercado da culinária, exemplares com o óleo foram enviados para chefs de cozinha de São Paulo para promover o óleo de pequi dos índios do Xingu.

Um deles é o chef Alex Atala, premiado nacional e internacionalmente. Alex vai ajudar a desenvolver o rótulo e uma embalagem para comercializar o óleo do pequi dos Kisêdjê.

“Ele [Alex Atala] disse que o óleo é incrível, diferente daquele que conhecia, o pequi do cerrado. Os chefs de cozinha que avaliaram o óleo do povo Kisêdjê disseram que este tem sabor mais frutado, tem duração mais prolongada no paladar, nível maior de saturação [o que o torna ótimo para frituras], cor viva e transparente, sendo indicado para saladas, massas e para fazer o arroz”, explicou Eduardo Malta.

O óleo é vendido a R$ 80,00 o litro e interessados podem adquirir o produto no ISA em Canarana, avenida São Paulo, Centro, telefone 3478-3491; ou em São Paulo pelo telefone (11) 3515-8900.

Fonte: Rede de Sementes do Xingu

Imagem: Eduardo Malta

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