Ações que fazem girar temas de solidariedade e inclusão no Xingu Araguaia: III Mostra de Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente e I Feira Regional de Economia Solidária e Agricultura Familiar em Confresa, MT.

Por Liebe Lima/AXA

Colaboração de Ana Claudia Timóteo

Clique na foto abaixo para ver a galeria de imagens do evento:

 

 

A cidade de Confresa na porção nordeste do Mato Grosso, quase divisa com o Estado do Pará, é um município com um território de 5.801,945 Km², dos quais, 61% estão destinados à Reforma Agrária, com 15 Assentamentos e segundo dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA, ali residem 4.785 famílias assentadas. Na economia local predominam a pecuária, o leite, a mandioca e o mel, que são produtos característicos da Agricultura Familiar. Um perfil territorial com potencialidades que apresenta uma ocupação onde a terra é um bem compartilhado entre muitos e realiza sua função social, trazendo perspectivas de geração de riquezas e renda com base em atividades produtivas como o extrativismo dos produtos da floresta, tais como sementes, frutíferas, doces regionais e uma grande diversidade de produtos oriundos da cadeia do leite, pequenos animais, ovos e dos plantios sazonais.

Coletores e gestores da Associação Rede de Sementes do Xingu participaram da feira – Foto: Claudia Araújo

Poucos municípios no Brasil tem uma presença tão relevante dos atores sociais que mais representam a agricultura familiar, dada a característica de distribuição de terras entre propriedades com pouco mais de um módulo fiscal e atividades econômicas conduzidas por grupos familiares. Além de assentados da Reforma Agrária, os Indígenas do Povo Tapirapé, também tem a Terra Indígena Urubu Branco ocupando um percentual de 3% de seu território, se fazendo presentes no cotidiano da cidade. 

Indígenas do Povo Tapirapé vendendo seu artesanato na Feira de Economia Solidária – Foto Ana Claudia Timóteo

Neste mês de novembro a cidade ficou marcada pela presença festiva destas pessoas e de muitas outras que vieram de várias localidades da Região Xingu Araguaia para a participação na III Mostra de Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente e a I Feira de Economia Solidária e Agricultura Familiar. A ambientação criada pelos alunos do CEJA Creuslhi de Souza Ramos, trouxeram a imagens de mulheres negras segurando cântaros de onde vertiam palavras que diziam não ao Racismo e representavam o planeta terra como berço onde se planta e de onde se colhe abundância e sustentabilidade. “Levamos temas como qualidade de vida, bem viver e sustentabilidade para a sala de aula e quisemos realizar atividades práticas” assim a Educadora Maria José G. C. Castilho nos conta como nasceu esta inciativa que teve em 2018 a sua 3° edição.

A abertura contou com presença de pessoas com papéis importantes na implementação de políticas públicas inclusivas de apoio aos produtores da agricultura familiar. Estavam o Prefeito de Confresa Rônio Condão, o Secretário de Agricultura Goianinho, Educadores do EJA de Porto Alegre do Norte, representantes da Secretaria Estadual de Educação – SEDUC, do Instituto Federal de Mato Grosso, Campus Confresa, a Associação Rede de Sementes do Xingu – ARSX, a Associação de Educação e Assistência Social Nossa Senhora da Assunção – ANSA, a Comissão Pastoral da Terra – CPT Araguaia, entre outros.

Em torno de 300 pessoas prestigiaram a Palestra de Abertura com o tema “A (In) visibilidade da Agricultura Familiar no Araguaia Xingu, ministrada por Fernando Schneider da Comissão Pastoral da Terra – CPT Araguaia, para quem, a realização do evento só se tornou possível pela vontade política do poder público local e a rede de mobilização criada por todos os parceiros envolvidos na organização.

Solenidade de abertura do evento – Foto: Ana Claudia Timóteo

Na palestra, Schneider apresentou as potencialidades econômicas da Agricultura Familiar através de informações oficiais, que a revelam tão competitiva ou mais que o agronegócio, no que tange aos critérios e indicadores econômicos internos, tanto pela capacidade de produção que apresenta em áreas de terras pequenas e periféricas, produzindo, segundo dados de 2016 do Ministério de Desenvolvimento Agrário – MDA, 70% dos alimentos consumidos pelo mercado interno brasileiro, em 5,7 milhões de pequenas propriedades que representam apenas 23,3% das áreas agricultáveis, como também, por ser responsável pela oferta de 72,88% das vagas de trabalho no setor agropecuário e 20,41% de todas as vagas de trabalho oferecidas no país (Censo Agropecuário 2017 – IBGE).

Estes dados foram apresentados em ponderação comparativa às atividades do agronegócio que trazem arrecadações reduzidas aos cofres públicos em decorrência da isenção de impostos que gozam os insumos, defensivos e maquinários utilizados nas atividades de agricultura expansiva. Como também, mostra o contraste na ocupação que promove a grande concentração de terras que este segmento produtivo detém. Além disso, foi abordada a dimensão de invisibilidade acadêmica pela insipiência em pesquisas relacionadas a espécies que são produzidas tradicionalmente pela agricultura familiar, a exemplo da mandioca e melancia.

Embora as pesquisas e atividades de assistência técnica sejam poucas, o Grupo de alunas do terceiro e quarto ano de Bacharelado em Agronomia no IFMT, mostraram em sua apresentação que podem ser poucas, mas também podem ser muito boas. Elas montaram a empresa júnior “EJAX Consultoria Agropecuária” com o objetivo de prestar atendimento aos produtores da Agricultura Familiar da região e estão engajadas na ampliação e aprimoramento da empresa que vai de vento em polpa.

Alunas do terceiro e quarto ano apresentam empresa júnior que criaram para atender a agricultura familiar – Foto Ana Cláudia Timóteo

Foram mais de 20 oficinas e mini- cursos que promoveram uma intensa troca de saberes e oportunidades de formação em muitas áreas do conhecimento e a feira que contou com 42 expositores se consolida como espaço aberto para os encontros e venda dos produtos frescos direto para a mesa dos consumidores. A diversidade, o aproveitamento sazonal das frutas e produtos florestais, as mais variadas formas de processamento e criatividade das pessoas para oferecerem o melhor e as muitas variedades de queijo chamaram a atenção de Claudinha Araújo, gestora da Associação Rede de Sementes do Xingu, que também se fez presente, trazendo com ela companheiros que coletam sementes para a Rede e mensagens de valorização e preservação da sociobiodiversidade. “Foi bonito de ver”, conta Claudinha.

Nesta soma estiveram alunos e professores das escolas rurais, grupos de mulheres engajadas na partilha do bem viver, associações e organizações da sociedade que querem prosperar preservando a floresta, plantadores, criadores de abelha, de gado, de porco, de galinha, bordadeiras, doceiras e muitos outros. A Articulação Xingu Araguaia – AXA, também se juntou a essa mistura de gentes, apoiando e participando através da presença da Associação de Educação e Assistência Social Nossa Senhora da Assunção – ANSA com seus saberes, da Associação Rede de Sementes do Xingu – ARSX com suas semeaduras e da Comissão Pastoral da Terra – CPT com seus pés no chão. Estas são organizações que se juntam na composição da AXA em torno de ações permeadas por valores socioambientais.

Ao fim da feira voltamos recarregados e os desafios que ficam para a Agricultura Familiar são muitos. Para transformá-los o legado de Pedro Casaldáliga é:

Teimosia e fé!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *