Módulos trazem formação socioambiental para moradores do Assentamento Dom Pedro, em São Felix do Araguaia/MT

Nos encontros, assentados aprenderam e debateram temas como produção sustentável e legislação ambiental

Por Maíra Ribeiro/AXA

De agosto a outubro, aconteceram três módulos de formação no Projeto de Assentamento (PA) Dom Pedro, na zona rural de São Felix do Araguaia, Mato Grosso, a cerca de 120 km da cidade. As atividades foram organizadas pelo Projeto Socioambiental da Associação Nossa Senhora da Assunção (Ansa). Cada módulo contou com cerca de 30 participantes, entre beneficiários dos projetos da Ansa, não beneficiários, alunos e professores, todos assentados no PA Dom Pedro. Os módulos tiveram a parceria das entidades convidadas Comissão Pastoral da Terra (CPT) e Empresa Matogrossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer).

A Ansa trabalha há quase dez anos junto aos assentados do PA Dom Pedro, apoiando na produção diversificada e sustentável dos assentados e na conservação ambiental. Complementarmente, a entidade tem trabalhado com educação ambiental junto às escolas do assentamento e em espaços de formação para os assentados parceiros.

Módulo de formação no PA Dom Pedro

Ana Lúcia Silva Sousa, coordenadora do Projeto Socioambiental da Ansa, explica que os módulos dão continuidade a estas atividades visando aprofundar questões de interesse para os participantes e para os trabalhos desenvolvidos. “Este ano, priorizamos os módulos com temas distintos e demandados pelos participantes. Os módulos nos trazem um olhar mais direto para as ações que estão sendo feitas no assentamento, para que façamos as coisas certas, organizadas e pensadas em grupo, sempre com o cuidado de valorizar o meio ambiente.” conta Ana Lúcia.

Como foram os três módulos de formação

O primeiro módulo aconteceu nos dias 25 e 26 de agosto, mediado pelo próprio projeto Socioambiental junto com a fábrica de polpas Araguaia, ambos da Ansa. Neste módulo, foram discutidos temas como sustentabilidade, comercialização e uma introdução à legislação ambiental, no qual foram tratados os biomas Cerrado e Amazônia. O PA Dom Pedro está em uma área de transição da Amazônia para o Cerrado, o que confere uma grande diversidade de paisagens e formações vegetais ao assentamento. Além disso, é necessário uma atenção especial à legislação ambiental, já que esta difere em relação aos lotes que estão em área de Cerrado ou de Amazônia.

No segundo módulo, nos dias 25 e 26 de setembro, a CPT Araguaia trouxe o debate sobre a segurança alimentar e a oposição entre a produção do agronegócio e da agroecologia. Os participantes deste módulo aproveitaram para recordar o papel pioneiro da CPT no assentamento Dom Pedro. Foi a CPT que trouxe as primeiras formações e propostas de trabalhar com o casadão e sem agrotóxicos.

Apresentação dos grupos de discussão durante módulo

O último módulo foi conduzido pela Empaer e aconteceu entre 30 e 31 de outubro. Neste módulo, Jorcelina, da Empaer de Vila Rica, focou nos pontos da legislação ambiental que afetam as famílias assentadas. Assim, foram apresentados e debatidos o novo Código Florestal e o Cadastro Ambiental Rural (CAR). O CAR é um cadastro ambiental instituído pelo novo Código Florestal, de 2012, que deve ser feito por todos os estabelecimentos rurais no Brasil. Neste módulo, os participantes fizeram o desenho de seus lotes, calculando as porcentagens de reserva legal (RL) e de áreas de proteção permanente (APP). Para finalizar, os participantes fizeram exercícios introduzindo a elaboração do CAR.

Estes espaços de formação, unidos às práticas ecológicas, são importantes para a autonomia e organização das famílias assentadas. “Conseguimos levar informação, conhecimentos, aprendizados e momentos de alegria entre todos. A formação deve continuar, pois sempre tem informações novas e precisamos estar por dentro, principalmente sobre as leis e melhoria para a produção familiar” avalia Ana Lúcia.

Porém, há muito por fazer. Neste ano, as queimadas foram arrasadoras para muitos dos assentados do PA Dom Pedro. Dona Raimunda Barros dos Santos, por exemplo, teve grande parte do seu casadão, iniciado em 2001, queimado. Apesar do desânimo e da tristeza, estes espaços ajudam a dar perspectivas de continuidade para os assentados. “Foi possível ver e sentir na pele como o fogo tomou conta das áreas, devorando tudo que vinha pela frente. Mas em grupo estamos nos articulando e nos mobilizando, criando ações em conjunto para melhorar a situação” conta Ana Lúcia.

Participantes do segundo módulo de formação no PA Dom Pedro

Ansa no PA Dom Pedro

A parceria da Ansa com os assentados do PA Dom Pedro já existe há quase dez anos e vem, literalmente, colhendo frutos. Atualmente, são cerca de 70 famílias agricultoras neste assentamento engajadas em produções diversificadas e sustentáveis.

As atividades conduzidas pela Ansa no assentamento incluem a geração de renda através da venda de frutas para a fábrica de polpas Araguaia, gerenciada pela Ansa. Os assentados do PA Dom Pedro produzem cerca de 15 toneladas por ano de caju que são transformadas em polpas. O projeto Socioambiental atua com a recuperação de áreas degradadas nas beiras de rios e nascentes através de sistemas agroflorestais, os casadões. Por fim, a Ansa apoia o Núcleo de Coletores da Rede de Sementes do Xingu no assentamento. Na Rede de Sementes, os coletores vendem sementes florestais para reflorestamento, gerando renda com a conservação da floresta e do cerrado.

Saiba mais sobre o casadão e outros trabalhos desenvolvidos na região na nossa Reportagem Especial Natureza, Beleza, Alimento na Mesa, Alegria no Coração, É o Casadão.

Imagens: Arquivo Ansa

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