Povos, produção e diversidade

 

Farinha, abóbora, doce de leite, doce de buriti, açaí, sucos de frutas da região, artesanatos, remédios naturais, pula-pula, algodão doce, muita música e animação. A IV Mostra Socioambiental do Araguaia e III Feira de Economia Solidária evidencia a riqueza e a diversidade dos produtos indígenas e da agricultura familiar, além de promover o diálogo com a sociedade civil e poder público.

Por Carla Ninos/AXA

São Félix do Araguaia (MT) – Foram 100 expositores de vários municípios da região do Araguaia-Xingu como São Félix do Araguaia, Nova Xavantina, Luciara, Bom Jesus do Araguaia, Santa Terezinha, Serra Nova Dourada, Canabrava do Norte e Porto Alegre do Norte. Participaram ainda 18 produtores da economia solidária, as mulheres Xavante da Terra Indígena (TI) Marãiwatsédé, e indígenas Karajá, da Ilha do Bananal e da aldeia São Domingos.

O evento realizado pela ANSA (Associação de Educação e Assistência Social Nossa Senhora da Assunção) e OECA (Organização Ecossocial do Araguaia), durante os dias 18 e 19 de junho, contou com a parceria das entidades sociais que formam a Articulação Xingu Araguaia (AXA), das associações de agricultores familiares dos assentamentos da região e da Prefeitura de São Félix do Araguaia.

A cestaria do seu Oscar Lopes fez bastante sucesso na mostra. Foto: Carla Ninos/AXA

A cestaria do seu Oscar Lopes fez bastante sucesso na mostra. Foto: Carla Ninos/AXA

Centenas de pessoas foram à Feira Municipal para prestigiar a maior feira popular da região do Araguaia-Xingu. Os expositores reconhecem a importância da mostra, que cresce a cada ano. Para o artesão Oscar Lopes da Silva, do município de Serra Nova Dourada, “a mostra socioambiental é uma oportunidade única para os artesãos e produtores da região divulgarem o que tem de melhor”.

“Eu vejo que, para a região do Araguaia, a mostra é importante por evidenciar a riqueza popular e a diversidade do que é produzido nos assentamentos e nas comunidades indígenas, pela juventude, trabalhadores do campo, ribeirinhos e pescadores”, comenta Elismar Vieira de Souza, do município de Luciara.

Produtos dos agricultores da Economia Solidária. Foto: Carla Ninos/AXA

Produtos dos agricultores da Economia Solidária. Foto: Carla Ninos/AXA

Para Ana Lúcia Souza, organizadora do evento, a cada ano o desafio é incentivar a produção e fazer com que esses produtos cheguem ao mercado e ao consumidor com baixo custo. “A mostra socioambiental é importante para a região, pois é uma oportunidade para agricultores e indígenas exporem seus produtos e seus trabalhos e, também, mostrar que esses produtores têm potencial para abastecer o mercado local e regional, com produtos de qualidade e livres de agrotóxicos”, afirma.

Os artesanatos indígenas são sempre uma atração à parte. Este foi o segundo ano em que as mulheres Xavante de Marãiwatsédé participaram. Na barraca, as principais atrações foram os grandes cestos (tsionos), usados para transportar todo tipo de coisa, e as tradicionais pulseiras Xavante (wedenhono).

Cestarias das mulheres Xavante de Marãiwatsédé. Foto: Carla Ninos/AXA

Cestarias das mulheres Xavante de Marãiwatsédé. Foto: Carla Ninos/AXA

O artesanato Karajá é bastante conhecido na região e sempre faz sucesso pela variedade e qualidade. Nas bancas tinha muita cestaria de palha, colares e pulseiras de sementes, brincos, prendedores de cabelo e cerâmicas.

