Quase 40 anos de busca por educação de qualidade para os filhos do Araguaia Xingu

A formatura dos primeiros técnicos do IFMT Campus Confresa revisita o passado da educação no Araguaia Xingu e projeta o futuro nas histórias de diferentes atores

Por Telma Aguiar

Confresa – O primeiro campus do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso – IFMT da região do Araguaia Xingu inaugurado em Abril de 2010 na cidade de Confresa realizou em maio deste ano (2013) a sua primeira formatura das turmas de nível médio integrado aos cursos técnicos em Agropecuária e em Alimentos.

Um total de 140 alunos foram diplomados, destes uma parte expressiva são filhos de agricultores familiares moradores de quase todas as 15 cidades que compõem a microrregião do Araguaia Xingu.

A cerimônia de colação de grau foi festejada com a presença de autoridades políticas regionais e estaduais e de autoridades religiosas, professores e familiares. O bispo emérito da prelazia de São Félix do Araguaia-MT, Dom Pedro Casaldáliga, foi homenageado como personalidade símbolo das lutas que a população travou durante algumas décadas, a partir dos anos 1970, na busca por instituições de ensino. O bispo não esteve presente, mas enviou uma carta aos formandos, lida por seu representante.

O IFMT Campus Confresa oferece cursos de nível técnico e superior, sendo os técnicos Agropecuária e Alimentos e os de nível superior Agronomia, Licenciatura em Química e Licenciatura em Ciências Agrícolas.

Uma longa jornada em busca de educação

O IFMT foi um sonho acalentado pela população que até pouco tempo tinha como única alternativa para se profissionalizar buscar centros urbanos distantes. Os menos afortunados, impossibilitados de manterem os filhos longe da família, quase sempre ficaram sem acesso a uma instituição de ensino pública que ofertasse ensino técnico e superior.

O homenageado na festa de Formatura, Dom Pedro Casaldáliga, teve seu nome cogitado para dar nome ao campus Confresa, ele disse ainda em 2010 que não se opunha desde que seu nome fosse relacionado às causas que defendeu.

Recentemente ele não quis comentar, dentre outras coisas, os boatos de que interviu pessoalmente junto ao então presidente Lula para trazer para perto do maior assentamento da reforma agrária (Confresa) um campus do IFMT. Entretanto, ele falou das memórias e de algumas conquistas: “Quando chegamos os primeiros missionários da Prelazia a esta região do Araguaia ficamos surpreendidos com o pedido insistente que nos fazia o povo. Queriam escola, colégio, educação. Outros problemas poderiam esperar. Já iam desaparecendo as atitudes machistas, ser analfabeto era uma vergonha e as meninas tinham que estudar também. E a vontade do povo tornou-se compromisso para esta Igreja e temos feito questão de respaldar todas as iniciativas de educação alternativa.”

Pedro Casaldáliga na época da sua chegada a região

Pedro Casaldáliga na época da sua chegada a região

Desse compromisso nasceu o GEA – Ginásio Estadual do Araguaia, era uma organização escolar construída em oitenta por cento pela Prelazia de São Félix com donativos Espanhóis. Mas, como a Prelazia não queria que o ginásio fosse de uma igreja, o estado assumiu o pagamento dos salários dos professores.  Dado as longas distâncias e as circunstâncias de desmandos da época, salários chegavam com atrasos, a situação de informalidade era tamanha que moradores contam que chegaram a receber o dinheiro na sede do município (Barra do Garças) e entregavam para os professores que atuavam nos povoados.

O movimento conseguiu trazer professores universitários (seminaristas), que segundo Dom Pedro “deram ao GEA um jeito de fonte de inquietudes, de programas de educação alternativa, de pioneirismo”. Ex-alunos do GEA são hoje personalidades ativas na região como políticos e professores. Muitas das aulas daquele ginásio aconteceram sob a vigia de militares que reprimiu as ações do Ginásio, na época professores desapareceram por um certo período.

