Araguaia: o rio e sua gente

Enquanto em outros estados é inverno, no Araguaia é verão e tempo de praia. Conheça a rotina de quatro amantes dos rios da região.

Por Maíra Ribeiro/AXA

É mês de julho e está aberta a temporada no rio Araguaia. Cidades como Barra do Garças, São Félix do Araguaia, Luciara, Santa Terezinha e Nova Xavantina promovem seus Festivais de Praia. Em todos esses locais, armam-se palcos para shows diários e barraquinhas para comer e beber na areia, onde também acontecem oficinas artísticas e uma programação diversa.

Além do rio Araguaia, banham essas terras outros belos rios, como o Kuluene, o Suiá, o rio das Mortes e o Tapirapé. Barrento ou translúcido, profundo ou raso, morno ou gelado, traiçoeiro ou previsível, cada rio tem suas características próprias. Em comum, todos tem o ciclo anual regido pelas estações de seca e de chuva.

Julho é tempo de acampar nas praias do Araguaia. Foto: Lilian Brandt

Julho é tempo de acampar nas praias do Araguaia. Foto: Lilian Brandt

Entre maio e setembro é o período de estiagem. Quando os rios baixam, desvendam suas praias. A cada semana, a praia fica maior e a areia mais fofa. A cada ano, ela é de um jeito, de um formato, de uma altura, de uma profundidade. É costume nesta época entre moradores locais sair de férias e fechar suas casas para mudar-se temporariamente para a beira do rio, onde acampam. Alguns acampamentos tem até gerador e televisão.

Já em setembro, os rios sobem, submergindo as praias novamente. Essa dinâmica dos rios é vivenciada pelos moradores da região. No vale do Araguaia, o rio é trabalho, meio de locomoção, fonte de alimento, abastecimento de água e, é claro, lazer.

“A minha vida é no rio” Tonho da Feira, pescador em Nova Xavantina

Os pescadores Tonho da Feira (de boné branco) e José Ribeiro da Silva (de boné preto) na feira. Foto: Maíra RIbeiro

Os pescadores Tonho da Feira (de boné branco) e José Ribeiro da Silva (de boné preto) na feira. Foto: Maíra RIbeiro

A região Araguaia abriga um grande número de pescadores profissionais que tiram sua renda da pesca nos rios, vivendo intensamente sua sazonalidade. Nos meses de piracema, eles não podem pescar e recebem um seguro defesa. Já de março a novembro, quando a pesca é permitida, a rotina da maioria deles é passar o dia no rio. Barra do Garças tem a maior Colônia de Pescadores de Mato Grosso, abrangendo mais de 20 municípios no estado e quase mil associados. Só em Nova Xavantina, são mais de cem pescadores profissionais ligados a essa colônia.

Em Nova Xavantina, o ponto de encontro dos pescadores – e o ponto certo para comprar peixe – é a feira livre que acontece aos domingos de manhã. Os pescadores enfileiram grandes isopores onde expõem os peixes pescados na semana. Pintado, pacu e matrinxã são os mais comuns.

“O que eu mais gosto dessa vida de pescador é viver na beira do rio bem tranquilo e folgado. A minha vida é no rio.” Assim me contou Tonho da Feira, pescador profissional que estava vendendo peixe na feira no domingo passado.

Rio das Mortes na altura de Nova Xavantina. Foto: Maíra Ribeiro

Rio das Mortes na altura de Nova Xavantina. Foto: Maíra Ribeiro

Com 60 anos, seu Antônio decidiu tornar-se pescador profissional 12 anos atrás. “Eu tinha uma chácara, vendi e falei ‘vou pro rio’, aí comprei o barco, canoa e tô aí. Aprendi a pescar depois que fiz carteira. Isso foi destino de pescador mesmo, quando vê um rio, vê uns peixes, fica com vontade de pescar e virou nisso, virou pescador” conta.

Ao lado de Tonho da Feira, estava José Ribeiro da Silva, de 53 anos, pescador há 20. Xavantinense, cresceu na beira do rio das Mortes e diz que a profissão que lhe escolheu: “Profissão quase não tem aqui, aí pescador é a profissão mais fácil, e trabalhar para os outros não dá futuro, então trabalha pra gente mesmo.”

Viver da pesca não é tarefa fácil, mas talvez para quem nasceu e cresceu convivendo com o rio, isso pareça trivial. Os pescadores de Xavantina pescam em média 80 kg por semana. Eles pescam no rio das Mortes, no Couto Magalhães e no Kuluene e conhecem cada curva e corredeira.

Seu Tonho explica o protocolo do pescador: “Eu chego, faço meu acampamento e aí é só eu mais a minha velha e meus cachorros e pronto. Acampo nas ilhas, na beira do barranco, onde der um acampamento a gente faz e passa a semana. No final de semana, volta, carrega tudo e vai para outro lugar, faz outro acampamento e assim vai indo. Eu vou na segunda e venho na sexta ou no sábado. Meu serviço é esse, eu não tenho outro.”

“O rio é minha igreja” Kleber Carvalho de Assis, praticante de canoagem em Barra do Garças

Kleber remando no rio Araguaia. Foto: Maíra Ribeiro

Kleber remando no rio Araguaia. Foto: Maíra Ribeiro

Se o rio é subsistência para uns, é esporte para outros.

Há 150 km de Nova Xavantina, em Barra do Garças, Kleber Carvalho de Assis, dono da lanchonete Açaí Fly, leva todo fim de tarde seu caiaque para o porto do Baé, no rio Araguaia. Kleber rema cinco vezes por semana e passa ao menos duas horas por dia no rio Araguaia.

Natural de Goiânia, mudou-se há 12 anos para a cidade mato-grossense em busca de qualidade de vida. Há oito anos começou a andar de caiaque por brincadeira e se apaixonou.

Seu treinamento diário é direcionado para outra paixão que surgiu com a canoagem: fazer expedições de caiaque remando de 40 a 50 km no rio. Nessas expedições, Kleber navega pelo Araguaia só com seu companheiro Bob, o cachorro da família.

“É mágico, é apaixonante! Para mim, não tem igual. É uma paz de espírito, o rio é minha igreja, é um lugar que eu vou para remar. Ao mesmo tempo em que você está se exercitando, você oxigena o cérebro, pensando na família, nos seus objetivos. Eu uso como uma terapia, como uma forma de ter um corpo saudável, de meditar. Você se conecta mais fácil porque a água é pura energia, é vida!”, conta Kleber.

“Sou filho do Araguaia” Matuzalém Milhomem Lubschinski, o Natural, guia de turismo em São Félix do Araguaia

Matuzalém Milhomem. guia de turismo no rio Araguaia. Foto: Arquivo Maíra Ribeiro

Matuzalém Milhomem em praia do rio Araguaia. Foto: Arquivo Maíra Ribeiro

Bem longe dali, já na transição do Cerrado para a floresta amazônica, está São Félix do Araguaia. A cidade é conhecida pela Prelazia do bispo emérito Pedro Casaldáliga, voz ativa na luta dos povos que habitam a região. E também pelas belezas naturais que vão de praias e lagos a um complexo de ilhas incluindo a maior de todo o planeta, a Ilha do Bananal.

O encontro entre o rio Araguaia e o rio das Mortes acontece poucos quilômetros antes da área urbana de São Félix. Ali, ele é largo e raso, tudo ao seu redor é plano. E tem peixe, como tem. E, ainda, muitas outras coisas que a gente não sabe se é peixe ou se é sereia: botos, jacarés, ariranhas, arraias.

Matuzalém Milhomem Lubschinski, ou simplesmente Natural, é filho do Araguaia, como ele mesmo define. Seu pai era barqueiro numa época em que o rio era a principal estrada do Araguaia. Conta que o itinerário do pai ia de Conceição do Araguaia no Pará até Barra do Garças, cerca de 700 km rio acima. Ainda pequeno, Natural acampava com a família e foi aprendendo sobre o Cerrado e o rio Araguaia com os moradores antigos e com os Karajá. Essa trajetória o levou a ser guia de turismo na cidade.

Praia de São Félix do Araguaia. Foto: Alexandre Lemos

Praia de São Félix do Araguaia. Foto: Alexandre Lemos

Em um mês, ele passa cerca de 25 dias no rio. “Com clientes ou não, estou sempre no rio, passeando, acampando com a família, coletando lixo e sempre fazendo alguma coisa”, conta com voz mansa. Dedica-se a estudar as pegadas e rastros dos animais nas praias e barrancos por onde passa. Dedica-se também a inúmeros projetos que bola em sua cabeça. Conta com orgulho ter sido um dos responsáveis pela criação do Parque Estadual do Araguaia, que protege o encontro do rio Araguaia e o rio das Mortes, na região de Novo Santo Antônio.

Seus clientes são turistas que vêm para contemplar a beleza da região, além de pesquisadores e moradores locais. “O que eu gosto e sempre gostei mesmo é a paciência, a calma das pessoas mais antigas que não têm muita agressividade em viver o Araguaia, eles não estão trabalhando pelo dinheiro, eles estão trabalhando porque gostam” conta Natural.

Cuidar do rio é cuidar da gente

O rio é lugar de diversão. Foto: Gilberto Freitas

O rio é lugar de diversão. Foto: Gilberto Freitas

Se o rio muda todo ano dentro do seu ciclo natural, em uma coisa todos concordam: o rio está mudando ao longo dos anos, e para pior.

Na região de Barra do Garças, Kleber nota uma diminuição no tamanho da praia Quarto Crescente em Aragarças (GO), onde acontece a maioria das atividades do Festival de Praia de Barra do Garças, Aragarças (GO) e Pontal do Araguaia. Para ele, o assoreamento e a pressão sobre a praia na temporada são algumas das causas desta mudança. Aponta ainda a contaminação e poluição ambiental causada pela agroindústria local, pouco fiscalizada.

A consequência mais palpável é a diminuição da fauna perto da cidade de Barra do Garças. “Peixe grande no rio lá para baixo a gente consegue ainda ver, ou algum jacaré à noite. Mas aqui, próximo da cidade, você não vê mais nada, acabou!” lamenta Kleber.

Enquanto o pescador José Ribeiro acredita que o rio não tem se alterado, Tonho da Feira chama atenção para o desmatamento das matas ciliares na beira do rio das Mortes. A mata ao redor dos rios funciona como um filtro protegendo-o contra ação do vento, da chuva e até de agrotóxicos. Estas são Áreas de Proteção Permanente (APP) protegidas por lei para garantir o equilíbrio ambiental dos rios. Porém, na vida real, a história é outra: “Aqui mudou demais. Os fazendeiros põem esses pastos que não respeitam os 100 metros de beira-rio. Acabou tudo, eles estão aterrando o rio todinho. Em lugar onde nós passávamos de barco tranquilo, agora tem que ir quase 100 metros daquele lugar para poder passar. Para nós, que vivemos do rio, está ficando cada vez pior” conta Tonho.

Quem vê a superfície calma e constante destes rios, não percebe as alterações lentas mas também constantes. Estas mudanças não afetam somente o rio ou a fauna e flora a ele associada. Aqueles que dependem ou vivenciam o rio diariamente são os mais atingidos por estas mudanças.

A conservação ambiental dos rios da região ajuda também a conservar a vida dos moradores deste lugar numa simbiose que não é só trabalho nem só sobrevivência, é também qualidade de vida, ou nas palavras de Natural: “Uma das coisas que eu mais admiro é contemplar a natureza do Araguaia para a gente aprender as coisas do rio, sentir a força do rio, sentar com toda essa natureza em paz, que ainda está funcionando.”

Essa força não pode ser subestimada. Talvez quem nunca sentou à beira de um rio não entenderá o que estas pessoas estão falando. Por falar nisso, o convite está feito.

Araguaia: o rio e sua gente

[slideshow_deploy id=’6346’]

Imagem em destaque: Maíra Ribeiro

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *