Filosofia na Região Xingu Araguaia: Mais um capítulo na sua história de resistência e luta pelo bem viver.

Por Liebe Lima/AXA

Disseminar notícias e histórias de aboiar pessoas para uma eterna vida de gado, numa terra com mais bois que gente, tem sido uma prática recorrente para fazer prevalecer a dominação histórica dos donos da terra sobre aqueles que subsistem e resistem, mesmo com a negação diária aos seus direitos básicos sobre a terra, o alimento, a saúde, a educação e a felicidade de viver conforme sua visão de mundo. A fórmula é a repetição de chavões como por exemplo: “O AGRO É POP, É TEC, É TUDO” mensagem difundida com todo o glamour para as pessoas desejarem para si o que o “AGRO” aparenta. Esse “AGRO” que diz nos fazer ser o celeiro do mundo, em outras palavras, nos mantém colonizados pelos países industrializados, que nos querem produzindo matéria prima bruta para eles processarem e ganharem muito dinheiro sobre o que exportamos daqui. Nós, ficamos com a água e o ar envenenados, as cicatrizes deixadas pelas derrubadas e a destruição das florestas e cerrado, que são a causa das mudanças climáticas que vem aumentando os impactos negativos a cada ano que passa.

Sala de aula do Curso de Educação Popular: Do senso comum à conscientização no Centro Comunitário Tia Irene em São Félix do Araguaia. Foto: Liebe Lima/AXA

Para pensar esses e outros assuntos que permeiam a realidade de quem vive e luta pela terra, o Curso de Educação Popular: Do Senso comum à conscientização, foi proposto pela Articulação Xingu Araguaia – AXA e ministrado por professores da Universidade Federal Fluminense – NuFiPE em São Félix do Araguaia, MT nos dias 30, 31/07 e 01/08 trazendo perguntas profundas e essenciais aos que tiveram a oportunidade de participar, tais como: Quem sou eu? Quem é esse homem histórico? A escuta que pergunta antes de ouvir, o olhar que quer ver além, as trocas de experiência e o exercício de se reconhecer como ser político e social foram temas de reflexão. A tomada de consciência coletiva que se constrói em encontros como este, tornará mais difícil o trabalho de quem precisa de um povo subserviente e ignorante para se manter no poder.

Haverá muita conversa, temas de diálogos para os mais de 40 participantes do curso quando retornarem para as famílias e comunidades das quais fazem parte. Haviam representantes de 13 assentamentos e dois povos indígenas da Região Xingu Araguaia, trabalhando em busca de uma alternativa ao modelo de desenvolvimento que não é comprometido com a vida e a abundância que todos disseram almejar.

Conteúdos elaborados pelos participantes no Curso de Educação Popular: Do Senso Comum à conscientização em São Félix do Araguaia. Compilação: Liebe Lima/AXA

“Eu tenho medo de ficar sozinha” declarou de maneira transparente, uma participante em um dos exercícios do curso para explicar o motivo de se posicionar em consonância com a maioria, mesmo sem ter certeza se isso era ou não de acordo com seus valores. Entre esta e outras, as bases de nossas convicções vão sendo re-significadas e as certezas vão dando lugar ao que se pode aprender para seguir, mesmo que o sonho de justiça social que sonhamos juntos, ora pareça distante. Para Leonardo Boff somos um povo condenado a sonhar.

Apresentação de um dos grupos de trabalho do Curso de Educação Popular: Do Senso comum à conscientização. Foto: Liebe Lima/AXA

O conteúdo trabalhado neste encontro esteve no campo da filosofia, permeado por conceitos teóricos que foram trazidos pelos professores do NuFiPE – Núcleo de Estudos e pesquisa em filosofia, política e educação da Universidade Federal Fluminense, para quem, segundo o Professor Percival Tavares, todos os homens são filósofos. A linguagem que pudesse traduzir esses conceitos, aplicados à realidade da Região, foi sendo adaptada e retroalimentada pela dinâmica criada através do rico conhecimento que as pessoas das bases locais trouxeram a partir de suas vivências e lutas cotidianas.

Participantes de Novo Santo Antonio, MT, quando receberam a agenda da Prelazia de São Félix do Araguaia ao final do Curso Educação Popular: Do senso comum à conscientização. Foto: Liebe Lima/AXA

Essa troca entre teorias acadêmicas no campo da filosofia política e a prática filosófica dos homens que colocam seus corpos no campo, sobre quem se teoriza entre as paredes das universidades, terá sido motivo da emoção demonstrada nas avaliações finais, quando os participantes falaram de como se sentiram e do quanto retornavam fortalecidos, para continuarem suas jornadas com esperança, coragem e a união necessária para buscar soluções reparadoras às dificuldades colocadas pelo pensamento hegemônico social, que marginaliza os povos da floresta, homens e mulheres que fazem da terra o seu modo de vida e sustento.

Herança de luta para os movimentos sociais de hoje

Os cantos e as rodas são características da mística que se pratica em encontros dos povos desta terra nas profundezas do Brasil. Para chegar aqui é preciso percorrer um trecho de avião até uma das capitais mais próximas, Cuiabá ou Goiânia com 1200 e 1100 Km de distância e depois andar de ônibus mais 1200 Km, sendo que 200 Km ainda são de estrada de chão e cascalho pelo eixo da BR 158 que leva ao Pará.

Roda e mística entre os participantes do Curso Educação Popular: Do senso Comum a conscientização em São Félix do Araguaia, MT. Foto: Liebe Lima/AXA

Neste lugar distante, que já foi chamado de “ O Vale dos Esquecidos”, tem uma história de resistência política e social iniciada por Dom Pedro Casaldáliga quando foi nomeado Bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia em 1971. Nesta ocasião, essa luta aberta, foi inaugurada por um documento intitulado “Uma igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social” onde ele denuncia entre outras, a prática de trabalho escravo e a expropriação dos povos indígenas de suas terras ancestrais. Em suas palavras os povos do lugar só tinham direito de “nascer e de morrer”, nada mais. As bandeiras do ativismo, movimentos sociais, associações e iniciativas socioambientais fincadas hoje, herdam e podem se inspirar nessa história que está viva e faz a diferença nas conquistas alcançadas até aqui.

Para o povo deste lugar que é um divisor de águas dos rios Xingu e Araguaia, além dos conflitos fundiários e da violência que fazem parte de sua história, também, aqui é lugar de muito sol e riquezas naturais inigualáveis, de onde se vê o Rio Araguaia banhar a maior ilha fluvial do mundo: A Ilha do Bananal. O local deste encontro, o Centro Comunitário Tia Irene, faz jus ao que se pretende: Caminhar no sentido contrário às práticas permeadas pelo estigma criado desde o processo de colonização que ainda está em curso no Brasil, em direção à autonomia e protagonismo de quem resiste e vive na terra.

Nós somos terra!

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