Olha a chuva! Tempo dos plantios e da colheita de frutas nativas no Araguaia Xingu

Por Liebe Lima/AXA

“Quando nós chegamos aqui, que foi em 1999… Eu lembro que era mês de agosto…mês de agosto! Chovia…chovia…chovia tanto que a gente não conseguia colocar a cabeça para o lado de fora do barraco. E hoje já estamos no final do mês de novembro e agora que deu duas chuvas aqui.” – Geni Pereira de Souza, Assentamento Brasil Novo, Querência MT, Brasil.

Com a característica marcante de duas estações distintas e após um período que varia entre 5 e 6 meses de estiagem, segundo alguns moradores antigos da região, a cada ano que passa fica maior a demora em chegar as cheias nas bacias dos rios Xingu e Araguaia. Os agricultores que aguardavam as chuvas para colocar as sementes na terra e garantir a fartura na mesa, tiveram que esperá-la até o final de novembro.

O Sr. João Carlos, morador do PA Dom Pedro em São Félix do Araguaia, MT, nos conta que a algum tempo atrás, a ocorrência de 3 chuvas boas em outubro era o sinal verde para o plantio do milho e mandioca. Atualmente isso não funciona mais. Muitas pessoas daquele assentamento já estão perdendo suas manivas de mandioca por terem plantado logo após as primeiras chuvas. Na percepção do Sr. João, para produzir com tantas mudanças “Tem que deixar chover bastante”.

Seja cedo ou tarde, a chegada da chuva traz uma alteração radical na paisagem da região, substitui o esgotamento árido do chão seco e do carvão das queimadas, pela explosão de verdes das mais variadas nuances. A natureza celebra iniciando grande produção de frutos nativos: pequis, cascudos, cagaitas, mangabas, buritis, muricis e uma imensa fartura de mangas, jaboticabas, acerolas, goiabas e cajus. Nos quintais, as frutíferas se debruçam umas sobre as outras ofertando um imenso leque de variedades e sabores a escolher.

Dada a largada, começa a corrida para plantar em tempo certo, antes que a chuva alague os varjões e encharque o solo. Além dos parceleiros nos assentamentos e, os demais atores da Agricultura familiar, que preparam o solo para receber as sementes e realizar os plantios, que produzem 70% dos alimentos que consumimos, a Rede de Sementes do Xingu vem dialogando com jovens nas escolas, para que conheçam o trabalho de coletar sementes para restaurar áreas degradadas na região, abordando conteúdos complexos através de jogos didáticos inovadores, em um contexto onde as escolas formam para o agronegócio, que é responsável pela degradação de grandes áreas para implantação de agropecuária e monoculturas. Assim, também vai plantando as ideias de preservação e recuperação da sociobiodiversidade nos corações e mentes desta nova geração.Alunos da escola Mun. Agrícola de Querência Jogando o jogo “Florestação” Da ARSX – Foto: Liebe Lima/AXA

Em Intercâmbio com Jovens da Rede de Sementes do Xingu no PA Brasil Novo, um grupo de alunos da Escola E.M.E.B Brasil Novo, no município de Querência, teve a oportunidade de jogar o “Florestação” e também participaram de plantio de enriquecimento com mudas e sementes para recuperação de uma APP em um lote do Assentamento, aprendendo na prática a importância e a beleza de plantar árvores. Em 2017 o Instituto Socioambiental – ISA assumiu o compromisso de plantar um milhão de árvores na bacia do Rio Xingu em uma parceria firmada com o Fundo Brasileiro para Diversidade (Funbio) e o Rock in Rio. Até agora já foram plantados 100 hectares e aproximadamente 990 mil espécies já foram germinadas, segundo o balanço apresentado pela Rede de Sementes do Xingu em 2017.

Alunos da Escola E.M.E.B Brasil Novo, realizando plantio de mudas em APP –  Foto: Liebe Lima/AXA

Neste mesmo movimento para recuperação de áreas degradas, nascentes e também com vistas aos plantios de frutíferas e outras espécies florestais para produção de produtos não madeireiros, a Associação Nossa Senhora da Assunção – ANSA, está colhendo os frutos do “Casadão”, um sistema agroflorestal iniciado no PA Dom Pedro em 2002, gerando renda para as famílias que se engajaram nos plantios e hoje vendem suas frutas para a Araguaia Polpa de Frutas em São Félix do Araguaia, além da coleta de sementes que entregam para a Rede de Sementes do Xingu.

No PDS Bordolândia, Municípios de Serra Nova Dourada, MT e Bom Jesus do Araguaia, MT, as estacas já estão fincadas e a família do Sr. Pedro Righi está trabalhando para ampliar a área de cultivo de maracujás. Através de um projeto em parceria com a Comissão Pastoral da Terra – CPT, agora contam com uma roda d’água que possibilitará a irrigação dos maracujás que tem destino certo na Araguaia Polpa de Frutas. Eles fazem parte deste círculo virtuoso de produção familiar da Reforma Agrária que gera renda da terra com produtos não madeireiros. 

Plantio de Maracujá da Família do Sr. Pedro Righi no PDS Bordolândia – Foto: Liebe Lima/AXA

O Povo Xavante da TI Marãiwatsédé, situada nos municípios de São Félix do Araguaia, Bom Jesus do Araguaia e Alto da Boa Vista, MT, também está inovando no uso de adubos verdes como o Feijão de Porco e outras leguminosas para melhorar a qualidade do solo. Além disso, realizam plantios com sistema agroecológico, fazendo uso consorciado de frutíferas e espécies florestais de uso tradicional para enriquecimento alimentar e reprodução de seus costumes. O Grupo de Mulheres Coletoras de Sementes da Terra Indígena de Marãiwatsédé “Pi’õ Rómnha Ma’ubumrõi’wa” faz parte do movimento de “florestação”, entregando sementes para a Rede de Sementes do Xingu e participando de intercâmbios promovidos pela Operação Amazônia Nativa – OPAN e outros parceiros. É nestes encontros que acontecem a troca de conhecimentos entre indígenas e outras comunidades da região, possibilitando a incorporação de novas práticas que contribuem no desafio de melhorar a qualidade de vida e seguir em frente recuperando o que já foi a Terra Indígena mais desmatada da Amazônia, com um quadro de 80% de desnutrição grave entre suas crianças.

Milho tradicional Xavante secando para o plantio na Aldeia Etewawe da TI Marãiwatsédé – Foto: Liebe Lima/AXA

A Região Xingu/Araguaia onde a Articulação Xingu Araguaia – AXA atua, conta com 17 municípios, totalizando a extensão de 121.131,76 Km². Destes, 1.426.222 mil hectares estão destinados à Reforma Agrária, com 86 Projetos de Assentamentos, onde estão assentadas 17.261 famílias. Além destas famílias, se pode trocar saberes ancestrais e ações com a diversidade de povos como os Karajá, Xavante, Tapirapé e muitos outros da Terra Indígena do Xingu presentes na região, ampliando a consciência social para o cuidado com o planeta terra e as pessoas com quem o partilhamos.

Você já plantou uma árvore este ano?

Os exemplos que nos inspiram são muitos. Para plantar e colher é só começar!

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