“Daquele GEA inesquecível surgiram, em boa parte, cursos de educação inculturada mesmo, conscientizadora, integral, e ai Paulo Freire, o mestre da educação libertadora, e o desafio assumido de investir em cursos e programas ao serviço, em primeiro lugar, do professorado do ensino primário, heroico nas precariedades do sertão”, critica Casaldáliga.

Há alguns anos as cidades de Santa Terezinha, Novo Santo Antônio ou Alto Boa Vista, assim como as demais da região, não tinham nenhuma instituição pública gratuita, ou mesmo particular, com a estrutura física e de recursos humanos que o IFMT Campus Confresa conta hoje. Mas, algumas ações buscam há tempos mudar essa realidade com cursos de formação de professores que formaram desde o ensino fundamental e médio ao superior.

Uma das mais expressivas ações foi protagonizada pela Universidade Estadual de Mato Grosso – UNEMAT que desde 1992 ofereceu curso de formação continuada para professores. As Parceladas, nome em referência ao fato das aulas acontecerem em parcelas a cada período de férias, foi uma parceria com a Secretaria de Educação do Estado de Mato Grosso – SEDUC e as prefeituras municipais. “O Projeto Parceladas tinha como principal meta promover a formação de professores: em serviço, em rede e continuada” disse Luiz Antônio Barbosa Soares, Diretor Regional Político, Pedagógico e Financeiro do Campus Universitário do Médio Araguaia localizado em Luciara.

Segundo Luiz Antônio “a imensa maioria dos docentes que atuava na Educação Básica naquela época não tinha formação em nível de graduação, era menos de 10%”. Ele também falou da relevância do projeto para a região: “É muito gratificante para nós da UNEMAT hoje, ver que cumprimos quase na totalidade a formação de professores em serviço, na região do Araguaia. O maior legado do Projeto Parceladas nestes anos de sua existência, foi a descentralização e difusão de conhecimentos acadêmicos para o interior do Estado de Mato Grosso, permitindo a instrumentalização dos professores que atuam na Educação Básica”.

Antes das parceladas muita gente concluiu o ensino médio por meio do programa governamental INAJA. “Falar da educação no Mato Grosso, naquelas datas, é evocar o INAJA, as Parceladas e cursos irmãos; é agradecer a participação solidária de professores exímios, vindos dos grandes centros do País, é sacudir a inércia da política educacional do Estado, é agradecer toda uma política alternativa, emblemática, que ainda hoje marca a educação formal e a informal”, relembrou Dom Pedro Casaldáliga.

Técnicos em Agropecuária e Alimentos contam suas memórias do desafio de serem os primeiros do campus Confresa

Do pioneirismo, muitas lembranças ficarão na memória tanto de alunos, quanto de pais e servidores públicos que juntos deram os primeiros passos do IFMT campus Confresa. Algumas memórias alegres, outras nem tanto. Porém, a história de vida de alguns dos alunos são dignas de registro por retratarem a realidade de tantos outros.

Aparecido durante aula

Aparecido durante aula

Uma dessas histórias é a do aluno Aparecido Tavares. Nascido em São José do Xingu, ele já não é mais um garoto na faixa etária em que a maioria normalmente conclui o ensino médio. Tanto atraso se deve a uma história de vida que exigiu dele força de vontade para buscar, dia após dia, sem dar maior importância aos percalços, a conclusão do curso.

Esse diploma de Ensino Médio integrado ao curso Técnico em Alimentos representa muito na vida de Aparecido porque ainda na infância ele era obrigado a se afastar da escola para acompanhar o pai pelas fazendas, de derrubadas em derrubadas de árvores para novas áreas de pastagens. “A gente ganhou muito dinheiro nessa região, naquele tempo. Era muita derrubada. Ficávamos nas fazendas e quando algo não dava certo meu pai ia embora sem levar nada. Não se preocupava se íamos passar fome”, lembra Aparecido.

O pai de Aparecido era solteiro com três filhos para cuidar, sobrou para ele [Aparecido] a tarefa de alimentar para a família. “éramos subsistentes e autossuficientes, mas não sabia que as palavras eram essas. Eu tinha era raiva de ser. A gente plantava feijão ‘bosta- de- grilo’. Aquilo era ruim porque eu preparava de caldo. Talvez se fizesse uma farofa ficasse bom, mas eu ainda não sabia cozinhar direito. Eu aprendi a caçar preá em arapucas que meu pai me ensinou a fazer, desta forma virei o ‘rei do lar’”, conta.

Quando ouviu, pela primeira vez, os boatos sobre a vinda do IFMT, na época ainda CEFET, para a cidade de Confresa, Aparecido sentiu o coração disparar dentro do peito. Queria estudar nessa escola. Mas, ele ainda nem tinha concluído o ensino fundamental, pré-requisito para se inscrever no Processo Seletivo da Instituição.

Foi aí que ele imaginou uma saída. Como habitualmente as coisas do governo brasileiro levam tempo para serem executadas, até o início das atividades da instituição daria tempo suficiente de cursar os anos que ainda faltavam do ensino fundamental. Aparecido se matriculou numa escola da rede estadual de ensino para Jovens e Adultos (EJA), onde acelerou o processo porque em um ano é possível concluir até duas séries. Sem parar de trabalhar para se sustentar, foi dito e feito, quando o campus Confresa realizou seu primeiro Processo Seletivo, Aparecido se inscreveu e passou no teste.

Para se manter na escola de tempo integral ele trabalhou nas horas livres fazendo “bicos” e por um bom tempo vendeu iogurtes. Os oferecia aos clientes com um certo ar de quem sabe o que diz: “tem lactobacilos vivos”. Numa ocasião confessou a uma cliente que ele era o único até o momento na sua família que havia estudado até o Ensino Médio e que achava o máximo pronunciar palavras difíceis como “lactobacilos”, por exemplo.

Agora que concluiu o curso Aparecido está trabalhando num frigorífico, mas não abandonou seu tino empreendedor, ele montou um viveiro em sociedade com um colega do curso técnico em Agopecuária.

Outra estudante apaixonada, que se destaca pelas conquistas, as quais representam uma prévia da qualidade do ensino ofertado no campus nestes últimos três anos, é a aluna Lange Cristina Matsunaga.

Ela viveu uma trajetória conturbada na escolha do próximo curso a fazer. Passou vários vestibulares, chegou a cursar Agronomia no Campus Confresa, e agora parece decidida a concluir na Pontifícia Universidade Católica de Goiás.  Quando ingressou na primeira turma do campus Confresa, Lange tinha apenas 13 anos. Esta foi a primeira vez que se afastou da mãe. Ela passou a viver no alojamento feminino do IFMT campus Confresa.

A professora da 8ª série, Vânia, foi quem falou do processo seletivo do IFMT, “eu e minha prima ficamos interessadas, depois que passamos a gente veio porque tava buscando mais qualidade na educação, um futuro melhor”.

Lange foi criada pela mãe na cidade de Vila Rica, “Eu cresci na cidade, apesar de ser uma cidade de interior e intimamente ligada ao campo mesmo, cheguei sem ter a menor noção do que era a Agropecuária, fiz o curso porque percebi que na nossa região, o que manda é pecuária, agricultura”.

Única filha da dona Clarice, Lange veio para o alojamento feminino sem nenhuma experiência do que era ficar longe de casa, “eu nunca tinha saído de casa e sempre fui bem caseira mesmo, consegui sobreviver às dificuldades porque eu estava sempre pensando: eu preciso dar um futuro melhor pra mim e minha família”.

Ter ganhado alojamento foi fundamental para a estudante permanecer em Confresa. Ela não tinha sequer um parente na cidade, “sem as condições que o alojamento me deu não seria possível ficar em Confresa por conta da minha idade” diz.

No começo, em 2010, o campus teve problemas com faltava água e algumas estruturas para aulas práticas ainda estavam inacabadas, “a água do alojamento chegava a partir das 8 h e permanecia até as 10h, a gente tinha esse período para quatro meninas tomarem banho e encher as garrafas de água para beber”. O tempo não seria considerado tão curto se não estivéssemos falando de adolescentes.

Emocionalmente, Lange conta que não foi fácil, principalmente no primeiro ano. “Hoje quando vejo alguém chorando atrás do alojamento a gente até brinca: é novato!  Porque o primeiro ano é sempre o mais difícil, não estamos  adaptados com o ritmo dos estudos em tempo integral,  por saudade de casa, morar com pessoas estranhas” diz a  aluna para quem o esforço seria repetido se fosse preciso.

Os destaques nos estudos da aluna Lange se mostram no Exame Nacional do Esnino Médio, ENEM. Ela foi aprovada em 2011 e 2012 em vestibulares. Com as notas de 2011 ela conseguiria ingressar na UFMT para Zootecnia; pelo PROUNI Lange ganhou uma bolsa integral pro Centro Universitário de Patos de Minas, para medicina veterinária; passou na UFRRJ para Zootecnia; na Universidade Federal do Maranhão, para ciências biológicas e para Instituto Federal Goiano para licenciatura em ciências biológicas.

Em 2012 pelo SISU e Prouni ela foi aprovada na UFG para Zootecnia e ganhou uma bolsa integral para direito na PUC – GO. Também ganhou uma bolsa integral para fazer biomedicina na universidade de Mogi das Cruzes – SP e por último foi aprovada no vestibular de agronomia do Campus Confresa.

Lange desistiu dos cursos que passou quando ainda estava cursando ensino médio, “apesar de eu poder entrar na justiça e tentar conseguir um mandado de segurança, eu pensava: não, vale a pena esperar concluir o curso porque eu tenho tempo e é importante passar por todas as fases desse curso”.

Em Janeiro, Lange foi aprovada, via SISU, para Zootecnia na UFG e queria mesmo ter ido fazer o curso, mas a universidade informou que não faria a matrícula sem o certificado de conclusão do Ensino Médio. A Puc-GO faria a matrícula para direito, que nunca foi o objetivo de Lange que se dizia apaixonada pelas áreas ligadas ao campo depois do curso técnico em Agropecuária.

Durante o curso técnico, Lange se dedicou a projetos de iniciação científica com pesquisa nas áreas de pastagens e também foi bolsista de projetos de extensão, além de ser monitora em algumas disciplinas, “fui até monitora voluntária porque tinha excedido o limite de bolsas, mas nunca deixei de atender a nenhum colega porque eu faço monitoria por paixão mesmo”.

Desde 2010 ela tem sido uma enxadrista que conquistou títulos para o campus Confresa.  O primeiro deles veio dois meses após Lange aprender a jogar xadrez em um torneio no I Workshop de Tecnologia do IFMT realizado em Cuiabá. No ano passado nos Jogos do IFMT Lange voltou a conquistar o segundo lugar. Também no final do ano passado, durante os jogos estaduais em que 12 escolas de Mato Grosso participaram, mais uma vez Lange foi medalha de prata.

Lange conta que a escola onde estudava antes do ensino médio não explorava o seu potencial,  e que por isso hoje ela considera o IFMT Campus Confresa como um porta para a vida, “ aqui eu acredito que consegui explorar meus potenciais , eu acredito que cresci, que foi melhorado o que já era bom em mim. Penso que o campus é uma porta por onde eu entro e encontro oportunidades, quando eu ‘tava’ saindo de casa eu falei pra minha mãe: mãe, essa porta se abriu pra mim e eu vou entrar nela”.

André Luiz Sodré Fernandes, técnico em alimentos é filho de Ivonete e Batista José, eles vieram do estado de Goiás por volta dos anos 90 com os três filhos ainda crianças. Hoje moram num Projeto de Assentamento no município de Confresa.

André teve de fazer esforço para manter-se no campus Confresa apesar de ter conseguido o alojamento gratuito, primeiro porque ele é o filho mais velho e, portanto, o que mais ajudava o pai na lida com a terra; segundo porque a família não podia custear a alimentação do filho (naquela época o restaurante do campus ainda não entrara em funcionamento) e alguns materiais didáticos, por último, a ideia de ter o filho longe de casa não agradava muito ao pai de André.

Convencer o pai a não levá-lo de volta para a posse da família só foi uma tarefa menos árdua porque André contou com a cumplicidade da mãe. Dona Ivonete dava um “jeitinho” de controlar o orçamento até o filho conseguir a primeira bolsa de iniciação científica e poder bancar a própria alimentação.

André era estudante de uma escola rural, numa destas salas seriadas, ou seja, várias séries num mesmo espaço físico e um mesmo professor, quando uma equipe chegou divulgando o primeiro vestibular do IFMT Campus Confresa. Ele, os primos e alguns outros colegas também adolescentes fizeram o Processo Seletivo quase que tentando a sorte, “a gente nem acreditava, fizemos a prova e esquecemos de verificar o resultados, eu fiquei até surpreso quando vi que tinha passado”.

No dia da formatura, André ouviu seu nome no discurso do reitor do IFMT, José Bispo Barbosa, citado como o provável futuro reitor do IFMT. Ele sorri da história e conta que agora tem de ouvir piadinha dos colegas no campus. Ele continuará a ouvir  por um bom tempo já que é calouro do curso superior de Agronomia.

Sobre a permanência de alunos no campus em cursos de nível superior o diretor geral, Willian de Paula, declarou que está havendo uma verticalização do Ensino, o que o deixa bastante realizado.

E como ficaram os coração das mães longe dos seu pequenos?

Eudes Pimentel, é a mãe do aluno Lucas, ela viveu como mãe de dois meninos uma experiência singular ligada ao crescimento do ensino técnico em Mato Grosso. Seu primeiro filho saiu de casa muito cedo para cursar o ensino médio integrado ao curso Técnico em Agropecuária no então CEFET de São Vicente.

Quando Mateus (o mais velho) concluiu os estudos voltou para sua cidade natal, São Félix do Araguaia, e logo começou a trabalhar numa instituição que oferece apoio técnico a produtores familiares dos assentamentos do entorno. No ano seguinte a volta do irmão mais velho, Lucas passou no recém criado IFMT Campus Confresa.

Eudes lembra os tempos de saudade dos filhos e faz a inevitável comparação: “Na época do Mateus é que era difícil, quando ele foi para São Vicente eu quase morri, porque eu nunca tinha me separado deles, agora com o Lucas já foi diferente, a gente tem celular, é pertinho, qualquer coisa é só mandar ele vir pra casa.”

Eudes Pimentel mãe do aluno Lucas

Eudes Pimentel, mãe do aluno Lucas

“Eu acho que o estudo é a coisa mais importante que tem para um filho, então eu num tentei impedir, hoje eu sei que foi a melhor coisa que fiz pelos meus filhos porque aqui só oferecem o terceiro ano e mais nada, não me arrependi em nada”, diz a mãe demonstrando orgulho dos filhos.

Ela também conta que viu o filho mudar de comportamento e se preocupou: “No começo eu senti que ele sofreu muito por causa da distância e diferença no nível de ensino, ele ligava chorando dizendo que tinha alcançado nota baixa, que não ia conseguir. Teve uma vez que até achei ele depressivo, veio ficar o feriado comigo e passou o dia inteiro deitado, como ele nunca parou em casa, vieram me perguntar o que havia com ele, mas ele não falava nada”.

Além de ser o filho caçula, Lucas machucou um olho e teve de começar a estudar tarde. “sofri muito porque fui pai e mãe ao mesmo tempo pra cuidar deles, por causa do problema do olho dele eu sempre tive mais cuidado ainda”, conta a mãe.

Todo o esforço para Eudes se justifica pelo legado: “hoje eu já acho natural, se tiver que sair para ir mais longe pra estudar, eu vou falar ‘vambora’ porque é a única coisa que os pais podem dar e ninguém tira, pessoas sem estudo sofrem muito”.

Lucas sempre fez teatro e é uma das atividades em que ele mais se destacou no campus Confresa. A mãe que se diz durona quando precisa ser, fica toda derretida quando elogiam seus filhos e especialmente quando chega a hora das despedidas: “Foi duro, o Mateus faz graça, quando ele vinha e agora o Lucas quando vem e o Mateus vai levá-lo a rodoviária, eu fico chorando, um mostrava pro outro e saiam ‘morrendo de rir’ porque na hora que vinha me abraçar pra se despedir eu já ficava chorando – Lucas olha a mãe lá, ela já tá chorando, ohh mulher mole pra chorar!”

Lucas também é um dos alunos que após concluírem o curso técnico seguem na instituição fazendo um curso superior.

Professora desde muito jovem, Anita aprendeu a ensinar ao mesmo tempo em que ensinava

Maria Anita da Cruz é professora desde os 18 anos, e a exemplo de muitos professores da região do Araguaia Xingu se capacitou participando de cursos de formação continuada de professores ao longo de sua vida docente.

Ela começou sua carreira dando aula para turmas de primeira a quarta série do ensino fundamental em Serra Nova. Ela mesma havia estudado apenas essas séries. O caminho para a aprendizagem veio inicialmente no Curso de Capacitação de Recursos Humanos onde os professores em atividade cursaram da 5ª a 8ª séries em etapas que iam do início de Dezembro ao final de Fevereiro. O curso, realizado no GEA, era oferecido pela Secretaria Estadual de Barra Do Garças, que era a sede do município naquela época. Anita fez parte da turma dos anos de 1978 a 81.

O segundo filho de Anita tinha apenas vinte dias de nascido quando ela começou a estudar. Teve de enfrentar a distância, a quase inexistência de logística e no ano de 1980 uma enchente inundava os alojamentos do Centro Comunitário de São Félix. “Para se locomoverem entre os alojamentos os alunos utilizavam canoas”, conta ela.

Depois de concluir o ensino fundamental a professora ingressou na primeira turma do Projeto Inajá (1987-1990) onde cursou o Ensino Médio Magistério também em módulos durante as férias. “Nesta fase os meus cinco filhos ainda eram todos crianças e quando eu ia estudar tinha de deixá-los com a sogra e o esposo, foi muito difícil”.

A tese de doutorado da professora Dulce Maria Pompeo de Camargo, Unicamp 1992, relata a experiência vivida por ela e alunos/docentes no Projeto Inajá. Logo no início do  texto, ela classifica a experiência como desafio para professores e alunos e chama a metodologia do Inajá de Metodologia do Desafio.

Anita não parou por aí, quando a UNEMAT Universidade do Estado do Mato Grosso, lançou o projeto de licenciaturas a distância, Parceladas, ela fez parte da segunda turma, no curso de Biologia que foi concluído em seis anos. “Foi muito bom, melhorou a didática para a prática, além da teoria e tinha os estágios” diz.

A exemplo dos outros cursos de formação de professores as Parceladas tinha aulas sempre nas férias (de Dezembro a Fevereiro e em Julho) e atividades e estágios para serem cumpridos no restante do ano. Alguns anos depois de formada pela UNEMAT, e de concluir uma especialização em gestão escolar, Ela foi tutora do CEAD (Centro de Educação a Distância), núcleo de São Félix do Araguaia.

Depois da formação a professora que foi diretora da escola por 12 anos recebeu o convite para voltar para a direção, ficou pelo período de uma gestão, depois foi convidada para a secretaria municipal de educação e desistiu do cargo ao percebeu que seu nome só serviria constar na assinatura dos documentos: “eu não tinha autonomia, esse é um dos grandes problemas dos pequenos municípios, a gente não pode administrar do jeito certo, depois de anos aprendendo a melhor maneira de fazer”, desabafa.

Recentemente a professora se aposentou e experimentou uma experiência que sempre sonhou em viver, dar aulas para crianças. “já estou finalizando a carreira e ainda não tinha passado pela educação infantil. Gostei muito, se me chamarem ano que vem eu vou de novo” declara.

Perspectivas

Muito já se fez e a lacuna a ser preenchida na formação dos professores, melhorias em seus salários e carga horária, nas conquistas de laboratórios, bibliotecas, materiais didáticos, merenda escolar e tantas outras coisas que fazem a diferença na qualidade do ensino ainda está por ser feito em toda região.

“Acredito que um dos desafios das instituições formadoras é preparar seus alunos, para esta nova realidade que a Região do Araguaia atravessa nos últimos anos, com o advento do agronegócio. Estudar, compreender e avaliar, os impactos econômicos, sociais e ambientais, que derivarão desta atividade econômica”. Opina Luiz Antônio, Diretor Regional Político, Pedagógico e Financeiro do Campus Universitário do Médio Araguaia – UNEMAT.

O porvir melhor se vislumbra quando aqui e acolá se veem professores atuantes nas redes municipais e estaduais de educação (de onde vem a grande maioria dos ingressantes no IFMT) com pós-graduação em nível de Especialização e Mestrado. “A criação de cursos de mestrados e doutorados na Região do Araguaia, para poder dar continuidade na formação intelectual dos profissionais desta região é um dos maiores desafios das instituições públicas atualmente nesta parte do estado de Mato Grosso”, afirma Luiz Antônio.

Os resultados destes primeiros anos de IFMT Campus Confresa começam a aparecer: formação continuada de professores em nível de especialização (Proeja Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Jovens e Adultos e Especialização em Educação do campo); alunos que voltaram para suas cidades e estão trabalhando. Tantos outros continuaram estudando em cursos de nível superior espalhados pelo pais, alguns conseguiram ingressar pelas boas notas conquistadas no ENEM.  Neste exame o campus Confresa foi apontado, na última divulgação de dados, como a maior nota da região.

Os desafios para o Campus Confresa também são levar os cursos para mais próximo da comunidade, o que já vem acontecendo recentemente com o Pronatec que possibilitou uma extensão do curso técnico em Agropecuária na cidade de Santa Cruz do Xingu no final desde ano, ou incluir novos cursos que a população acredita que irão desenvolver outros potenciais da região, essa população vê o IFMT Campus Confresa como a Instituição que no momento tem mais condições de tornar realidade o que hoje é apenas mais um desejo.

Hino do INAJÁ   (Manelzinho)

Êta nós, êta gente

Todo mundo aqui presente

Êta nós, êta gente

Plantando nova semente

Tá na hora minha gente ê ê

De rimar a região

Viva Barreira Amarela

Matinha e Ribeirão

Cascalheira e Canarana

Vila São Sebastião

Santo Antônio e Serra Nova (bis)

Êta nós nesse baião

E vamos lá minha gente

Serra Dourada e Garapu

Vamos rimar de verdade

O canto do Uirapuru

Viva o Alto da Boa Vista

E São José do Xingu

Viva o nosso INAJÁ (bis)

E toda America do Sul

Imagem Pedro Casaldáliga http://blogs.estadao.com.br/roldao-arruda

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