O Resnascer do povo Tapirapé

No ano de 1914, depois de viajar 15 dias pelo Araguaia e 5 pelo rio Tapirapé, o bispo de Conceição do Araguaia, D. Domingos Carerot, realizou, junto com outros dois padres dominicanos, o contato com os índios Tapirapé. Já haviam existido outras tentativas – infrutíferas – de contatar o grupo, como a do pesquisador alemão Frederico Krauss em 1897. Quando chegaram à aldeia Tapirapé, em 1952, as Irmãs Genoveva, Clara e Denise, irmãzinhas de Jesus, encontraram um povo enfraquecido, de apenas 50 pessoas, refugiadas nas margens do Araguaia e fora do seu território ancestral. Hoje, existem cerca de 500 Tapirapé, em sua maioria crianças e jovens, vivendo em duas áreas demarcadas: em Majtyritãwa, próxima a Santa Terezinha, e nas aldeias Tapi´itãwa, Wiriaotãwa, Akara´ytãwa e Xapi´ikeatãwa, situadas na Terra Indígena Urubu Branco, próxima à cidade de Confresa.

O respeito às crenças, ao estilo de vida e aos costumes dos Tapirapé foi o que tornou as Irmãzinhas as principais aliadas deste povo durante todos estes anos. “Queríamos viver no meio deles o amor de Deus, que não deseja outra coisa senão que vivam e cresçam como Tapirapé” são palavras da Irmãzinha Genoveva no seu aniversário de 50 anos de vida com o povo Tapirapé. O quase extermínio dos Tapirapé ocorreu a partir de 1909, quando o grupo, composto de aproximadamente 1500 índios de acordo com os dados do antropólogo americano Charles Wagley, foi exposto às doenças trazidas pelos não-índios. Epidemias de gripe, varíola e febre amarela dizimaram suas aldeias. O outro fator da diminuição expressiva e dispersão dos Tapirapé foram as disputas com os Kayapó que viviam na região. Em 1935, o povo tinha sido reduzido a 130 pessoas, e, em 1947, apenas 59, segundo o depoimento de Herbert Baldus, antropólogo da Universidade de São Paulo que os visitou na época.

Foi nesse ano que ocorreu o grande ataque Kayapó. Aproveitando a ausência dos homens que haviam saído para caçar, a aldeia Tampi´itawa foi praticamente destruída e várias mulheres e meninas, raptadas. Os sobreviventes procuraram refúgio na fazenda de Lúcio da Luz e junto a Valentim Gomes, recém-contratado pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e que vivia próximo à barra do Tapirapé.

Foi junto a esse rio que a comunidade resolveu construir a nova aldeia, em 1950, cujo processo de consolidação iniciou com a chegada das Irmãzinhas, em 1952. O trabalho intenso e engajado dessas mulheres que ofereciam assistência à saúde permitiu que, em 1959, houvesse um controle da mortalidade. Em 1968, mais fortes e unidos, os Tapirapé deram inicio à recuperação do seu território ancestral com a abertura da primeira picada demarcatória, processo que se fortaleceu graças ás viagens feitas a Brasília em 1975.

Neste contexto, não podemos deixar de mencionar a considerável influência das Irmãzinhas na criação do CIMI – Conselho Indigenista Missionário –, que, em 1974, dois anos depois de sua fundação, participou ativamente da demarcação das terras Tapirapé. Nos anos seguintes, a demografía desse povo parece estar definitivamente assegurada: entre 1976 e 1981, nasceram 50 crianças, uma guinada histórica, e em 1979 não foi registrada nenhuma morte na aldeia. A Funai comprometeu-se a realizar a demarcação de todas as terras Tapirapé até 1981; no entanto, o território Urubu-Branco foi demarcado bem mais tarde, em 1992. Mesmo assim, hoje a metade do território encontra-se ocupada ilegalmente por oito propriedades de não-índios e pequenos posseiros. Liderados por Marcos-Xako’iapari, o povo Tapirapé vem desenvolvendo desde 1983 um processo de reconstrução de sua auto-estima, apropriando-se de seu direito à cidadania e a ser uma etnia diferenciada, garantindo assim a herança ancestral.

Hoje, a população Tapirapé conta mais de 500 índios, dispõe de uma escola indígena estadual de ensino fundamental que é referencia no mundo indígena, e está tramitando a implantação do ensino médio. Há professores que já terminaram o terceiro grau e outros que estão frequentando o terceiro grau indígena. Apesar das interferências da língua portuguesa, os Tapirapé conservam a sua própria língua.