Agrofloresta: criando mais vida no Araguaia

Curso em assentamentos em São Félix do Araguaia e Alto Boa Vista ensina a trabalhar a favor da natureza.

 Por Lilian Brandt

 A humanidade pratica a agricultura desde a pré-história. Em várias partes do planeta, a partir da observação da natureza, as pessoas aprenderam a trabalhar junto com ela. Esse conhecimento foi se aprimorando e permitindo a grande aglomeração de pessoas num território. E foi assim que chegamos aos dias de hoje.

Se compararmos a agricultura que era praticada no tempo dos nossos avós com a agricultura que é praticada hoje, veremos que muitas coisas mudaram neste curto espaço de tempo. Adubos químicos e agrotóxicos são comumente utilizados do grande produtor ao agricultor camponês. “A agricultura antigamente acreditava em Deus, hoje acredita no NPK”, disse Namastê Messerschmidt, agrofloresteiro da Cooperafloresta.

A proposta da agrofloresta não é só resgatar a agricultura de antigamente, mas aprimorá-la com as tecnologias que temos disponíveis hoje. Consciente da importância de incentivar a produção de alimentos saudáveis na região do Araguaia, a ANSA – Associação de Educação e Assistência Social Nossa Senhora da Assunção, realizou um curso nos assentamentos Dom Pedro, município de São Félix do Araguaia e Mãe Maria, município de Alto Boa Vista, ambos no nordeste do Mato Grosso.

O primeiro dia de curso foi na casa de Felismino Filho, no PA Dom Pedro, dias 22 e 23 de fevereiro. Os 41 participantes formaram um grupo bastante diversificado, com pessoas de 18 a 74 anos, majoritariamente mulheres. No PA Mãe Maria o curso foi na casa de Herausto de Jesus Moreira, no dia 24 de fevereiro, com 19 participantes. Além de moradores destes assentamentos, participaram também moradores do Projeto Casulo, município de Alto Boa Vista. Em parceria com a OPAN – Operação Amazônia Nativa, participaram indígenas Xavantes de Marãiwatsédé, também de Alto Boa Vista. Outra parceira do evento foi a Empaer de Alto Boa Vista e de São Félix do Araguaia.

Madeira é o que engorda a terra

Quando Felismino chegou no Assentamento, a primeira coisa que sua família fez foi plantar. Hoje a casa está cercada por uma floresta que deve ser manejada.       Pode parecer estranho: a gente planta aquela árvore com todo carinho, cuida durante anos, come seus frutos, desfruta de sua sombra, desenvolve uma relação de afeto e um belo dia, bota ela no chão!

“Ah, que dó! Ah, que pena!”, diziam os participantes do curso. Mas Namastê, que ministrou o curso, prontamente respondia: “quem tem dó é instrumento musical!”. Sim, e quem tem pena é galinha! Mas muitas pessoas sequer admitiam essa possibilidade: “para quê derrubar uma árvore?”.

Conforme Namastê, “derrubada não é o mesmo que desmatamento. Desmatamento é quando você impede a regeneração, e na derrubada, o organismo continua vivo”. Na agrofloresta não se pensa somente no indivíduo árvore, mas sim no organismo em que ela está inserida: a floresta. Ao se derrubar árvores e colocar a madeira no chão, cria-se um ambiente muito mais fértil para outras plantas.

Por isso Felismino teve que exercitar o desapego e botar abaixo as embaúbas, que já haviam cumprido seu papel de proporcionar sombra, matéria orgânica e nutrientes para outras plantas em sua fase inicial de vida.  “Madeira no ar chama cupim, no chão chama minhoca. O que a gente quer aqui?”, perguntou Namastê.

A clareira aberta permitiu que outras espécies possam agora se desenvolver plenamente, especialmente as frutíferas. Elas passaram a receber mais luz solar e um solo muito mais rico em microrganismos e nutrientes. Os participantes aprenderam também a podar e a posicionar a madeira e as folhas no solo da melhor maneira.

Iniciando do zero

Se não há uma floresta que possa ser derrubada para iniciar o plantio, deve-se buscar insumos em outros lugares. Isso deve ser feito somente se necessário, pois o ideal é que cada sistema se auto-sustente. Nesse caso, a preferência é que se utilize matéria orgânica que esteja sendo descartada, como podas de quintais e árvores derrubadas para obras. Deve-se evitar retirar matéria orgânica de ambientes naturais, para não empobrecê-los.

Depois de preparar a terra, planeja-se quais plantas serão cultivadas. O plantio consorciado deve considerar o extrato que a planta ocupa em seu ambiente natural e seu tempo de vida, criando um organismo saudável, com diversas espécies que se ajudam mutuamente. À medida que algumas vão amadurecendo e sendo colhidas, abre-se espaço para as outras se desenvolverem.

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Para finalizar o plantio, é importante cobrir os canteiros e os espaços onde se caminha entre eles com bastante matéria orgânica, como folhas, galhos, podas de bananeiras e etc. Isso garantirá a alimentação daquelas plantas, além de um ambiente úmido e com diversos outros organismos.

A técnica inicialmente causou espanto entre muitos participantes, mas depois eles compreenderam. “Eu critico meu marido porque ele capina e faz as leiras, e eu gosto do quintal limpo. Eu falava que ele tinha que jogar fogo, mas agora eu aprendi que as plantas precisam desse mato”, disse Cleuza dos Santos, moradora do PA Dom Pedro.

Capim e eucalipto: de inimigos a aliados

Cada vez mais algumas espécies de capim e eucalipto tem sido usadas para fornecer matéria orgânica aos cultivos. Mas ainda há muito preconceito, pois historicamente estas são espécies usadas em monocultivos, vinculadas a sistemas de produção que degradam o meio ambiente. O capim suga boa parte das substâncias que poderiam servir de alimento às outras, no entanto, ele fornece matéria orgânica constantemente. Por isso, ele deve estar plantado em outra linha e ser cortado frequentemente. O eucalipto tem um crescimento rápido, aceita muito bem podas e fornece bastante matéria orgânica. Quando se desejar encerrar seu ciclo, ainda obtêm-se madeira de qualidade. Portanto, é bom rever os nossos conceitos, eles podem ser aliados de um bom sistema agroflorestal.

Educação Ambiental

Este curso de agrofloresta integra a Formação Modular de Educação Ambiental que a ANSA realizou em 2014 e 2015, com 3 cursos a cada ano.

Em 2015, o primeiro curso aconteceu no PA Dom Pedro nos dias 24 e 15 de setembro de 2015, com o tema “Legislação e Produção”. Durante dois dias foram tratados temas como o Novo Código Florestal, a legislação referente ao manejo de madeira, o acesso ao PRONAF – Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar e outros programas do governo. Também foram realizados exercícios referentes ao custo de produção de diversos cultivares, como abacaxi, milho e maracujá, da criação de frangos e da produção de derivados do leite. Calculando os investimentos na produção, pode-se chegar aos valores justos de comercialização. O curso também abordou a importância de preservar as matas ciliares e de galeria. Este curso contou com a parceria da Empaer, com palestras de Jorcelina Ferreira, Adaides Aires Rocha e Begair Filipaldi.

Com o tema “Sabores e Saberes do Cerrado”, o segundo curso ocorreu nos dias 20 e 21 de outubro de 2015, em parceria com o Projeto Saúde na Horta e as palestrantes Lucilene Pereira da Silva e Sônia Costa Leite. Além do grupo de assentados com o qual a ANSA já trabalha, participaram jovens e agentes de saúde. O curso buscou resgatar e socializar o conhecimento de cada participante, pois todos sabiam receitas de chás, xaropes e outros remédios feitos a partir de plantas medicinais. Além disso, o curso ensinou a maneira de manipular as plantas. “Muitas pessoas, mesmo não tendo plantado no seu quintal, sabem identificar a planta no cerrado e os seus usos”, disse Ana Lucia, coordenadora do Projeto Socioambiental, da ANSA. O curso finalizou com a produção de xaropes, temperos e balas de gengibre.

Em 2016 o projeto segue com a meta de 3 cursos, agora incluindo também o PA Mãe Maria e famílias do Projeto Casulo.

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