OECA, ANSA e Embrapa promovem reuniões sobre Manejo de Pastagens

Durante dois dias ocorreram duas reuniões sobre o sistema de manejo de pastagem, uma no PA Dom Pedro e outra no PA Mãe Maria, respectivamente nos municípios de São Félix do Araguaia e Alto Boa Vista (MT).

Por Lilian Brandt*

O projeto é fruto de uma parceria da OECA (Organização Ecossocial do Araguaia), ANSA (Associação de Educação e Assistência Social Nossa Senhora da Assunção) e Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) – Sinop. Teve início em 2014, com uma oficina que contou com a capacitação de 35 pessoas. Foi definida a estratégia de instalar unidades demonstrativas, de modo que se pudesse analisar a eficácia do sistema na agricultura familiar e, caso os resultados fossem positivos, incentivar outras famílias a aderirem ao projeto.

A proposta é criar um sistema agrosilvopastoril, que busca integrar lavouras, espécies florestais e pastagens, criando espaços de pequenos bosques, que dão sombra para os animais. O sistema permite que a produção de leite e carne aumente, mas mais do que isso, a ideia do sistema é que a família possa retirar da área outros produtos. Trata-se de uma mudança de paradigma, que para ser efetivada, utiliza um conjunto de técnicas.

Dois produtores da agricultura familiar foram selecionados para iniciarem uma experiência piloto. Durante o ano de 2015 foram feitas várias visitas de monitoramento e acompanhamento nas áreas. Agora, um ano depois, as famílias receberam a equipe da Embrapa de Sinop, com a finalidade de avaliar este primeiro ano de implementação do projeto e orientar sua continuidade.

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O primeiro dia de reunião aconteceu na casa de Darley Ferreira de Souza, no PA Dom Pedro, município de São Félix do Araguaia – MT. Houve a participação de 25 pessoas, incluindo estudantes de biologia e moradores de diferentes setores do assentamento, como Trevo do Macaco e Capão Verde. O segundo dia aconteceu no PA Mãe Maria, município de Alto Boa Vista – MT, na residência de Edivaldo Araújo Barbosa. Foi uma oportunidade de sanarem dúvidas que tenham surgido ao longo do processo de implementação do projeto de manejo de pastagem.

Nas duas experiências visitadas, observou-se a necessidade de semear novamente o capim. “O ideal, no caso da braquiária, é ter inicialmente 15 plântulas por metro quadrado, e quando o capim fechar, ter 8”. A solução sugerida para não necessitar gradear a terra novamente, foi jogar as sementes e deixar o gado no piquete por um ou dois dias, de forma que a semente seja enterrada com o pisoteio do gado. “É um sistema rústico, mas eficiente”, disse Orlando Lúcio de Oliveira Júnior, analista em transferência de tecnologia da Embrapa em Sinop.

Orlando ressaltou a importância de respeitar o hábito do gado em relação ao horário de alimentação, bem como tempo de descanso. Na lida com o gado, a rotina é fundamental e aumenta a produção de leite. Além disso, é importante diversificar a alimentação do gado: “no tempo das águas a vaca pode comer capim massai. Depois, quando secar, ela pode se alimentar de braquiária e cana”, disse o técnico.

Cada piquete pode ter uma espécie diferente de capim e a sua altura é o que determina a mudança de piquete. “Cada capim tem um ponto, se passar desse ponto a vaca já não se alimentará corretamente”, ressaltou Orlando. Mas nem tudo é só capim nestas pastagens. Inclusive, a presença de algumas leguminosas, como a barba-de-boi é um ótimo indicativo, ou, como disse Orlando, “é a vida do pasto”.

Diego Barbosa Alves Antonio, analista em transferência de tecnologia da Embrapa em Sinop, disse que “o foco é sair da monocultura e diversificar a produção, para gerar renda, ter frutos e madeiras para uso na propriedade”. No sistema agrosilvopastoril a árvore desempenha diversos papéis: ela diversifica a renda, fornece alimento e sombra para o animal, promove a aeração e desestruturação do solo e fixa nitrogênio. O nitrogênio torna a terra muito mais fértil para outras espécies, por isso é importante também plantar leguminosas, que são excelentes fixadoras de nitrogênio, como feijão gandu, crotalária e gliricídea.

Agemiro Ferreira dos Santos, secretário da Associação Frutos da Terra, participante da reunião, considerou que “isso tudo é para melhorar a região e deixar para nossos filhos, conservar o que tem na natureza e usar da melhor forma possível a terra”.

E se o objetivo é usar os recursos naturais da melhor forma possível, é importante também que o controle de pragas, os fertilizantes e os adubos sejam naturais. Por isso, foram ensinados diversos tipos de produtos de baixo custo e grande eficiência, como a urina da vaca, que quando fermentada repele pragas e é um excelente adubo. A proposta é que os participantes encontrem os produtos nas suas propriedades rurais.

Segundo Rosilene Alves da Silva, “muitas vezes a pessoa tem o conhecimento, mas não tem a sensibilidade de perceber que está prejudicando a natureza. Derruba toda a mata e depois reclama do calorão”. Sensibilidade, aliás, é uma palavra-chave. Apesar de cada elemento do sistema ser resultado de muitos cálculos, os técnicos explicam que não existe uma “receita de bolo” e é necessário observar continuamente e aprender com o próprio sistema.

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Com tanta informação, Darley Ferreira, que está preparando a área para uma lotação de 10 vacas, se mostrou satisfeito. “Eu ia fazer errado, ia colocar o gado quando o capim estivesse maior, mas agora eles já me ensinaram o certo. Eles ensinam bem, a gente só faz errado se quiser”.

Após a conclusão desta etapa do projeto, os envolvidos avaliam que o sistema de manejo de pastagens é eficiente. Planejado para as especificidades da agricultura familiar, considerando que as famílias estão envolvidas em outras cadeias produtivas, o sistema proporciona uma renda em médio e longo prazo, com baixo custo de investimento read review. Sendo assim, a OECA pretende continuar assessorando e acompanhando as áreas de manejo experimentais e também buscando recursos para abrir novas áreas.

*Lilian Brandt é antropóloga e colaboradora da AXA.

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