A Chegada de João D´Angélica nos anos 60

Entrevista realizada por Carlos García (ISA) em 2011.

“Disse o velho meu pai, velha a minha mãe que eu nasci em uma data feliz de 1940 em Barreira do Campo (Pará). 1945 nós mudou para aqui, beirando Porto Alegre. Naquela época você caçava lugar, falava assim com os compadre. Eu arranjei um lugar bom: tem muita agua e muita mata boa e pasto bom para o gado. Não tinha perturbação de nada. Chegamos no dia de São João. Os índios mantaram um rapaz, que os índios kayapó eram muito bravos e nós mudemos para Jatoba Torto. Lá tinha uns oito vaqueiros e meu pai resolveu tirar um lugar e botaram o nome de Cedrolândia, (hoje Porto Alegre do Norte). Ele foi lá botou a roça, tudo queimou. Chegamos 6 de janeiro de 1950. Desde então eu estou lá, Porto Alegre do Norte. Eu era um homem muito bonito, e as mulheres ­cavam arriba de mim e ai resolvi casar. Nesse casamento arrumei 10 fi­lhos, 1 homem e nove mulher. Hoje tô bem rodeado de família, os dez fi­lhos, graças a deus, 24 netos, dois bisnetos. E ainda tô querendo ver se faço dez meninos mais, que 10 tá pouco (risadas). Quando a gente chegou, naquela época não tinha perturbação de fazenda. Era o tempo melhor que nós passamos. Um tempo muito muito feliz, muita amizade. Aquele tempo, companheiro, eu tenho saudade para esses meus netos ver. Não tinha roubo. O gado era tudo junto. Você ia no campo e você caçava uma vaca sua, achava um cara com uma vaca do outro e levava para o curral, para sarar, era aquela satisfação, ninguém roubava do outro. O meu pai me ensinou para trabalhar. A pastagem era natural. Demorei em conhecer as pastagens que eles plantavam. Primeiramente era o capim Jaraguá, ai o Colonião, ai o tal de Braquiarão. Hoje é tanto enxerto que eles plantam que nada é nada nada. Eu acredito que a pastagem natural. Porque eu conheço esse lado todo e sei como é que é. Na pastagem natural dava para criar o gado bom e gordo. Depois que misturou tudo não prestou mais. Tem tantas lei que eu não combino com isso. Se pudesse morar longe de tantas lei que só tivesse o povo, só nós igual que os índios. Foi botar lei demais. Para acabar com tudo o que Deus deixou nesse mundo. Primeiramente as matas, eram matas bonitas. O cara derrubava a roça, sim derrubava. Um pedacinho, quatro linhas de chão. Cercava aquela roça, plantava dois, três anos. Eram assim, não era esse mundão de coisa que os fazendeiro faz. Por isso, companheiro, que eu tenho saudade daquele tempo. Nós viviam que nem os índios, da pesca e caça, plantava e tinha o gadinho. Ai chegou a fazenda Frenova. Dai para cá só foi para pior. Eu tenho uma historinha, o Pedro (Casaldáliga) sabe dessa história. O gerente da fazenda me contratou para matar o padre, me dando 7000 naquele tempo. Nós fazia uma cerca por 30 cruzeiro. O Padre Enrique. Ele queria mandar matar, o padre ia na casa dos companheiros e falava, vocês não saem daqui, que vocês estão com 10 e 20 anos. Se vocês sair daqui, vai para outra terra, vão fazer o que lá. Não conhece ninguém, não tem apoio. E com esse povo foi ateando a cabeça. Ai, disse, tem que matar o padre. Nós tomemos 3500 dele, porque o resto era de prestação, e não matemos o padre. Perdemos o resto do dinheiro e deixemos o padre vivo. Eu falo assim, oh bicho danado é padre, que nós perdemos tanto dinheiro hein!! (risadas). O padre tinha fugido, aí perdemos o dinheiro e o padre (mais risadas). O padre era quem mais ajudava nós, era amigo nosso. O tempo bom já passou e não volta mais porque os home não faz uma lei para proteger a nação, esse mundo nosso, não vi essa lei ainda. Mas de acabar sim isso que estou lhe falando. Papel, todo o mundo pega, agora abraço que eu tenho que outro tem do meu jeito é pouco que tem”.