Estudantes da UFMT visitam grupos sociais e iniciativas socioambientais no Xingu Araguaia

Viagem de campo do curso de Geografia visou conhecer a realidade regional através dos seus conflitos e mobilizações

Por Maíra Ribeiro

De 1º a 4 de dezembro, a região do Xingu Araguaia em Mato Grosso foi percorrida por um grupo de estudantes do curso de Geografia do Campus Araguaia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) de Barra do Garças/MT. Com o objetivo de conhecer e vivenciar a realidade regional, o grupo seguiu a rota de assentamentos, terras indígenas, retireiros e organizações de mobilização social nos municípios de Bom Jesus do Araguaia, Porto Alegre do Norte, São Félix do Araguaia, Alto Boa Vista e Luciara.

“Por meio da categoria de análise movimentos sociais, buscou-se compreender os conflitos socioambientais e a mobilização social na região. Nesse sentido, vínhamos observando as atividades desenvolvidas pela Rede de Sementes do Xingu, a campanha Y Ikatu Xingu, os movimentos sociais e organizações coletivas da região como a ATV, Opan, Isa, Ansa, Cimi, e a AXA como articulação” explicou o professor Magno Silvestri, que conversou com a AXA sobre esse trabalho. Este é o terceiro ano em que esta prática de campo é realizada como parte da disciplina por ele ministrada de Geografia dos Movimentos Sociais e Cidadania, na UFMT.

Ao fim da viagem, os estudantes relataram a importância de conhecer a realidade local e regional para além das teorias estudadas em sala de aula e discutiram as perspectivas dos movimentos sociais urbanos e rurais de outros cantos do país e da América Latina.

Numa região marcada por isolamento e distância de centros universitários, a parceria dos movimentos sociais e entidades locais com universidade é mais que bem vinda. “Estas visitas geram perspectivas de construir de fato uma parceria com estas organizações sociais contemplando a responsabilidade social que tem a universidade pública. Se existe um espaço em que devemos assumir esse compromisso, esse espaço é a universidade pública! É aqui que devemos ampliar os debates sobre a agroecologia, as lutas sociais e da permanência na terra, do respeito e reconhecimento dos povos indígenas e seus territórios de origem” conclui Magno.

Roteiro de vivências

Após uma longa viagem saindo de Barra do Garças, a primeira parada do grupo não podia ser mais emblemática: Aldeia Marãiwatsédé, no município de Bom Jesus do Araguaia. Lá, o grupo foi recebido por Carolina Rewaptu, Cosme Rité e o cacique Damião Paridzané. Os indígenas apresentaram a comunidade, sua luta de conquista da terra e também as atividades que tem desenvolvido na reconstrução do território. “Marãiwatsédé é a nossa grande referência dos últimos dois anos nesse projeto de visitação às comunidades tradicionais da região” lembra Magno.

Escombros do Posto da Mata na TI Marãiwatsédé. Foto: Magno Silvestri

No dia seguinte, a parada foi a sede da Associação Terra Vida (ATV) em Porto Alegre do Norte e residência de seu presidente Valdo da Silva. A ATV atua na promoção da agricultura ecológica camponesa na região além de realizar suas próprias experiências agroflorestais. Magno conta que “Valdo nos relatou sua experiência de vida até chegar a Porto Alegre do Norte e o seu envolvimento com as causas ambientais. Com ele, conhecemos a história das ações da associação, os projetos como a Rede de Sementes e as articulações estruturais que desenvolvem, especialmente com a Comissão Pastoral da Terra (CPT) nas ações regionais”.

Valdo e Magno na frente da Casa de Sementes da RSX na ATV. Foto: Magno Silvestri

Valdo e Magno na frente da Casa de Sementes da Rede de Sementes do Xingu na ATV. Foto: Magno Silvestri

Dali, o grupo partiu para a beira do Rio Araguaia, com parada em São Felix do Araguaia. Chegaram em momento oportuno para assistir o lançamento nacional do filme “Descalço sobre a Terra Vermelha” de Oriol Ferrer, sobre a vida de Dom Pedro Casaldáliga e sua luta na região, como relata Magno: “Participar da estreia nacional deste filme e ter a oportunidade de rever Casaldáliga foi único para todo o grupo de estudantes. O filme resume bem a história de ocupação, os conflitos, e as lutas sociais na região”.

Estudantes do Curso de Geografia com Pedro Casaldáliga. Foto: Raimunda Costa

Estudantes da UFMT com Pedro Casaldáliga em São Felix do Araguaia. Foto: Raimunda Costa

No dia seguinte partiram para Luciara, também às margens do Rio Araguaia. A cidade é a mais antiga da região, conta com diversos grupos sociais e também conflitos atuais. Pouco antes de chegar na cidade, o grupo visitou a Terra Indígena São Domingos, habitada por indígenas Karajá. Na aldeia Krehawa, conversaram com o cacique Timóteo Karajá que relatou sua história de vida, costumes e simbologias tradicionais, além dos problemas enfrentados pela comunidade.

Visita ao Posto de Saúde Indígena da Aldeia Krehawa. Foto: Raimunda Costa

Visita ao Posto de Saúde Indígena da aldeia Karajá Krehawa. Foto: Raimunda Costa

Em Luciara, o grupo conheceu o trabalho do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) na região, em conversa com a indigenista Olímpia Soares. A retireira Inês Wickroski Sales falou da luta dos Retireiros do Araguaia pelo reconhecimento do seu território como Reserva de Desenvolvimento Sustentável para salvaguarda da terra e suas práticas tradicionais de manejo de gado e do cerrado.

Encontro com Olímpia do Cimi e o Cacique Timoteo em Luciara. Foto: Raimunda Costa

Encontro com Olímpia do Cimi e o Cacique Karajá Timoteo em Luciara. Foto: Raimunda Costa

Mas não foram só experiências de construção e resistência do povo do Araguaia Xingu que puderam vivenciar. As péssimas condições das estradas de terra que unem as cidades visitadas obrigaram o ônibus a trafegar a 30 km/hora. Para completar, no retorno de Luciara para São Felix do Araguaia, o ônibus quebrou. Afinal, estradas de terra precárias, atrasos e longas distâncias também são parte da realidade regional.

De volta para São Felix do Araguaia, o grupo iria visitar as experiências da Associação Nossa Senhora da Assunção (Ansa). Infelizmente, a quebra e conserto do ônibus inviabilizaram a visita à fábrica da Araguaia Polpas de Fruta, iniciativa da Ansa que promove a produção sustentável e diversificada nos assentamentos da região.

“Mesmo com todos esses problemas, a viagem com o grupo de estudantes foi vibrante por tudo que conhecemos, pelas pessoas com quem conversamos, pela luta que admiramos nessa gente do Araguaia. E ficou a certeza de que é com essas pessoas, com as comunidades tradicionais que queremos construir a geografia regional!” relata Magno e completa: “A vivência proporcionada nas comunidades tradicionais do Araguaia Xingu, a participação na sessão de estreia do filme sobre Pedro e o aprendizado com cada sujeito ativo destas organizações e movimentos alimenta novas perspectivas de trabalhos futuros e um novo horizonte sobre as espacialidades e temporalidades da região, tão distinta de norte-sul, de baixo-alto Araguaia-Xingu”.

Sede da Associação Terra Viva em Porto Alegre do Norte. Foto: Magno Silvestri

Sede da Associação Terra Viva em Porto Alegre do Norte. Foto: Magno Silvestri

Imagem destacada: Estudantes do curso de Geografia em frente ao Centro Comunitário da Prelazia em São Felix do Araguaia, por Raimunda M. de Araujo Costa. Demais fotos com crédito na legenda.

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