Artesanato das mulheres Karajá. Foto: Carla Ninos/AXA

Artesanato das mulheres Karajá. Foto: Carla Ninos/AXA

A juventude da cidade de Santa Terezinha, que fica a 100 quilômetros de São Félix do Araguaia, realizou uma apresentação teatral com a temática sobre mudança climática como consequência da ação do homem sobre a natureza. Com músicas e reflexões, os jovens mostraram que esse modelo de desenvolvimento predatório fracassou e que o meio ambiente dá sinais de esgotamento.

Apresentação teatral da juventude de Novo Santo Antônio. Foto: Carla Ninos/AXA

Apresentação teatral da juventude de Santa Terezinha. Foto: Carla Ninos/AXA

O tema junino não poderia ficar de fora, teve quentão, bolo de macaxeira, biscoito de polvilho, bolo de fubá, pé de moleque e uma quadrilha bem animada. E o arrasta pé foi até o amanhecer ao som da banda Swing da Cohab, uma das bandas mais tradicionais da região.

A apresentação da quadrilha animou a noite de sábado e deu o tom junino à mostra. Foto: Carla Ninos/AXA

A apresentação da quadrilha animou a noite de sábado e deu o tom junino à mostra. Foto: Carla Ninos/AXA

O tema mudanças climáticas voltou a ser abordado na programação do dia 19. Herman Oliveira, educador ambiental, falou sobre a justiça climática, um conceito que reconhece que a interferência do homem no meio ambiente, seja através da exploração de combustíveis fosseis, da expansão desmedida da monocultura, pecuária e/ou desmatamento; “tem beneficiado de forma desigual os mais ricos, e afetando, desproporcionalmente, as pessoas mais pobres, que seriam as que impactam menos o meio ambiente”. Por exemplo, os agricultores familiares de São Félix do Araguaia, que comparados aos grandes produtores que impactam desmatando e usando uma grande quantidade de agrotóxicos na lavoura, não têm uma rede de segurança quando perdem suas colheitas para uma seca prolongada, que já é um reflexo do impacto da mudança climática na agricultura. A justiça climática busca equilibrar essa balança das desigualdades existentes.

Seminário sobre mudança climática. Foto: Carla Ninos/AXA

Seminário sobre mudança climática. Foto: Carla Ninos/AXA

Os jovens pesquisadores da Rede de Sementes do Xingu, falaram um pouco sobre o trabalho de investigação dos efeitos das mudanças climáticas na vida das comunidades que atuam na coleta de sementes. A apresentação teve como fio condutor os resultados parciais das pesquisas, abrangendo: mudanças nos calendários comunitários e produtivos locais, além de impactos na qualidade das sementes e na vida comunitária. “A coleta de dados iniciou em abril de 2016 e a pesquisa intercultural conta com 15 jovens de aldeias do Parque do Indígena do Xingu, da agricultura familiar e residentes em áreas urbanas”, explica Danilo Urzedo, consultor da Rede de Sementes do Xingu.

Jovem do Parque Indígena do Xingu mostra como usar o calendário comunitário para registrar as percepções de mudanças no clima. Foto: Carla Ninos/AXA

Jovem do Parque Indígena do Xingu mostra como usar o calendário comunitário para registrar as percepções de mudanças no clima. Foto: Carla Ninos/AXA

E entre uma venda, uma boa prosa e a degustação da variedade culinária exposta na feira, ainda deu tempo de improvisar uma roda de música pra lá de animada.

Para Vânia Costa Aguiar, presidente da ANSA, “a mostra promove a participação popular e se tornou o evento socioambiental de maior impacto na região do Araguaia-Xingu”. Desde a sua concepção, a intenção era promover a participação do povo. “É por isso que a mostra tem esse caráter de estar muito livre e aberta, no sentido da participação popular”, finaliza.

O pôr do sol às margens do rio Araguaia é um convite para a próxima Mostra Socioambiental. Foto: Carla Ninos/AXA

O pôr do sol às margens do rio Araguaia é um convite para a próxima Mostra Socioambiental. Foto: Carla Ninos/AXA

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *