Uma prosa pra lá de boa

Mostra Socioambiental do Araguaia oportuniza trocas e diálogo entre agricultores familiares, indígenas, sociedade civil e poder público.

Por Andreia Fanzeres/OPAN
Especial para a AXA

São Félix do Araguaia, MT – São Félix do Araguaia sediou entre os dias 20 e 21 de junho de 2015 a III Mostra Socioambiental do Araguaia e a II Feira de Economia Solidária. O evento foi promovido pela Associação Nossa Senhora da Assunção (ANSA) e pela Organização Ecossocial do Araguaia (OECA) e colocou, lado a lado, agricultores familiares, artesãos e indígenas, mostrando para a região não apenas sua produção local ou a expressão de suas culturas, mas que são, essencialmente, o coração do Araguaia.

Esse era, desde o início, um dos maiores objetivos dos organizadores. “Nossa intenção é colocar no mesmo espaço indígenas, assentados e toda a gente da cidade, para se reconhecerem e dialogarem”, explica Vânia Costa Aguiar, coordenadora da ANSA. Doces, salgados, bolos, artesanato dos Karajá e dos Xavante, dos artistas de Nova Xavantina, dos coletores de sementes, sucos da Araguaia Polpa de Frutas, tinha de tudo no tradicional espaço da Feira Municipal de São Félix do Araguaia. Música ao vivo, apresentações culturais e regionais animaram ainda mais o evento.

Escolas, grupo de quadrilha e foliões catireiros se apresentaram durante a Mostra Socioambiental. Fotos: Liebe Lima/OPAN.

Escolas, grupo de quadrilha e foliões catireiros se apresentaram durante a Mostra Socioambiental. Fotos: Liebe Lima/OPAN.

Em especial, a presença de representantes do povo Xavante da aldeia Ripá, da Terra Indígena (TI) Pimentel Barbosa, e da TI Marãiwatsédé, chamou a atenção. Primeiro pela beleza e abundância de artesanatos de palha e sementes de milho trazidas pelos Xavante. Enchiam todo o espaço destinado à exposição. Depois, pela surpresa do contato de uma população impactada pelo processo delicado de desintrusão de Marãiwatsédé, dois anos e meio atrás, junto aos indígenas. Ali ficou claro que, além de estarem do mesmo lado, eles enfrentam muitos desafios comuns. Pessoas de todas as idades se interessaram por colocar as tradicionais pulseiras Xavante (wedenhono), assentados compraram milho nodzo para experimentar e, quem tinha bebê pequeno ou a bordo, pôde levar para casa os grandes cestos Xavante (tsionos) usados para transportar todo o tipo de coisa, inclusive crianças.

Barraca das aldeias Xavante de Ripá e Marãiwatsédé na Mostra. Foto: Andréia Fanzeres.

Dentro do galpão da feira municipal de São Félix do Araguaia, dividiram espaço os assentados com sua mais genuína produção. “Tinha muita farinha, banana, gostei de paçoca. Antigamente, isso era comida dos Xavante”, disse o ancião de Marãiwatsédé, Lourenço, que acompanhou outras quatro coletoras de semente na feira e disse que gostaria de participar do evento todos os anos.

Produtos da agricultura familiar na Mostra Socioambiental. Foto: Andréia Fanzeres/OPAN.

A programação envolveu, ainda, a realização de um seminário para a discussão de estratégias de comercialização voltadas aos agricultores familiares com representantes da ANSA, do Instituto Socioambiental (ISA), da Operação Amazônia Nativa (OPAN), da Comissão Pastoral da Terra (CPT), da Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer), Prefeitura Municipal de São Félix do Araguaia, e agricultores familiares. “Não queremos estar sozinhos. O povo é formado por agricultores familiares e precisa se reconhecer assim. Precisamos incentivar a produção de frutas. A ANSA garante a compra”, disse Vânia. O prefeito José Antônio de Almeida, conhecido como Baú, se comprometeu a reforçar a parceria e foi cobrado pela população por mais assistência técnica rural no município. “Nós precisamos de assistência dentro do assentamento, para nos acompanhar e ensinar que podemos produzir com mais tecnologia”, disse o agricultor Francisco Vieira Alves.

Roda de conversa sobre produção e comercialização. Foto: Andreia Fanzeres/OPAN.

Roda de conversa sobre produção e comercialização. Foto: Andreia Fanzeres/OPAN.

“Nós necessitamos de uma agenda concreta com a Empaer, prefeitura e outros parceiros para enriquecermos o entorno da cidade com frutíferas e baratear o custo de transporte. Temos que pensar como podemos contribuir mais para a vida das famílias no trabalho com a terra”, lembrou a coordenadora da ANSA. E assim a conversa se estendeu pela manhã de domingo. Ali, debaixo de uma tenda na feira municipal, formou-se uma pequena roda de conversa em que puderam estar frente a frente agricultores familiares, organizações da sociedade civil e poder público, tecendo condições para que oportunidades como essa se multipliquem ao longo do ano.

A Mostra, que já está na sua terceira edição, foi possível graças à contribuição da Prefeitura de São Félix do Araguaia, do Instituto Telemar – “Oi Futuro”, da Operação Amazônia Nativa (OPAN), do Instituto Socioambiental (ISA), do Fundo Amazônia/BNDES, do Programa de Pequenos Projetos Ecossociais (PPP-ECOS), da Sociedade Inteligência e Coração (SIC) e do TFCA/Funbio, além dos patrocinadores locais e dos expositores.

Saiba mais:

ANSA – Associação Nossa Senhora da Assunção

www.ansaraguaia.org.br

Imagem em destaque: Andreia Fanzeres/OPAN

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