03 de dezembro é o dia internacional contra o uso de agrotóxicos

Em todo país, diferentes cidades estão promovendo debates, exibições de filmes, atos e mobilizações que questionam o uso de agrotóxicos. E como está a situação na região do Xingu Araguaia?

Por Maíra Ribeiro

Pimentão, morango, pepino, alface e cenoura. Poderiam ser os ingredientes de uma gostosa salada, mas trata-se dos alimentos que mais tem apresentado contaminação por agrotóxicos, segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A realidade é que alimentos que considerávamos saudáveis e nutritivos podem estar carregados de produtos nocivos à nossa saúde, mas invisíveis aos nossos olhos.

Desde 2008 o Brasil mantém o título de maior consumidor de agrotóxicos no mundo.  Dos 50 agrotóxicos mais consumidos no país 22 já foram proibidos na União Europeia. Mesmo assim, os agrotóxicos recebem 60% de isenção de ICMS. Alguns deles, recebem ainda isenção total de outros impostos federais como IPI, PIS/PASEP e COFINS e de tributos estaduais.

Os agrotóxicos são usados em todo lugar e incluem todo tipo de veneno usado para matar plantas, animais e outros seres vivos indesejados nas plantações. Mas O uso intensivo de agrotóxicos está associados à produção em larga escala e mecanizada. Em outras palavras, onde há agronegócio, é maior o consumo de agrotóxicos.

Mato Grosso é o estado que mais consome estes produtos. Em 2012, foram utilizados 180 mil toneladas de agrotóxicos no estado, num total de 823 mil toneladas consumidos em todo o país. O uso indiscriminado de veneno leva à contaminação de rios, florestas, animais, ar e consequentemente das populações humanas.

gráfico agrotóxico quadrado

Fonte: Brasil de Fato

As pessoas mais afetadas por estas contaminações são aquelas que trabalham diretamente com agrotóxicos, ou vivem próximo a lavouras. Em Lucas do Rio Verde, segundo maior produtor de grãos de Mato Grosso, a contaminação por agrotóxicos foi encontrada até no leite materno, conforme dissertação da Universidade Federal de Mato Grosso de 2011.

O avanço do agronegócio e seus venenos na região Araguaia Xingu

Na região do Araguaia Xingu, pouco se discute sobre as consequências do uso de agrotóxicos. Porém, é algo para nos preocuparmos, pois a região tem sido apontada como área de expansão da produção de grãos no estado. Entre 2007 e 2010, a área de lavouras mais que dobrou nos municípios de São Felix do Araguaia, São José do Xingu e Ribeirão Cascalheira. Além da abertura de novas áreas, antigas pastagens degradadas estão se transformando em extensas monoculturas.

O principal grão cultivado na região é a soja, que por sua vez, é a lavoura que mais utiliza agrotóxicos. Essa produção está concentrada nos municípios de Querência, Santo Antônio do Leste, Canarana e Novo São Joaquim. Durante os meses de aplicação de agrotóxicos é possível sentir o cheiro de veneno no ar, ao passar próximo às grandes lavouras, pois muitas vezes, os agrotóxicos são jogados através da pulverização aérea. Enquanto esta é celebrada como símbolo da alta tecnologia na agricultura, na prática gera um alto grau de contaminação. Isso porque a perda pode chegar a até 90%. Ou seja, de cada 10 gotinhas de veneno que saem do avião, apenas uma vai atingir as plantas alvo, o restante pode ficar no ar, cair na água ou no solo fora da área de plantio.

Pulverização aérea é feita próximo à aldeia Xavante na Terra Indígena São Marcos, em General Carneiro/MT. Foto: Benjamin Ginoux

Pulverização aérea em lavoura próximo à aldeia Xavante na Terra Indígena São Marcos, em General Carneiro/MT. Foto: Benjamin Ginoux

Agricultura sem veneno é uma realidade

Ao mesmo tempo em que os agrotóxicos estão disseminados, a agricultura sem veneno não é nenhum mistério para grande parte de camponeses e indígenas que vivem entre os vales dos rios Araguaia e Xingu. Estas famílias praticam uma agricultura sem uso de agrotóxicos há décadas, a partir do conhecimento e uso do próprio cerrado.

Em alguns locais da região as comunidades rurais estão se organizando e se formando para a produção agroecológica e agroflorestal. O Grupo de Mulheres Agricultoras de Canabrava do Norte vende os produtos da agricultura familiar na feira da cidade. Em 2013, tiveram um projeto aprovado para a construção de uma casa de farinha de mandioca e de horta agroecológica. Parte destas mulheres produzem em seus lotes no sistema casadão, nome e fazer regional dado aos sistemas agroflorestais.

No Assentamento Dom Pedro, em São Felix do Araguaia, diversas famílias também tem seus casadões, onde produzem árvores frutíferas junto com cultivos anuais e perenes. As frutas são vendidas para a Fábrica de Polpas Araguaia, da Associação Nossa Senhora da Assunção (ANSA). Em Querência, a Associação Estrela da Paz é formada por agricultores do Assentamento Brasil Novo e apoia a produção agroecológica e comunitária destes. Estes são apenas algumas das experiências que estão sendo colocadas em prática na região. As entidades que compõe a Articulação Xingu Araguaia (AXA) tem apoiado estas e outras iniciativas locais de produção diversificada e ecológica.

Grupo de Mulheres Agricultoras de Canabrava do Norte/MT. Imagem: ATV

Grupo de Mulheres Agricultoras de Canabrava do Norte/MT. Foto: ATV

 

Porque o dia 03 de dezembro?

O dia 3 de dezembro foi escolhido como Dia Internacional do Não Uso dos Agrotóxicos por remeter a um dos piores desastres químicos já ocorridos. Nesta data em 1984, até 40 toneladas de dois gases tóxicos utilizados na produção de agrotóxicos vazou da indústria da Union Carbide em Bophal na Índia e se dissipou no ar. Ao todo, morreram 30 mil pessoas e cerca de 150 mil sofrem de doenças crônico-degenerativas por causa da exposição aos gases. Após 30 anos, a região nunca foi descontaminada. A Union Carbide, comprada pela Dow Química, ainda se nega a fornecer maiores informações sobre os contaminantes, dificultando o tratamento das vítimas.
No Brasil, diante do alto e crescente consumo de agrotóxicos no Brasil, em 2011, foi criada a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida por mais de 100 entidades nacionais e regionais. Ao longo dos anos, a Campanha vem promovendo debates, mobilizações e produzindo materiais, como cartilhas e os filmes O veneno está na mesa I e II, dirigidos por Silvio Tendler. O intuito é sensibilizar e informar a população sobre os riscos representados pelos agrotóxicos e as alternativas agroecológicas.
Em Cuiabá, capital de Mato Grosso, ocorrerá um ato na tarde de hoje, no qual o documento “Dia Internacional de luta contra o uso de Agrotóxicos” assinado por entidades da sociedade civil mato-grossense será entregue para órgãos públicos, Secretarias de Estado e ao Ministério Público.
O documento exige o cumprimento da lei existente, como o monitoramento e fiscalização do uso de agrotóxicos no estado e ações de proteção à saúde humana e ambiental. Além disso, reivindica-se o banimento de certos agrotóxicos e o incentivo à agricultura ecológica sem veneno. Leia o documento na íntegra aqui .

Leia aqui o Manifesto pelo Dia Mundial na Luta Contra os Agrotóxicos, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida.

Assista o filme “O veneno está na mesa”:

Imagem em destaque: divulgação da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos.

Demais imagens com créditos nas legendas.

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