A Terra e os povos no Mato Grosso gritam com a vida e choram com sangue

Denúncias do Caderno de Conflito no Campo referente ao ano de 2014

Por Cristiano Cabral/CPT-MT

Dentro da lógica em que a transformação de qualquer coisa em mercadoria, com o objetivo de possuir o lucro, é o único fundamento de uma sociedade, de uma política e de um planejamento econômico; então a vida, os modos de vida, a tradição e as diversas maneiras de se viver sobre a terra são excluídas de sua importância central pra homens e mulheres.

É esta lógica da mercantilização da terra, dos alimentos, dos trabalhadores, da água, ou seja, da vida como um todo, que está dominando o campo no estado do Mato Grosso. A ganância de concentrar cada vez mais terra para criar gado, produzir soja, milho, algodão ou somente para deixá-la sem produzir, só para especulação, é uma das maiores causadoras de conflito no estado. Em Mato Grosso, 7,7% dos proprietários latifundiários, com mais de 1.000 hectares, possui 77,51% das terras. Os pequenos produtores, com área de até cem hectares, representam 68,55% dos proprietários e possuem somente 5,53% das terras. Uma desigualdade absurdamente injusta.

Esta concentração, juntamente com tentativas de aumentá-la pelas invasões de terras indígenas, de comunidades quilombolas e camponesas geraram no estado, só em 2014,  cinco assassinados, somente atrás do Pará, e oito ameaças de morte. Desde 1985, quando a Comissão Pastoral da Terra – CPT começou a organizar os dados em um Caderno de Conflitos no Campo já foram 124 assassinados no Mato Grosso; e nenhum mandante foi preso. Assim, a impunidade sobre os assassinos feita pelo Poder Judiciário é a segunda causa de tantos conflitos no estado.

O mesmo Judiciário, seguindo a política dos poderes Executivo e Legislativo, despejou, em 2014, 129 famílias que precisam de terras para trabalhar e manter-se. Desde 2000, foram mais de 18.000 famílias pobres e trabalhadoras despejadas no estado. Permanece assim, a concentração de terras nas mãos dos grandes fazendeiros e empresários do agronegócio, que são os mesmos que escravizam trabalhadores ou os superexploram em suas fazendas com péssimas condições e baixos salários. Só no Mato Grosso, foram denunciados 14 trabalhadores escravizados em 2014 e de 2000 à 2014 foram denunciados 7.258 escravizados. Soma-se a isso as demissões em larga escala motivadas pela mecanização do processo produtivo.

São estas condições de trabalho juntamente com a saudade da terra, a vontade de ter sua própria produção e um lugar para estar com a família que fazem camponesas e camponeses lutarem por um pequeno pedaço de chão. Estas motivações criam acampamentos, que envolveram 50 famílias em 2014, e ocupações, envolvendo 262 famílias nesse ano, em todo Mato Grosso. Um caso importante foi na região do Araguaia, em Santa Terezinha, onde 78 famílias reivindicam 1.270 alqueires na Gleba Carlos Pelissioli, desde o ano de 2008. Em meio a acampamento e produção, houve despejos, violências e injustiças. Realidade de muitas outras famílias em todo o estado.

Outra luta tão importante quanto a luta pela terra é a luta pela água. Esta se faz principalmente contra os grandes projetos governamentais de Usinas Hidrelétricas – UHE e Pequenas Centrais Hidrelétricas – PCH. Luta essa que envolveu 1.247 famílias em seis ocorrências no estado, principalmente na região norte, onde concentram estes projetos. A água, que é um bem vital e social de todos, não pode ser conduzida a interesses econômicos do agronegócio, indústria e mineração contra os interesses de populações ribeirinhas, pescadoras, indígenas e toda população rural e urbana.

São estas e outras realidades que causam o conflito por terra em Mato Grosso. As ações do poder Econômico com apoio dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário contra povos indígenas, camponeses e camponesas, quilombolas, ribeirinhos fazem que estes, para a própria sobrevivência, se organizem e lutem. Os conflitos em 2014 chegaram a um total de 20 ocorrências envolvendo 1.306 famílias, estando entre estas famílias, indígenas, assentados, posseiros, retireiros, pequenos proprietários e sem terra. Conflitos gerados entre um grupo querendo mais lucro contra outro grupo querendo sobreviver em um pedaço de terra.

É a partir do registro feito pela Comissão Pastoral da Terra – CPT, nos Cadernos de Conflitos no Campo que se percebe que a história do campo em Mato Grosso tem sido a história da ausência do Estado no campo e, quando presente, este tem assumido a prática ideológica do progresso excludente e economicamente voltado para os empresários e latifundiários. Dentro deste sistema se insere a estrutura do Judiciário, que tem mostrado, em vários fatos, a sua face perversa contra indígenas, quilombolas, ribeirinhos e tantas centenas de famílias camponesas que esperam há anos um pedaço de terra para plantar e viver. Grande parte desta violência se dá entorno das terras públicas do Estado e da União, griladas e invadidas por grandes fazendeiros e empresários que perceberam que o crime compensa porque a impunidade é regra da lei.

E sendo assim, o lucro prevalece sobre a vida.

Para saber mais, baixe o relatório Conflitos no Campo 2014, organizado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Fonte: Jornal Alvorada, editado por Maíra Ribeiro

Imagem: Divulgação CPT

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