A história da terra mais desmatada do Brasil

A Terra Indígena Marãiwatsédé está localizada entre os municípios de Alto Boa Vista, Bom Jesus do Araguaia e São Félix do Araguaia. É cortada, de norte a sul, pelo divisor das bacias dos rios Araguaia e Xingu, razão pela qual reúne em seu território importantes cabeceiras de afluentes desses dois rios, em uma região de ecótono (transição) entre os domínios da Amazônia e do Cerrado, marcada por uma rica biodiversidade. Os primeiros contatos da sociedade nacional com este grupo Xavante ocorreram, provavelmente, em meados da década de 1950.

Em 1966, foram expulsos de sua terra natal e vivem, desde então, uma historia épica de sobrevivência e luta pela reconquista de sua terra, que ainda não terminou.

Em 1992, grandes grupos de interesse agropecuário iniciaram na área um processo de invasão e grilagem de terra para converter a vegetação nativa em pasto e lavoura. Após o considerável esforço das lideranças para retornar a sua terra natal, a Terra Indígena Marãiwatsédé foi homologada em 11 de dezembro de 1998, com 165.241 ha., o equivalente a 40% de sua área original. Entretanto, continua sendo ilegalmente ocupada pelos não-índios. Do ponto de vista ambiental, sua situação é catastrófica: da vegetação primária existente em 1992, que cobria 66% da área, apenas 13% estão atualmente em pé, o restante foi totalmente degradado.

Aproveitando a demora de um processo judicial que se arrastou nos tribunais federais durante anos, 103.628 ha de mata e Cerrado foram derrubados ao longo de 17 anos. Hoje, apesar de ser notório seu título de Terra Indígena mais devastada da Amazônia Legal, o desmatamento na Marãiwatsédé continua, perante a estrutura inoperante e conivente dos órgãos de fiscalização do Estado. Essa invasão criminosa, que deita suas raízes em interesses econômicos e políticos variados, tinha como objetivo estimular a entrada de posseiros na TI, buscando, com isso, impossibilitar a volta dos índios.

Com o tempo, as pequenas propriedades que brotavam na mata foram dando espaço a grandes e médias fazendas, ao passo que Marãiwatsédé transformava-se na TI mais devastada da Amazônia Legal.

O ano de 1992 marcou não somente o início da invasão do território Xavante. Anos depois, o enfrentamento entre as partes envolvidas foi parar nos tribunais. Tanto a Fundação Nacional do Índio – FUNAI, representando os índios, quanto os invasores, representados por seus advogados, entraram na justiça para resolver o impasse: estes com o intuito de anular o processo demarcatório legítimo da TI, aqueles, solicitando a desintrusão da terra. Os dois processos correram em paralelo e, em todas as instâncias, a Justiça brasileira reconheceu o direito dos Xavante à posse de seu território. Atualmente, os Xavante que vivem em Marãiwatsédé somam, aproximadamente, 700 pessoas. Ocupam menos de 20% da área demarcada, o restante da TI continua sendo grilada e sistematicamente devastada. Portanto, a dívida histórica, moral e ecológica do Estado brasileiro tem com eles ainda não foi saldada.

Mais informação na publicação Marãiwatsédé terra de esperança