Agroecologia é tema de curso no Xingu Araguaia

Por Liebe Lima/AXA

Colaboração de Clarice Carmo do PA Dom Pedro

Seu João do PA Dom Pedro, Dona Valdívia do PA Independente I e dona Cleusa do PA Macife são agricultores/coletores de sementes e se tornaram referência por terem feito muitos plantios em seus lotes e hoje estão colhendo os frutos do trabalho com a fartura de alimentos e diversidade de produção. Além de nos fazer crer naquele velho ditado que diz: “Em se plantando tudo dá”, por sua longa jornada de trabalho na terra, eles também nos trazem conhecimentos, histórias e as memórias de como eram as paisagens do lugar antes do arco do desmatamento chegar e como disseram não às derrubadas, optando por promover a agrosociobiodiversidade e preservar os biomas Cerrado e Amazônico.  Na região, é chamado de “Casadão” as técnicas de base Agroecológica que junta conhecimentos práticos dos agricultores e aportes científicos da Agroecologia. Esta técnica de plantio foi adotada pela Comissão Pastoral da Terra – CPT para implantação de quintais produtivos no trabalho com grupos de assentados e indígenas.

Neste contexto, Dona Cleusa traz muitos conhecimentos tradicionais de plantios e plantas medicinais que aprendeu com o Povo Xavante, com quem viveu com sua família na TI Pimentel Barbosa dos 6 aos 19 anos e oferece generosamente seus conhecimentos sobre as plantas e sementes, mudas e principalmente o exemplo de esperança para quem vive da terra. Segundo ela, quando se mudou para o PA Macife, a 20 Km de Bom Jesus do Araguaia, MT, caminhava até a cidade sob um bosque de árvores e a temperatura era muito diferente de hoje, onde as matas deram lugar às pastagens em todas as direções até onde a vista alcança.

Cleusa Nunes – Agricultora familiar do PA Macife – Foto: Liebe lima/AXA

Em conversa na varanda de sua casa arrodeada de pequizeiros gigantes e carregados, seu João relata as diferenças que ele observa atualmente nas florações e sinais que demonstram o potencial de produção de sementes. “As flores deixou nois de mentiroso, pois acreditamos nelas e depois não encontramos as sementes”.  Assim seu João explica que não se pode mais confiar em sinais que antigamente se usava para elaborar o potencial de coleta de sementes para a Associação Rede de Sementes do Xingu – ARSX, pois, segundo ele, espécies como o Jatobá e o Barú que antes floresciam em setembro, atualmente tem carregado só em novembro. Para ele, as chuvas poucas que tem caído na região podem ser a causa das mudanças relatadas acima e a cada ano é preciso recorrer a outros indicativos para decidir sobre o momento certo de deitar as sementes na terra, ou fazer as coletas.

Seu João Carlos Ferreira dos Santos – Agricultor familiar do PA Dom Pedro – Foto: Liebe Lima/AXA

Para transmitir esses conhecimentos tradicionais dos povos da terra às novas gerações que se inspiram em modelos de produção alternativos, como estes, que apresentamos através das histórias de seu João e Dona Cleusa, a Comissão Pastoral da Terra buscou parcerias do Instituto Federal de Mato Grosso – IFMT, Campus de Confresa, MT, da Prefeitura de Confresa via Secretária de Agricultura e Embrapa Agrossilvopastoril de Sinop para a criação do Curso de Agricultura e Agropecuária com Bases Agroecológicas. O curso está sendo realizado nas instalações do Centro Pastoral Padre Josino em Porto Alegre do Norte. O segundo módulo que aconteceu nos dias 22, 23 e 24 de setembro, contou com a participação de 40 pessoas entre Assentados, Retireiros e Indígenas que atuam como multiplicadores nas comunidades. Para Clarice, que é uma das alunas do PA Dom Pedro, eles estão se preparando para continuarem o trabalho de serem “guardiões da natureza”.

Visita dos alunos do curso de Agricultura e Agropecuária com bases agroecológicas ao sítio da Dona Valdívia do PA Manah – Foto: Clarice Carmo

A propriedade de Dona Valdívia foi visitada na ocasião pelos alunos, por ser considerada como unidade demostrativa de agrofloresta. Ali ela apresentou seus plantios de banana e canteiros consorciados entre frutíferas, florestais e muitas variedades que vão do pepino, pimenta até as abóboras e tantas outras. O segundo tema abordado foi o pastejo rotacional apresentado pelo Moisés que é filho de Dona Valdívia. Ele falou da importância do sombreamento para o gado leiteiro, o uso de cana de açúcar para complementar a alimentação do gado e outras alternativas que não demandem uso de herbicida. O esterco do curral é totalmente aproveitado para adubação dos canteiros de agrofloresta da família.

Clarice que colaborou na contação desta história, acaba de se tornar mãe do Lucas e no curso participam mãe e filho. Para ela as aulas práticas proporcionam acessar conhecimentos de pessoas experientes e pretende levar consigo a mesma trajetória deles. “Tenho a esperança de melhorar a produção e sustentabilidade do sítio onde moro e mostrar às futuras gerações que o que temos a fazer é cuidar do meio ambiente que ele nos dá o retorno que precisamos para viver bem”.

A roda da história segue girando e agora é sempre a hora de ajustar o caminho a seguir rumo à sustentabilidade e responsabilidade com o futuro!

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