Presidente deve ouvir força popular, diz bispo

“O PT cometeu erros graves, mas é melhor, sem comparação”, disse dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito da prelazia de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, ao comentar a vitória de Dilma Rousseff.

Por  Flávia Marreiro (Enviada especial Folha de São Paulo)

A frase combinava com a atmosfera de alívio entre religiosos e auxiliares na casa de dom Pedro, um nome proeminente da ala esquerda da Igreja Católica, com laços históricos com o PT, um dia depois da eleição mais acirrada da história recente.

No Mato Grosso a vitória foi de Aécio Neves. No Vale do rio Araguaia, aposta dos produtores para dobrar a área cultivada de soja no Estado nos próximos anos, o tucano teve folgada vantagem.

Sentado em frente ao ventilador que tentava amenizar o calor denso da cidade, às margens do rio Araguaia, dom Pedro, com 86 anos, falava com bastante dificuldade, debilitado pelo Mal de Parkinson. Seu assistente, frei Paulo Santos, ajudava na compreensão de frases.

O domingo da apuração havia sido longo. O bispo, que em geral se recolhe para dormir no começo da noite, esperou o discurso de Dilma.

Disse ter gostado da menção da presidente à reforma política, mas defendeu que Dilma “deve continuar criando espaços para diálogo com o movimento popular –relativizando os partidos, os sindicatos–” para levar adiante a promessa de mudança.

Foi então que citou o papa Francisco, que, naquele mesmo dia, iniciara, em Roma, encontro com movimentos sociais, entre eles o MST.

“O papa é uma revolução dentro da igreja”, disse.

O entusiasmo para falar sobre Francisco, a quem os católicos ligados à esquerdista Teologia da Libertação na América Latina veem como um encorajador de suas práticas, teve seu reverso quando o tema foi a soja na zona.

O bispo, nascido na Catalunha (Espanha), ganhou fama mundial ao defender direitos dos povos indígenas e terra para a reforma agrária.

Radicado na região desde 1968, d. Pedro vê agora a área se transformar na nova fronteira dos produtores de grãos, após o auge da pecuária.

Pelo menos um assentamento que ele ajudou a criar, o Mãe Maria, na região da cidade de Alto Boa Vista, tem sido assediado por grandes produtores de soja.

O assentado Hercival da Silva, 57, contou que arrendará, neste ano, sua terra a um sojeiro e receberá sacos dos produto como pagamento –um trato que ele diz ser mais rentável do que produzir alimentos em pequena escala.

Questionado, o bispo se disse frustrado. Culpou o governo: “O Incra não tem estrutura nem credibilidade”.

Na questão indígena, ele vê um problema de fundo. Afirma que todo governo é, “por definição”, contra os interesses indígenas, que se chocam aos da monocultura e do agronegócio. A diferença, para ele e seu grupo, é que com o PT eles julgam ter mais canais de comunicação e espaço de negociação.

Terra Xavante

É a proeminência do bispo, seus contatos na igreja, no governo e fora dele, que alimentam a imagem de poder que ele tem no Vale do Araguaia, em contraste com a casa simples onde mora, com tijolos aparentes em alguns cômodos e uma pequena capela no quintal.

“Quantos prefeitos por aqui falam direto com a Presidência, como o bispo?”, ilustrava Luiz Surubim, 46, assessor do deputado federal Julio Campos (DEM).

Ameaças de Morte

Em 2012, o bispo teve de sair às pressas do local após receber ameaças de morte por ter sido o principal porta-voz da campanha dos xavantes para a retirada de não índios da terra Marãiwatsédé, de 165 mil ha, homologada em 1998.

A ordem de desintrusão foi dada pela Justiça, e a operação de retirada foi coordenada por forças federais. Assessores da Presidência acompanharam o processo.

A retirada de fazendeiros da área foi uma das maiores vitórias da trajetória de d. Pedro, mas, se depender de seus oponentes na região, ele também amargará frustação.

“Quero que d. Pedro esteja vivo para ver isso [a devolução da terra aos não índios]”, diz Luis Alfredo Abreu, advogado de fazendeiros e pequenos posseiros que estavam em Marãiwatsédé.

Abreu, irmão da senadora reeleita e líder ruralista Kátia Abreu, diz ter provas de que houve erro na demarcação–induzida por d. Pedro “sem dolo”, ele afirma–e que o STF (Supremo Tribunal Federal) lhe dará a vitória, seguindo decisões recentes.

“Admiro dom Pedro. É um homem íntegro, de convicções. Para ele primeiro é índios, depois os pobres e bem depois vem os outros. Mas para Deus são todos iguais.”

Fonte: Folha de S. Paulo

Imagem: Jorge Araújo/Folhapress

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