A Criação do Parque Indígena do Xingu

Entrevista realizada por Fernanda Bellei a Andre Villas Boas (Instituto Socioambiental) em 2011.

“A região do Xingu é de ocupação antiga, milenar, de um complexo cultural que foi se formando com uma origen Karibe. Sempre houve um fluxo migratório desde a época dos portugueses, que deflagrou em uma movimentação de etnias, além das que estavam na região. O primeiro contato registrado com a região data de 1887, quando Karl von den Stein veio por meio de uma expedição científica alemã. Ele chegou no Xingu pelo rio Culuene. É uma região de difícil acesso. Nas cabeceiras do Xingu, na parte sul, os rios tem uma navegabilidade muito restrita. Também tinha a presença dos Xavantes, que eram um povo aguerrido. Na parte norte da bacia, as frentes de ocupação de inicio do século XX, vinculadas ao ciclo da seringa, não conseguiram chegar na região por causa da presença dos também aguerridos Kayapó. Por isso, o Xingu ficou com um contato postergado até 1946, quando se inicia a expedição Roncador-Xingu, que foi a primeira expedição de integração nacional no contexto da marcha para o Oeste, que tinha como objetivo ocupar o centro oeste brasileiro. Nela participaram os irmãos Villas-Boas, que começaram como trabalhadores e terminaram liderando a expedição. Na expedição existia também um interesse estratégico em relação à rota aérea Rio de Janeiro / Manaus / Miami. Queriam se instalar bases da FAB que ajudassem na navegação nesse percurso: Aragarças, Xavantina, Jacaré (no parque), Cachimbo e Jacarecanga. Vale a pena ressaltar que a ocupação não se deu por conta da expedição e sim posteriormente nos anos 70 com a abertura das estradas BR163 (oeste da bacia) e BR158 (leste da bacia). O PIX foi criado no ano 1961, mas a discussão da sua constituição veio desde a década dos 50. A primeira proposta foi do ano 1952 e mostrava um parque cinco vezes maior do que ele é hoje. Os interesses mobiliários matogrossenses se posicionaram contra a sua constituição. Foram realizadas sucessivas divisões no projeto até que em 1961 Jânio Quadros criou o PIX, que depois teve algumas mudanças no seu desenho. O parque contemplou a territorialidade integral de algumas etnias, mas deixou fora parcelas significativas de território tradicional de povos que lá habitavam. Os Panará, Ikpeng, Kindsedge e os Caiabi, que habitavam fora do parque, perderam territórios na sua ida para o Xingu. Eles estavam debilitados pelas epidemias decorrentes dos contatos com as frentes de expansão. Foram trazidos para o parque como um porto seguro.

O PIX pode ser avaliado de várias maneiras. Naquela época a sociedade percebia os índios como algo do passado e não do futuro. Não havia legislação que garantisse os direitos territoriais dos índios. A criação de uma área de proteção com a presença do Estado dentro daquele contexto foi uma ousadia histórica. O grande mérito do PIX foi ter protegido efetivamente os índios. Os Caiabi, que viviam na bacia do Teles Pires, são um bom exemplo disso. Se você comparar os Caiabi que ficaram fora do parque e os que foram para dentro há diferenças perceptíveis em termos de manutenção da língua e dos aspectos culturais. Os que ficaram fora tiveram que enfrentar as frentes de expansão com perdas populacionais e culturais.

Foi, portanto, uma ação de gestão territorial que liberou territórios para as frentes de expansão. Cabe dizer que os seus limites não foram discutidos com os índios tal e como acontece hoje. A sua demarcação foi uma interpretação das pessoas que tinham contato com os índios. Se eles tivessem participado o parque provavelmente seria maior. Por outro lado, para os índios houve perdas territoriais. Várias etnias contabilizam essas perdas de partes de territórios ou de territórios inteiros de grupos que foram trazidos para o parque. Para a elite da época também houve uma perda em termos de terras disponíveis para a especulação imobiliária.

Em definitiva, foi uma engenharia social o desafio de colocar povos que moravam em espaços maiores em uma área mais restrita. A presença dos Villas- Boas ajudou nessa pacificação interna entre os grupos rivais. Eles investiram na criação de uma situação de paz e de harmonia, de desarmamento dos espíritos guerreiros decorrentes das disputas históricas entre esses povos”.

Mais informação do PIX na publicação realizada pelo ISA: Parque Indígena do Xingu 50 anos