Agricultura familiar: Quem vai ficar?

Por Liebe Lima/AXA

No arco do desmatamento e da fronteira agrícola, a região Xingu Araguaia vive a pressão dos campos de monocultura que vem avançando sobre as áreas da reforma agrária através de arrendamentos dos lotes. Estas que são áreas de uso tradicional da Agricultura Familiar e da diversidade de produção de alimentos que lhe é característica, vão se esvaziando em decorrência da falta de efetividade na implementação de políticas públicas que tragam boas perspectivas de trabalho e geração de renda.

Os jovens vão buscando alternativas de estudo e emprego fora e recebem formação para trabalhar como mão de obra nas grandes fazendas e nas cidades. Os lotes dos assentamentos ficam com os mais velhos, que, sem a força de trabalho necessária para tocar as atividades produtivas, acabam entregando suas terras para o arrendamento. Os que ficam, muitas vezes se veem ilhados em meio às grandes lavouras e sofrem com os agrotóxicos que aos poucos vão degradando o entorno e acabam por inviabilizar a permanência na terra.

Segundo o Censo do IBGE em 2017, os estabelecimentos da Agricultura Familiar são responsáveis por 72,88% da geração de vagas de trabalho na agricultura e 27,12% do total de vagas de trabalho oferecidas no Brasil. Embora com números expressivos, falta assistência técnica para ampliar a produção e adequá-la às exigências sanitárias para acessar aos mercados, estradas em boas condições para escoamento e apoio na estruturação dos espaços das feiras livres para venda direta dos produtos ao consumidor.

Roça de Agricultor Familiar do Assentamento Dom Pedro, São Félix do Araguaia, MT, coexistindo com a mata – Foto: Giovanny Vera/OPAN

Em 2016, a plataforma da SEAF/MT – Secretaria Estadual de Agricultura Familiar de Mato Grosso, apresentou dados informando a presença de mais de 10.000 Ha de plantio de monocultura em Assentamentos de algumas regiões do Xingu Araguaia. Com o êxodo crescente da agricultura familiar para as cidades e a ocupação das terras com produtos da agricultura extensiva, destinados à exportação e a alimentação de rebanhos, a realidade aponta para um quadro de insegurança alimentar no futuro. Não podemos nos esquecer que a Agricultura Familiar e os Povos Indígenas com suas sementes crioulas, são os responsáveis pelo abastecimento da mesa dos brasileiros e os guardiões da diversidade de espécies produtivas nativas.

Mandiocal consorciado com frutíferas no Assentamento Dom Pedro, São Félix do Araguaia, MT. – Foto: Giovanny Vera/OPAN

A Agricultura Familiar e a Agroecologia é uma forma de resistir a um mundo de sementes mortas e alimentos envenenados que está sendo gradativamente implantado por corporações do ramo de sementes e produtos alimentícios que dominam o mercado mundial. Só neste ano, o Brasil liberou em torno de 132 espécies de agrotóxicos altamente tóxicos e todos nós brasileiros estamos expostos aos riscos que eles oferecem.

Plantio agroecológico consorciando tubérculos, frutíferas e espécies florestais no Assentamento Dom Pedro, São Félix do Araguaia, MT – Foto: Giovanny Vera/OPAN

Podemos começar com um consumo responsável capaz de promover cadeias que criam e reproduzem ciclos virtuosos, valorizando quem valoriza a nossa saúde e produz na região em que vivemos. Assim fortalecemos a economia local, preservamos a sociobiodiversidade e a saúde da nossa família!

Vamos que a hora é agora! Hora de ficar de olho nos rótulos dos produtos que consumimos e escolher o que compramos com responsabilidade social!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *