Assembleia e encontro fortalecem protagonismo de coletores e jovens da Rede de Sementes do Xingu

Coletores, parceiros institucionais e comerciais se reuniram em São Félix do Araguaia (MT) para avaliar e debater os desafios e perspectivas da Rede de Sementes do Xingu.

Fonte: Instituto Socioambiental (ISA)

A Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX) realizou entre 4 e 6 de agosto em São Felix do Araguaia o XIII Encontro Geral da Rede e sua segunda assembleia. Cerca de cem coletores, representando os 17 municípios que compõem a Rede, apoiadores, pesquisadores participaram de uma rica programação que trouxe debates sobre a qualidade e precificação das sementes, gargalos jurídicos, produção, intercâmbio entre os núcleos coletores e novas perspectivas para a Associação.

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Coletores, parceiros e apoiadores no encontro da Rede em São Félix do Araguaia.

“O Encontro da ARSX e a Assembleia foram momentos em que percebemos o nosso amadurecimento. A integração entre as pessoas, os convidados, os apoiadores foi muito forte. Eu achei que foi um dos melhores encontros que já tivemos”, avalia Cláudia Araújo, diretora da ARSX. O Encontro, que acontece anualmente, é um importante momento de articulação entre os atores que fazem a ARSX acontecer (coletores e parceiros). A Assembleia já se consolidou como um espaço de avaliação e planejamento coletivo, integrando cada vez mais os coletores nos processos da associação. “A nossa assembleia apontou um norte mais firme para a ARSX, teve muitas mudanças, todas pra melhor”, continuou.

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Seu Acrísio, coletor e diretor da Rede dá seu depoimento.

Há nove anos a ARSX desenvolve uma série de iniciativas com as comunidades visando o restauro de áreas degradadas da região do Xingu Araguaia. As sementes coletadas já possibilitaram a restauração de mais de 3.500 hectares de áreas degradadas na região, recuperando centenas de nascentes e matas de beira de rio. No ano passado os mais de 420 coletores registrados produziram 17 toneladas de sementes destinadas a restauração. “Pra mim é um privilégio muito grande, me sinto muito honrado de participar da ARSX, é um sinal que a gente tem um compromisso não só com a Rede mas também com a natureza”, lembrou seu Acrísio, um dos diretores da ARSX e coletor do Assentamento Manah, em Canabrava do Norte (MT).

“O coletor aprende com a natureza”

Durante o Encontro, os diversos núcleos compartilharam suas experiências e reafirmaram o compromisso de continuar o trabalho de restauro das áreas degradadas. “O coletor aprende com a natureza. Conforme vai trabalhando a natureza vai ensinando, não é só o dinheiro. Esse trabalho é muito importante para todos nós”, afirma seu Placides, do Assentamento Manah que participa da ARSX desde 2008 e, além da coleta de sementes, realiza um trabalho de restauração através do “casadão” – como ele chama a agrofloresta.

Os coletores que vivem no Projeto de Assentamento Dom Pedro, em São Felix do Araguaia, trabalham desde 2007 na Rede e todos os anos plantam 0,5 hectares com árvores nativas e frutíferas do Cerrado, com mudas e muvuca de sementes. O núcleo do Assentamento Jaraguá, no município de Água Boa (MT), também utiliza mecanismos de restauração do solo em paralelo com a coleta de sementes. Desde 2006, os coletores trabalham com práticas de SAFs (Sistemas Agroflorestais) como alternativa para reflorestar algumas áreas de suas propriedades com espécies nativas consorciadas com espécies agrícolas.

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Eliza, Romilda e Luzia Xavante, coletoras da TI Marãiwatsédé.

O grupo Pi’õ Rómnha/ Ma’ubumrõi’wa, das coletoras Xavante da Terra Indígena Marãiwatsédé, destina todas as sementes coletadas para a restauração das áreas dentro e adjacentes à TI. O grupo começou em 2011 quando coletores da ARSX visitaram a aldeia e apresentaram o trabalho aos Xavante, abrindo a possibilidade de criar um grupo de coleta e venda das sementes. Hoje participam 50 mulheres coletoras e seus familiares e, além de ser uma importante alternativa socioeconômica, o trabalho com as sementes é uma forma de se apropriar e proteger o território, ameaçado por invasões e intensamente desmatado.

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Purioka e Jopyti, ambos Panará da aldeia Nãsepotiti também ganharam menção honrosa.

O núcleo de coletores do Parque Indígena do Xingu (PIX) também esteve presente ao encontro. Oreme Ikpeng, coordenador do movimento das mulheres coletoras Yarang, participa da Rede desde 2009 e conta que não esperava que o projeto, que começou em 2007 com a Campanha Y Ikatu Xingu, fosse chegar tão longe: “Fomos vendo que era mais do que colher semente e mandar pra fora, a gente estava tecendo uma teia de convivência”.

Os 190 coletores e coletoras do PIX são dos povos Yudja, Waurá, Ikpeng e Kawaiwete, e no ano passado produziram sementes de 151 espécies diferentes. Ao contrário dos outros núcleos, que destinam parte das sementes coletadas para outros fins (para artesanato e cosméticos, por exemplo), os coletores do PIX comercializam sua produção exclusivamente para o restauro das áreas degradadas. “ A missão agora não é só o restauro no Xingu, mas queremos chegar em outros rios do Brasil que são importantes pra todos nós”, explicou Oreme.

