Uma história de caçada do Povo Xavante de Marãiwatsédé

 

Iniciamos esta série de contos e histórias do Xingu Araguaia com um texto do Professor Leonardo Tsereteme, do Povo Xavante da TI Marãiwatsédé.

Contar histórias é uma maneira afetiva e lúdica para nos conectar com o mundo a nossa volta e pensando nisso, a Articulação Xingu Araguaia – AXA, inicia um trabalho de tecer uma rede de comunicação de base, trabalhando junto com as pessoas das comunidades onde a AXA atua, para que elas nos apresentem as histórias de pessoas, atividades e práticas cotidianas que são importantes para suas vidas nas localidades onde vivem.

Na Terra Indígenas Marãiwatsédé, o ancião do Povo Xavante, Dário Tserenho’rã, foi entrevistado pelo seu filho Leonardo, para registrar esse conhecimento em linguagem escrita para um trabalho do Curso de Graduação que Leonardo realiza na Universidade Federal de Goiás em Goiânia. Leonardo é uma das pessoas que faz parte do núcleo de Comunicação Popular com quem a Articulação Xingu Araguaia – AXA Trabalha como forma de difundir a voz e dar visibilidade aos valores que tornam a Região Xingu Araguaia um lugar de imensa riqueza e diversidade cultural.

Os Anciões dos Povos Indígenas são suas enciclopédias vivas, pois ali a transmissão de conhecimentos e da história se realiza de forma oral, nas manhãs e tardes que os avós se sentam para fazer artesanato e as crianças estão por ali observando, nas reuniões dos homens, nos rituais e assim a cultura vai se reproduzindo ao longo do tempo.

Assim, ele nos conta:

Por Leonardo Tsereteme

Na data de 16 de junho de 2018, sábado, às 09hs da manhã, entrevistei o meu Pai chamado Dário Tserenho’rã, que ele vive sempre na Aldeia mãe chamada Marãiwatsédé.

Então que ele começou a história, a convivência dos nossos ancestrais sobre a caçada tradicional do Povo Xavante. Tem significado, por exemplo, caçada para fazer casamento entre o Povo Xavante.

Amanhecer do dia na Aldeia Marãiwatsédé/Terra Indígena Marãiwatsédé – Foto: Liebe Lima/AXA

Os anciões é que sabem

Quando o dia amanhece os mais velhos convidam todos os homens para comparecerem no centro da Aldeia, na reunião chamada de Warã. Depois um ancião vai levantar e conversar com os homens sobre o lugar para realizar a caçada com fogo. Depois de comentar sobre o lugar e todos concordarem, os homens vão se preparar durante o dia, fazer cordinha e gravata e também vai preparar comida para se alimentarem durante a caçada.

Warã – Conselho dos homens liderado pelos anciões na Aldeia Marãiwatsédé – Foto: Liebe Lima/AXA

Depois os homens se pintam o corpo todo do urucum e carvão em casa. Porque tem raiz para passar na testa e corpo também para ficar corajoso, porque na caçada vários tipos de animais são encontrados, como a anta, a onça e outros. Depois de pintarem os homens saem todos para o centro da aldeia e se reúnem esperando os adolescentes, porque eles trazem Upawã (alimento tradicional).

Homens Xavante com pintura tradicional de urucum e carvão – Foto: Liebe Lima

Quando os adolescentes chegam, eles entram na frente do Ancião em forma de roda e colocam Upawã no chão bem devagar. Então os homens começam a dançar e cantar. Depois do canto, o dono do tempo vai levar Upawã para os homens. O ancião vai comunicar quem são os homens escolhidos para a caçada e todos vão contar coisas sobre sua vida para não acontecer  e o ancião manda cuidar bem, faz recomendações para todos se cuidarem bem.

Adolescentes em ritual do Povo Xavante na TI Marãiwatsédé – Foto Liebe Lima/AXA

Desta forma, a caçada do Povo Xavante, tem regras para caçar, como caçada coletiva e caçada em dupla.

Depois de cantar e dançar os homens vão andar e fazer o fogo da caçada e alguns homens ficam no centro do fogo e outros ficam do lado de fora esperando a caça.

Assim é a convivência dos homens, assim o meu pai, Dario Tserenhorã contou a história sobre a caçada do Povo Xavante.

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