Vale do Araguaia, onde a soja despejou a mata e o cerrado

Em entrevista à Rádio Vaticano,o Bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia, Dom Adriano Ciocca, fala do avanço das monoculturas no Vale do Araguaia.

Fonte: Rádio Vaticano

São Felix do Araguaia – Aos poucos, as plantações mecanizadas e marcadas pelo uso intensivo de veneno estão ocupando a região do Araguaia, no nordeste do Mato Grosso. A soja se espalha e toma conta da mata nativa, e até os terrenos antes considerados inapropriados para esse tipo de lavoura, por serem baixos demais e sujeitos a alagamentos, foram aterrados e cultivados. Aviões pulverizam as cabeceiras dos rios, causando a morte de peixes, botos e tartarugas; e por ser plana, na época da seca, muitos rios ficam parados e a água não se renova.

O bispo da prelazia de São Félix do Araguaia é Dom Adriano Ciocca, que nos apresenta o seu testemunho:

“Sou originário da Itália, onde vivi até os 30 anos. Trabalhei 5 anos lá como padre e depois fui para o Nordeste do Brasil, à diocese de Petrolina, em Pernambuco, onde permaneci 10 anos. Depois, passei 20 anos na diocese de Floresta do Navio, ainda em Pernambuco, 7 anos como padre e 13 como bispo e em 2012, o núncio me pediu insistentemente que deixasse Pernambuco para assumir a Prelazia de São Félix”.

“Passei do seco, da região semiárida, para o sul da Amazônia. Para mim, foi uma experiência de total mudança de hábitos, de clima e realidade; e é interessante encontrar um ambiente que está mudando com muita rapidez, tanto do ponto de vista da população como do ponto de vista da natureza. Chegando ao Vale do Araguaia, que é o território da Prelazia, ouvi muitas histórias da família que visitei – passei um ano e meio visitando uma por uma as comunidades – e me disseram que 40 anos atrás lá era tudo mata e cerrado. Agora, na região, não se encontra nem mata nem cerrado, mas só enormes extensões de soja e milho. Ainda há um resto de criação de gado, que predominava nas décadas passadas”.

“O avanço da agroindústria no território parece irrefreável e só não avança aonde o terreno não permite o urso das grandes máquinas agrícolas que a agroindústria está empregando com os implementos inclusive de aviões, utilizados para espalhar adubos e venenos usados para a produção. A presença do agronegócio desta forma cria uma pressão quase insustentável em cima dos pequenos proprietários, assentados, que estão presentes em 14 dos 15 municípios da Prelazia e também sobre os territórios indígenas que ainda sobrevivem neste contexto”.  

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