O futebol conquistou os indígenas e eles conquistam títulos

No Araguaia Xingu, uma região sem importância no cenário futebolístico nacional, o futebol de campo conquistou os indígenas que começaram a conquistar títulos amadores municipais. Hoje, a participação deles neste esporte é muito maior do que a população das cidades.  Crianças xinguanas e xavantes começam a sonhar em serem jogadores profissionais, para quem sabe, um dia, servir à Seleção Brasileira.

Por Rafael Govari/ISA

CANARANA – Jogos parecidos com o futebol já eram praticados há cerca de 3000 anos antes de Cristo na China, mas o futebol moderno, como conhecemos, foi criado na Inglaterra no século XIX. No Brasil, a história conta que o futebol chegou com Charles Miller em 1894. No entanto, pobres, negros e indígenas não podiam fazer parte dos primeiros times.

O futebol foi se popularizando no mundo inteiro e o Brasil se tornou o ‘País do Futebol’.  O melhor jogador de todos os tempos é negro, o ‘Rei Pelé’, que jogou na Seleção Brasileira ao lado do “Anjo das Pernas Tortas”, o Garrincha, que era descendente de indígenas da etnia fulniô, que habitavam o litoral de Pernambuco.

Tradicionalmente, na história do futebol nacional, as equipes que disputam os grandes torneios se encontram nas regiões Sul e Sudeste principalmente, com o Nordeste logo atrás. Centro-Oeste e Norte têm que se contentar com os torneios de menos prestígio e com as divisões inferiores.

No Estado de Mato Grosso, atualmente, o Luverdense, de Lucas do Rio Verde, é a única equipe que disputa a segunda divisão do Brasileirão. Na região do Vale do Araguaia e Xingu mato-grossense, com exceção de Barra do Garças, não há sequer uma equipe disputando pelo menos o campeonato estadual mato-grossense.

Nesta região não há centros de treinamento para formação de jogadores de futebol e são poucas as escolinhas públicas ou mesmo particulares. Mas o futebol ultrapassa todas as barreiras, sejam geográficas, culturais e econômicas, capaz de unir em um mesmo gramado, pessoas tão diferentes.

Os indígenas formaram seus próprios times

Em Canarana-MT, região que fica no Médio Araguaia, a população no ano de 2013, conforme o IBGE, era de 19.681 habitantes. Já a população indígena do município, conforme dados do censo de 2010 do IBGE, era de 1.349 pessoas. Porém, no campeonato amador municipal de futebol de campo de 2014, quando participaram 17 equipes, 8 delas eram de indígenas, ou seja, quase 50%.

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Equipe da Aldeia Etenhiritipá campeã.

Da etnia Xavante participaram as equipes Aldeia Caçula, Aldeia Belém, Aldeia Etenhiritipá e Esporte Clube Roncador. Das etnias xinguanas, as equipes Palu Shayo, Morená, Xingu e Aldeia Culuene.

Mas as equipes indígenas não entraram no campeonato somente para participar. Depois de chegar no quase várias vezes, pela primeira vez na história eles levantaram a taça de campeão. A Aldeia Etenhiritipá venceu na final a tradicional equipe do Juventus, favorita e que tinha no elenco vários jogadores experientes e que disputam campeonatos em vários municípios da região.

Antes da conquista da Etenhiritipá, as aldeias chegaram bem perto da taça em outras oportunidades. Em 2013, a equipe do Xingu foi vice-campeã no torneio de futebol de campo e no futsal. E, em 2014, o Morená foi vice-campeão no futsal.

Conforme o secretário de esportes de Canarana, Enio Haas, a participação dos indígenas começou anos atrás com alguns jogadores integrando as equipes da cidade. Depois os indígenas começaram a montar suas próprias equipes, até chegarem ao título inédito.

Como eles estão se tornando jogadores cada vez melhores, as equipes da cidade já estão ‘contratando’ alguns jogadores e desfalcando os times das aldeias. Em contrapartida, estas equipes também fazem o mesmo, inscrevendo jogadores não índios, criando na verdade uma grande integração.

“A participação dos indígenas cria uma grande integração. Eles aprendem com os não índios, que também aprendem com eles”, disse o secretário Enio Haas, afirmando que dentro de campo não há preconceito.

O secretário disse que os indígenas se destacam pela força física e disciplina. “Para alguns ainda falta experiência, mas os resultados mostram que eles estão chegando”, disse.

A porcentagem de população indígena de Canarana comparada ao número de equipes e jogadores, mostra que hoje o futebol está muito mais presente entre eles do que os não índios e moradores da cidade.

Crianças querem ser jogadores de futebol

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Urissapa tem 12 anos e é atacante

Em 2010, chegou à cidade o ex-atleta profissional Maurício Francisco Daghetti. Ele jogou em grandes times, como Hapoel de Israel, RKC da Holanda, Monterrey do México e Coritiba do Paraná. Também teve passagens rápidas por Ajax da Holanda, Milan e Inter de Milão da Itália. Uma grave lesão no joelho o forçou a abandonar o futebol profissional ainda novo.

Em Canarana, Maurício assumiu a EPAC (Escolinha de Pais e Amigos de Canarana), e criou uma escolinha conveniada do Grêmio de Porto Alegre-RS. Trabalha atualmente com mais de 110 atletas, com mais de 15 jogadores integrando clubes formadores espalhados pelo Brasil.

Do seu elenco, em torno de 10 crianças são indígenas. Maurício explicou que esse número somente não é maior porque muitas famílias indígenas que moram na cidade não possuem condições de pagar a mensalidade da escolinha, que é particular.

Conforme o professor Maurício, os indígenas possuem a mesma habilidade que os demais, mas se sobressaem na força física e no comportamento. “Alguns vem das aldeias e demoram um pouco mais para assimilar os conselhos, mas também quando aprendem, dão 100% de si, não faltam aos treinamentos e não usam de malícia”, disse.

Daghetti falou que a introdução da tecnologia para crianças muito novas, as tem afastado das práticas esportivas. “Hoje as crianças querem ficar no celular, na internet e no videogame. Na verdade, quem está jogando futebol são os mais carentes, que justamente não têem acesso a essas tecnologias e boa parte das crianças indígenas se enquadra nesse grupo de exclusão”, explicou.

Um dos atletas mais promissores que Maurício tem em sua escolinha é Urissapa Kamayurá. Ele tem 12 anos, é atacante e torce para o Corinthians-SP. O repórter pergunta: Qual o seu sonho Urissapa? “É ser jogador de futebol”, responde ele. Urissapa mora há pouco tempo na cidade, mas desde muito pequeno já jogava bola em sua aldeia, que fica no Parque Indígena do Xingu (PIX). Lá o campão é de terra e eles jogam de pé descalço. Todo mundo joga: homens, mulheres e crianças.

Maurício disse que Urissapa bate muito bem com as duas pernas, é habilidoso e objetivo. Em um torneio continental que a EPAC/Grêmio participou no ano passado em Jataí/GO, Urissapa fez quatro gols e foi o destaque do seu time.

Jogar futebol para ajudar a família

A EPAC/Grêmio tem atualmente mais de 15 atletas treinando em centros de treinamento. A maioria deles está no Ideal Futebol Clube de Ibiúna/SP, um centro de formação de jogadores. Destes, dois são indígenas: Yakuma Txicão tem 18 anos e é volante, do estilo raçudo; Yuri Tadayuki Kuikuro tem 16 anos e é zagueiro. Ambos são do PIX.

Conforme Yakuma, ele passa as mesmas dificuldades que todo menino que sonha em jogar futebol passa: “Fico longe da família, dos amigos e da igreja. Tenho que lutar contra a saudade para sonhar ser jogador profissional. Hoje estou aqui, para realizar meu sonho, que é ser jogador para ajudar minha família, que tem poucas condições; e também para meus futuros filhos, para não precisarem passar pelo que passei”, contou.

Ajudar a família também é o sonho de Tadayuki: “Todo sonho de um jogador é ser profissional para ajudar a família. Poder jogar em clubes grandes do Brasil e de outros países. Não custa sonhar alto”, disse.

Outro indígena na seleção Brasileira

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Crianças brincam de bola no Polo Leonardo

Daghetti disse que o sonho dele é um dia ter um centro de treinamento em Canarana e não somente colocar um jogador em um grande clube, mas também na Seleção Brasileira.

Do jeito que as coisas estão andando -com o futebol conquistando os indígenas e eles conquistando títulos em Canarana e região; com crianças indígenas treinando desde cedo e indo para centros de formação de jogadores- é bem possível que Maurício realize o seu sonho e quem sabe esse jogador venha a ser um indígena.

Talvez, daqui há alguns anos, vejamos Galvão Bueno falando o nome e narrando gols de um jogador chamado Urissapa, Yakuma ou Tadayuki, repetindo a história do “Anjo das Pernas Tortas” Garrincha, mas desta vez, um indígena da região Araguaia Xingu.

Texto: Rafael Govari

Imagem: Rafael Govari / Arquivo / Jornal O Pioneiro

 

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