O núcleo de coletores Panará da aldeia Nãsepotiti, na Terra Indígena Panará (MT), recebeu o prêmio de menção honrosa entregue pela Rede, pelo trabalho que realizam com as sementes de mogno. Purioka, da aldeia Nãsepotiti, esteve pela primeira vez no Encontro e contou que desde 2002 coletam as sementes, mas que tiveram dificuldades em continuar com o trabalho nos anos seguintes. Em 2016, com apoio da Rede de Sementes, realizaram uma expedição para a localização das matrizes e coleta de sementes, difíceis de acessar, pois as árvores têm em média 15 metros de altura.

Jovens na Rede

Os jovens do curso “Sementes Socioambientais” participaram do Encontro. Eles dividiram com os coletores e coletoras mais velhos, elos e parceiros da ARSX, os primeiros resultados de suas pesquisas sobre mudanças climáticas e os desafios e perspectivas da juventude do meio rural, indígena e urbana. Além de participarem do trabalho com as sementes, os jovens conseguem articular conhecimentos da cultura local e tradicional com novas tecnologias e jeitos de pensar o mundo.

Durante o Encontro foi inaugurado o Fenofásicos, um jogo de cartas dasplantas do Xingu Araguaia. Foram os jovens da Rede que o construíram durante a pesquisa intercultural e traz, de forma lúdica, o tema do ciclo fenológico das árvores (árvore, flor, polinizador, fruto e dispersor).

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Jogo de cartas fenonológico desenvolvido pelos jovens.

Parceiros comerciais

O núcleo de Nova Xavantina realizou um importante trabalho de coleta de sementes de jatobá. O grupo, que hoje conta com 18 coletores rurais e urbanos recebeu o prêmio de menção honrosa pelo esforço na coleta e beneficiamento dessa variedade de semente, que está sendo comercializado para a empresa Atina (Ativos Naturais), especializada em fornecer matéria prima para cosméticos. Eduardo Roxo, da Atina, contou que ficou surpreso com a dedicação dos coletores, que, além de terem conseguido entregar a quantidade acordada tiveram um cuidado extremo ao retirar a semente da casca – processo difícil que, se feito com desatenção pode afetar a qualidade do produto. Roxo, que esteve pela primeira vez no Encontro, destacou a importância dos parceiros comerciais conhecerem de perto todos os componentes da cadeia de produção. “Essa precisa ser uma prática corrente, saber quem é o coletor das sementes que compramos”.

Artemizia Moite, do grupo Agropecuária Fazenda Brasil (AFB), é parceira da Rede desde 2008. A preocupação com o restauro de APPs é uma questão transversal no trabalho da AFB, que usa as muvucas de sementes produzidas pela ARSX para recuperar áreas degradadas. Ela contou que das 645 áreas de APPs trabalhadas, 341 foram restauradas. Para ela, a técnica de restauro com a muvuca otimiza os processos de recuperação do solo. “A muvuca é anos-luz melhor que a muda”, avalia.

Edimarson de Araujo Prudente, dono da Borges e Prudente Soluções Ambientais, é parceiro da Rede desde 2011. Só no ano passado, a empresa adquiriu nove toneladas de sementes da ARSX para o restauro de Áreas de Preservação Permanente (APPs)no ano passado. Ele esteve pela primeira vez no encontro e pode conhecer as histórias dos coletores e coletoras que produzem as sementes consumidas por sua empresa: “Achei fantástica essa integração, ver o pessoal que coleta pra gente, porque recebemos uma semente de muito boa qualidade, então conhecer toda a cadeia é muito interessante e eu espero poder participar mais vezes”, afirmou.

Para Rodrigo Junqueira, presidente do Conselho Curador da ARSX e coordenador do programa Xingu do ISA, a presença dos parceiros comerciais foi um dos grandes diferenciais desse Encontro. “Eles foram unânimes em afirmar que sem as sementes da Rede, o plantio mecanizado de florestas em escala não seria possível”, relata Junqueira.

Superação das encruzilhadas jurídicas

Além de ser um espaço de avaliação e planejamento das ações da ARSX, a 2ª Assembleia trouxe um importante debate sobre os gargalos jurídicos enfrentados pela associação. Os negócios de base comunitária, como a Rede de Sementes, precisam lidar com a gestão de aspectos institucionais e todo um conjunto de leis sanitárias, fiscais, contábeis, tributárias e previdenciárias que são pouco acessíveis às condições locais. “Há de fato uma falta de informação e, portanto, de entendimento das pessoas em relação às regras sobre as quais elas estão sujeitas”, apontou Felipe Cabral, advogado, colaborador da associação. “A informação vai empoderar não só o gestor, mas todos os elos da cadeia”, diz.

Frente a isso, a ARSX promoveu uma discussão sobre o arranjo jurídico e uma série de alterações foram feitas no estatuto, com o objetivo de adequar o trabalho dos coletores e da central administrativa. “O fato de nós termos colocado com todas as palavras a importância que essas pessoas têm na ARSX, evidencia, do ponto de vista jurídico, que a Rede de Sementes e coletores formam uma única pessoa, uma única entidade, um único propósito, aproximando essas duas pontas. A perspectiva da Rede é a melhor possível”, avalia Felipe.

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