Uma Caravana e muitas conversas boas

A Caravana Sócio Ambiental aconteceu no dia 27 de abril/2017 no PA Dom Pedro, Município de São Félix do Araguaia.

Por Liebe Lima/AXA

Após longa travessia através de varjões e alagados em estradas cheias de desafios, vai chegando a I Caravana Sócio Ambiental no PA Dom Pedro, Município de São Félix do Araguaia/MT. No quintal da Dona Antônia foi montada uma pequena estrutura de tendas, mesas e cadeiras para receber os participantes da roda de conversa e também para os produtores que desejassem apresentar e vender seus produtos, pois, o tema dessa Caravana é a produção da Agricultura Familiar para os que permanecem firmes no propósito de viver na terra, prover dali seu sustento e comercializar os excedentes.

A Caravana Sócio Ambiental é uma iniciativa da ANSA (Associação Nossa Senhora da Assunção) que realiza trabalhos na região desde 2005, desenvolvendo técnicas de plantios agroecológicos, como “O Casadão” para recuperação das vegetações nativas e promovendo a cadeia da fruta. Em atendimento a uma demanda permanente dos assentados pela presença de políticas que os apoiem, a ANSA convidou o Secretário de Agricultura do Município de São Félix, Professores do IFMT, a EMPAER e o INCRA para contribuírem com a apresentação de novas perspectivas que melhore a produção/comercialização e esclarecimentos sobre os processos de documentação da terra que lhes permita o acesso a incentivos e financiamentos.

A Extensionista Rural da EMPAER em São Félix do Araguaia Jorcelina Escame, nos conta que atualmente a principal atividade econômica do PA Dom Pedro é a agropecuária e que existe um grande esforço da Comunidade no sentido de diversificar a produção. Em sua fala, junto com o Secretário de Agricultura do Município, Gerson Alves, eles apresentaram os custos de produção da Farinha, do frango e do peixe de maneira a realizarem junto com a comunidade o exercício de avaliar os custos e buscar alternativas para tornarem as suas iniciativas sustentáveis.

A EMPAER da região está cadastrando os produtores para apoiar a comercialização através do Programa de aquisição de alimentos da Agricultura Familiar e segundo Jorcelina, existe ainda, uma oportunidade de comercialização através da Lei número 11.947 de 16/06/2009 que prevê investimento de no mínimo 30% do PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), este investimento de aplica na compra direta de produtos da agricultura familiar. Para que isso aconteça, as famílias precisam produzir, se qualificar dentro das normas sanitárias exigidas por lei e se organizar coletivamente para atender a demanda.

Os produtores da Agricultura Familiar também reivindicam assessoria técnica e se ressentem do abandono e das contradições que não os permite avançar, pois, os custos para atender as exigências e normas para acessar os mercados são muitos e a realidade econômica, as grandes
distâncias e má conservação das estradas não favorecem. Ainda assim, a resistência é maior que as dificuldades, pois segundo dados do IBGE, a agricultura familiar é responsável por 70% dos alimentos que abastecem a mesa dos brasileiros. A estrutura fundiária que apresenta dados desiguais na ocupação da terra, onde 26% são ocupados pela agricultura familiar em oposição aos 76% que são ocupados pelo agronegócio com a prática de monoculturas. Deste grande montante de terra, poucos são seus donos.

Muitos assuntos haviam por serem ditos, quando a chuva indicou que era hora da maravilhosa galinhada que foi preparada ao fogão à lenha e oferecida aos participantes que quisessem partilhar a refeição. Ali se confraternizaram com pessoas vindas do Assentamento Mãe Maria, estava por lá o Rui, que Preside o Sindicato Rural em Alto da Boa Vista e representantes do Grupo de Coletoras Xavante da TI Marãiwatsédé com seus artesanatos de sementes, cestos e fibras vegetais.

Pela tarde as reflexões da Caravana giraram em torno do cultivo de alimentos e também da boa apresentação dos produtos para comercialização. Para falar deste assunto, vieram de Confresa os professores do Curso Técnico em Agroindústria do IFMT, que trouxeram para a roda de conversa informações técnicas e normas sanitárias para alguns segmentos da Agroindústria familiar, enfatizaram a importância fundamental do Cooperativismo para o enfrentamento das dificuldades que estão postas para o trabalhador do Campo.

Ao final do dia o Representante do INCRA Tadeu Escame também contribuiu para o diálogo esclarecendo dúvidas sobre a regularização fundiária no assentamento e deixou claro que a capacidade de atendimento do INCRA é insuficiente para o atendimento das 2.000 famílias assentadas na região, sendo a falta de funcionários o principal fator que torna prolongada a espera por vistorias que permita a emissão do documento de posse da terra.

A desigualdade fundiária, a concentração de poder e riqueza causadas pelas cercas que a Pecuária e o agronegócio plantam nas mãos de poucos é histórica na região do Araguaia Xingu. Os tempos atuais nos remetem aos anos em que Pedro Casaldáliga na liderança da Prelazia protagonizou a luta contra o trabalho escravo e pelo direito à terra e agora, tornando-se ainda necessário lutar para permanecer nela. Diante do quadro em que os políticos e a justiça brasileira estão voltados para atender sem ressalvas os interesses de seus financiadores, nos salta aos olhos o desmonte dos órgãos responsáveis por resguardar direitos das minorias através da FUNAI e o INCRA com a Demarcação das terras dos Povos Originários e a realização da Reforma Agrária.

Para somar nesta luta, a ANSA e seus parceiros promovem a V Mostra Sócio Ambiental de São Félix do Araguaia que acontecerá nos dias 23, 24 e 25/06/2017, onde serão apresentadas as riquezas dos produtos da Região Araguaia Xingu. As comidas, os artesanatos, os encontros de culturas e distintas formas de produção. Através destes esforços, conversas, visitas, caravana e encontros pretende-se dar visibilidade às cadeias de valor e sustentabilidade para quem vive na terra.

Nós somos terra!

 

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