A chegada dos colonos de Tenente Portela em Canarana

Entrevista a Augusto Dunke realizada por Carlos García em 2011.

“Eu cheguei em 11 de janeiro de 1973. Saímos de Tenente Portela e levemos 7 dias para chegar na vila Sucurí, me acampei ali 30 dias para conhecer as terras. Me entusiasmei. A diferença com Tenente Portela era enorme, lá a gente convivia com os vizinhos, a distância de um vizinho do outro era 50/100 metros. Aqui era 6/7 quilômetros, a gente estava meio isolado. Tinha um convívio com os que chegavam, mas com quem já estava era difícil. Mas valeu a pena depois de 40 anos. Em Tenente Portela tinha pouca terra e o pastor Norberto Schwantes, ele inventou de unir mais o pessoal de lá, vender a terra para o vizinho e procurar outras áreas, mais espaço. Foi criada a Cooperativa 31 de março. Eu me inscrevi. Ele tinha pensado mais em Mato Grosso do Sul. Foi para Dourados, mas para lá tinha 3.000 hectares disponíveis e muito caro. Ele descobriu essa gleba aqui, perto do rio Fontoura. Tinha um corretor em Barra do Garças que indicou essa terra: 40.000 hectares. Inicialmente ele ficou em dúvida, mas veio um grupo, alguns desistiram. Fizemos uma assembleia e de 400 famílias, só 81 se prontificaram para vir aqui. Tocou 500 hectares para cada família, a um preço irrisório de 30 cruzeiros para cada um. Mas para nós custou 100, com infraestrutura, rua, estrada, projeto, agrimensor… Tudo foi financiado pelo Banco do Brasil pelo PROTERRA. O doutor Orlando Rewer foi o projetista que fez o projeto aqui. Quando o projeto estava pronto foi Tenente Portela. Eu cai no lote 20. Ai que eu vim conhecer com o meu compadre, para conhecer o lote. Cravei uma estaca e fizemos um barracão, colocando a lona por cima e eu por baixo. Quando eu vim de lá (Tenente Portela) de caminhão com a mudança, uma F100, e com 14 pessoas, demoramos 7 dias. De lá para cá era só pinguela, não tinha asfalto. De Iporá até aquí levemos 3 dias, 500 quilómetros, 20/30 quilômetros por hora, tinha muito mata burro.

Em 7 anos o município de Canarana emancipou. Houve um trabalho importante, condições de criar município. Conseguimos renda, sem renda e produção era impossível criar um município. A produção de arroz era boa, depois foi a soja. Deu uma boa renda e teve condições de criar dois municípios Canarana e Agua Boa. Aqui foram feitos 17 projetos de colonização. O pessoal veio e foi gostando. O Mato Grosso expandiu muito desde então. Tudo isso se deve ao trabalho das pessoas que migraram e que trabalharam. Em Tenente Portela já tinha área indígena na porta do município, isso ajudou para conviver com o Parque Indígena do Xingu. Temos que acolher todos. Para mim isso é natural. Sejam indígenas ou qualquer que for.

Em 2004 foi criado um Memorial. Deve ter havido umas 6.000 visitas. Pessoas da Alemanha, da Espanha, um professor da UNB… A história deve ficar escrita. Para que as pessoas conheçam como começou tudo. Precisaria dar algo de mais atenção para a história de Canarana.

Nestes 40 anos, 70% trabalhei para dentro do município, para a comunidade, CTG, escola, e 30% para mim”.