Descalço sobre a Terra Vermelha – um filme sobre o Araguaia

Apesar de estar no “fim do mundo”, como disse o personagem Josué no início do filme Descalço sobre a Terra Vermelha, os moradores de São Félix do Araguaia (MT) tiveram o privilégio de serem os primeiros a assistir a versão brasileira do filme.

Por Lilian Brandt / AXA

O pré-lançamento do filme, nos dias 2, 3 e 4 de dezembro no Centro Comunitário Tia Irene, contou com presenças importantes, entre vários outros, o produtor e escritor Francesc Escribano, Assunção Hernandes, da Raiz Produções, o ator Eduardo Magalhães, o diretor geral da EBC, Eduardo Castro, Dom Adriano, cacique Damião Paridzané, irmã Odile, membros do CIMI (Conselho Indigenista Missionário), da CPT (Comissão Pastoral da Terra), indígenas Xavante e Karajá, além do maior homenageado da noite, dom Pedro Casaldáliga.

O autor do livro que deu origem ao filme, Francesc Escribano, conhecido como Paco, falou que a história de Pedro precisa ser conhecida pelo mundo: “é uma história muito importante, que fez o povo da região ganhar a sua dignidade e liberdade”.

IMG_5751 IMG_5753O secretário nacional de Articulação Social da Presidência da República, Paulo Maldos, disse que era um dever da Presidência apoiar a produção deste filme, que fala da história dos posseiros, indígenas e moradores da região, com uma mensagem de amor e luta. “É a busca dos valores humanos frente a opressão, a vitória da vida contra a morte”, disse.

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Dom Adriano, bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia, falou da importância do filme para que a saga de Pedro fique na memória de todos. Eduardo Castro, diretor geral da EBC, disse que a história de Pedro orgulha o povo de Catalunha, os brasileiros e o mundo todo.

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Foram distribuídos 2.050 ingressos, e cerca de 1.750 pessoas assistiram ao filme, com direito a pipoca e suco natural. A emoção tomou conta do público: às vezes se ouvia choro, às vezes se ouvia risos. É porque não estavam ali expectadores comuns, estavam pessoas que participaram da história de Pedro e pessoas que participaram da produção do filme.

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Aproximadamente 1.300 moradores da região trabalharam nas filmagens como figurantes, e tantos outros emprestaram objetos para compor o cenário. Para uma cidade pequena como São Félix, foi impactante a presença dos atores e da produção durante os meses de trabalho. Por isso, em São Félix, todos são parte do filme.

Dom Pedro Casaldáliga, com 86 anos, ficou no Centro Comunitário até o fim da exibição. Após o término do filme, ele recebeu os cumprimentos do público emocionado.

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O evento aconteceu com a colaboração da ANSA (Associação Nossa Senhora da Assunção), da Prefeitura Municipal de São Félix do Araguaia, da Secretaria de Educação, da Rádio Araguaia FM, da Prelazia de São Félix do Araguaia, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, de indígenas Karajá e da casa do Pedro.

Um filme não só sobre Pedro, mas sobre suas causas e seus amigos

Certa vez, Pedro disse que concordou com a realização do filme desde que este não fosse sobre sua vida, mas sim sobre suas causas. As causas de Pedro, sabemos bem, é levar a palavra de Deus aos mais necessitados, é a justiça social, é lutar contra o latifúndio, contra a corrupção e contra a escravidão.

Por isso, o filme não é só sobre Pedro. É sobre tempos em que na região do Araguaia se convivia todos os dias com a morte. O filme é também sobre padre Jentel, sobre Moura, sobre Rosa, sobre Josué…

É sobre padre João Bosco, assassinado por um tiro disparado por um soldado em Ribeirão Bonito (hoje chamado Ribeirão Cascalheira), ao questionar a tortura de duas mulheres e provavelmente, por ter sido confundido com dom Pedro Casaldáliga.

É sobre tia Irene, que se dedicou à educação, à música e foi fundadora da ANSA, marcando para sempre a história do Araguaia com seu carisma.

É sobre as irmãzinhas de Jesus, Genoveva e Odile. Veva passou a maior parte dos seus anos entre os índios Tapirapé, tendo falecido em 2013. Odile segue dedicando sua vida para suas causas, especialmente a causa indígena.

E claro, o filme é sobre dom Pedro Casaldáliga, considerado por muitos que o tinham como inimigo um “padre comunista”. Mas essa definição não lhe contempla, Pedro é um poeta da natureza, Pedro é dedicado às causas sociais, Pedro é amor aos mais pobres.

O filme Descalço sobre a Terra Vermelha foi dirigido pelo cineasta catalão Oriol Ferrer, e realizando em coprodução da TV Brasil com mais duas televisões públicas, a espanhola TVE e a catalã TVC.

Paco disse que a equipe esteve por cinco meses em São Félix, e agradeceu o acolhimento e a maneira que as pessoas participaram do filme. Ele disse que esta participação foi essencial: “o apoio das pessoas daqui fez com que todo mundo colocasse o coração no filme e isso se mostrou no resultado final. Por isso, em todos os festivais que participamos, ganhamos prêmios. Isto é o que fez o filme ser possível. Para nós é um sonho feito realidade”, disse.

Em 2014, a produção ganhou os prêmios de melhor ator (Eduard Fernández que interpreta dom Pedro) e melhor trilha sonora original na 27ª edição do Festival Internacional de Programas Audiovisuais (Fipa), na França. O filme também foi premiado no New York International TV & Film Awards. Mas para Paco, “o melhor prêmio será que o público se sinta orgulhoso do filme”, disse na estréia. Paco pode ficar tranquilo, o público de São Félix saiu satisfeito.

Já estão previstas exibições na Jamaica e na França. A produção será exibida na TV Brasil em três episódios nos dias 13, 20 e 27 de dezembro, sempre às 21h30 (horário de Brasília).

Assista ao trailer do filme:

Imagens: Lilian Brandt

3 thoughts on “Descalço sobre a Terra Vermelha – um filme sobre o Araguaia

  1. Phelipe

    Casaldáliga tinha paixão pela missão que acreditava estar imbuído. Mas não era uma paixão ingênua, tão pouco romântica, era uma paixão muito realística. E era essa paixão que o empurrava para cumprir sua vocação, mesmo quando a desânimo se abateu sobre ele, como o filme mostrou em alguns momentos. Afinal, mesmo com todas suas virtudes, que podem fazer com que alguns queiram torná-lo um herói, Casaldáliga é tão humano como qualquer um de nós. E, talvez seja essa sua maior virtude: conseguir transmitir o evangelho de forma tão humana como o fez, se compadecendo e sofrendo a dor do outro, se indignando com as injustiças contra os pobres, cuidando dos desamparados.
    Veja uma análise missiológica do filme no link a seguir: http://wp.me/p1lf8I-9t

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  2. Phelipe

    O trabalho de Dom Pedro Casaldáliga é mostrado como um exemplo muito positivo e inspirador, no que se refere ao comprometimento e a paixão, que se espera de alguém que crê estar imbuído de uma missão. É justamente esse profundo senso de missão que faz o bispo enfrentar as dificuldades da selva amazônica, as ameaças de morte, o cerceamento da liberdade pela Ditadura e todo um sistema de exploração, que se legitimava em nome do progresso.
    Confira uma análise missiológica do filme no link a seguir: http://wp.me/p1lf8I-9t

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