Agricultura avança em áreas de pastagens e florestas no Araguaia Xingu

Órgãos de fiscalização estão detectando novos desmatamentos na região.

Por Rafael Govari /ISA

Canarana, MT – A região nordeste do Mato Grosso, que compreende 22 municípios do Médio e Norte Araguaia e Xingu, possui um dos maiores potenciais de crescimento agrícola do País. Até pouco tempo conhecida como Vale dos Esquecidos, a região prospera financeiramente puxada pelo agronegócio. Na safra 2014/15, a região foi responsável por mais de 15% da área plantada de soja no Estado. Até 2021, a soja no nordeste deve quase dobrar e se tornar a segunda maior região produtora do Mato Grosso, sem precisar a princípio derrubar novas áreas de floresta. Apesar disso, órgãos fiscalizadores estão encontrando desmatamento ilegal na região.

Na safra 2014/15, foram cultivados no Estado 8.944.928 milhões de hectares de soja, conforme dados do Imea (Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária). A região nordeste plantou 1.391.763 milhão de hectares com a oleaginosa, representando 15,56% da área estadual. Para se ter uma ideia do crescimento da área plantada no nordeste mato-grossense, ela mais que dobrou em cinco safras, saltando de 694.200 mil no ciclo 2010/11 para os atuais 1.391.763 milhão de hectares na safra que acabou de ser colhida. E, em mais sete ciclos, até 2021/22, a área deve quase dobrar, saltando para 2,451 milhões, quando passará a representar por um quinto da área estadual de soja, estimada para ocupar mais de 12 milhões de hectares, atrás apenas da região Médio Norte, com 3,296 milhões, o que representará 29% da área estadual.

Para citar como exemplo, o município de Canarana possui um pouco mais de um milhão de hectares de território (10 834,325 km²). A Secretaria Municipal de Agricultura (Seagri) estima que o município tenha em torno de 600 mil abertos. Um estudo prestes a ser iniciado levantará esses dados para subsidiar um processo de planejamento territorial do município. Dos 600 mil hectares que se acredita estarem abertos com áreas já consolidadas, estima-se em 400 mil o potencial de área agricultável. No Ciclo 2010/11, foram cultivados no município 127 mil hectares com a oleaginosa. Em cinco anos, o aumento foi de mais de 100 mil, saltando para 237 mil hectares na safra 2014/15, ou seja, há ainda, pelo menos, mais de 160 mil de pastagens para serem convertidas em lavouras no município. Canarana é o segundo maior produtor de soja da região nordeste, ficando atrás apenas de Querência, que já ultrapassou a marca de 300 mil hectares.

Área consolidada com soja no município de Canarana. Foto: Rafael Govari/ISA.Área consolidada com soja no município de Canarana. Foto: Rafael Govari/ISA.

O crescimento da agricultura na região nordeste de Mato Grosso, ocorre, principalmente, porque a região possui uma grande quantidade de áreas abertas, aptas as práticas agricultáveis, que ainda abrigam a pecuária, mas que estão sendo convertidas em lavouras. Como é a última fronteira agrícola do Mato Grosso, a região atrai muitos agricultores de vários lugares do Estado, do Brasil e até de outros países. A demanda crescente por alimentos no mundo, com destaque aos países asiáticos, elevou o preço das commodities, o que incentiva o aumento da área plantada de grãos. Se por um lado a agricultura traz riquezas e o seu crescimento pode acontecer sem novas derrubadas, por outro lado, têm ocorrido novos desmatamentos de floresta na região nordeste. Isso porque a agricultura valoriza as terras abertas e para o proprietário é mais lucrativo ter uma fazenda com soja do que uma fazenda com floresta. De acordo com o Observatório do Código Florestal (clique aqui), os incentivos econômicos, como as Cotas de Reserva Ambiental (CRA), avançaram pouco nestes quase três anos do novo Código. Tais benefícios são essenciais para que as pessoas não só atendam ao Código Florestal, mas também mantenham seu excedente de florestas.

No dia 08 de maio, uma operação da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), identificou cerca de 300 hectares desmatados ilegalmente no município de Água Boa, no Médio Araguaia, que pertence a região nordeste. Assim que as informações forem checadas, o proprietário poderá ser autuado, ter o embargo das suas atividades e responder processo administrativo junto à Sema. Outro caso de desmatamento na região aconteceu em Gaúcha do Norte, desta vez identificado por fiscais do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), que encontraram uma área de 2,6 mil hectares de desmatamento ilegal. De acordo com a assessoria do Ibama, na ação foram apreendidos sete tratores e aplicados mais de R$ 13 milhões em multa ao responsável.

Mas o desmatamento não atinge apenas a região nordeste. Mato Grosso continua em primeiro lugar em desmatamento nos últimos meses. O desmate da floresta amazônica cresceu 76% em março no Estado em comparação com o mesmo mês do ano passado. Os dados foram divulgados pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Em toda a floresta amazônica, que abrange vários estados, o desmatamento cresceu 195% no mês de março. Entre agosto de 2014 e março de 2015, foi desmatada uma área de 639 km² em Mato Grosso. Em toda a região amazônica o desmate foi de 1.761 km². Esses dados mantêm o Mato Grosso como campeão em desmatamento da floresta. A maior parte da derrubada ocorreu em áreas privadas, com 80% do total.

Combate ao desmatamento

Área de pastagem em São Felix do Araguaia, na região nordeste de MT, sendo destocada para virar lavoura. Foto: Rafael Govari/ISAÁrea de pastagem em São Felix do Araguaia, na região nordeste de MT, sendo destocada para virar lavoura. Foto: Rafael Govari/ISA.

Conforme a Secretaria de Meio Ambiente do Mato Grosso (Sema), o combate ao desmatamento ilegal no Estado representa prioridade para a atual gestão e é um dos compromissos estabelecidos pelo marco nº 5 do Acordo de Resultados. Para atender a esta demanda, a Sema fez uma parceria de trabalho com o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama). “A proposta é realmente obter resultados mais eficientes. Além da responsabilização administrativa, com aplicação de multas, nós também queremos que haja a responsabilização criminal desses infratores”, enfatiza a secretária Ana Luiza Peterlini.

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