Encontro de mulheres é como o encontro de rios do Araguaia: Se tornam grandes quando se juntam!

Por Liebe Lima/AXA

Em mais uma iniciativa de realização da CPT Araguaia – Comissão Pastoral da Terra, no sentido de apoiar o fortalecimento da identidade camponesa, com foco no protagonismo das mulheres, o município de Canabrava do Norte, MT, foi o local escolhido para sediar o III Encontro de mulheres Camponesas do Araguaia, com o tema: “No país que a gente quer, chega de violência contra a mulher!”. Na programação, realizada nos dias 07 e 08 de março, as mulheres tiveram a oportunidade de assistir ao filme “As sufragistas”, sobre à luta das mulheres americanas para conquistarem o direito ao voto. A obra também faz refletir sobre, como esses direitos tiveram que ser forjados a ferro e fogo para desfrutarmos deles atualmente.

O filme, foi tema de discussões, que, para além da história, provocou reflexões vinculadas à realidade das mulheres presentes e transformou o diálogo em uma partilha de histórias de vida. Foram relatadas diversas situações de abuso que revelaram como a violência estrutural é instalada na sociedade, onde se reproduzem comportamentos agressivos, que, por não serem físicos, acabam naturalizados no dia a dia. “Isso nos fez abrir os olhos sobre alguns tipos de violência que nem sabíamos que era violência”, declara Ana Claudia Timóteo, animadora de comunicação popular do Projeto de Assentamento Dom Pedro.

Mesas de trabalho no III Encontro de mulheres Camponesas do Araguaia

“É uma maneira da gente se expor e, também de colocar para fora aquilo que a gente sente e o que a gente está passando. Igual o que a gente viu hoje, com as amigas que tiveram coragem de se abrir. É nesses momento que a gente também sente força de se abrir.” Este é o depoimento de Lucélia, que veio do Projeto de Assentamento Santa Rita em Ribeirão Cascalheira, em busca de conhecimentos para trabalhar junto às parceleiras do assentamento onde mora. Ela relata ter ficado muito feliz em conhecer novas pessoas, como também, pela recepção que tiveram ao chegar.

III Encontro de Mulheres Camponesas do Araguaia – CPT apresenta a sua missão e o banner do encontro junto às mulheres.

Feminicídio aumenta no Brasil: no Araguaia as mulheres respondem com a criação de redes de solidariedade e apoio mútuo

Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), o Brasil é o quinto país do mundo onde mais se cometem feminicídios, com 74% de mortes acima da média mundial. Somente a partir de 2015, quando foram feitas alterações do código penal brasileiro, através da lei 13.104, passou-se a reconhecer o assassinato de mulheres em decorrência de gênero e a aplicar penas mais severas. Desde que se passou a contabilizar os crimes de feminicídio em 2015, o número de casos cresceu de 449 para 1206 em 2018.

Diante desses números crescentes de violência, também aumenta o movimento de resistência das mulheres. Na Região Xingu Araguaia, o que se vê, a exemplo desse evento, é a união e mobilização

Marcha das mulheres camponesas em Canabrava do Norte – 08/03/202

em torno dos encontros e redes de solidariedade, para apoiar mulheres em situações de violência e vulnerabilidade social. As organizações, associações e grupos de mulheres camponesas, lutam para serem protagonistas de suas histórias e para ter autonomia financeira em atividades produtivas, sustentáveis e agroecológicas.

 

Elas vieram de toda a região e andaram longas distâncias para participar. Estavam presentes o grupo , Grupo de mulheres do PDS – Projeto de Desenvolvimento Sustentável – Bordolândia, de Serra Nova Dourada, o grupo de Retireiros e Retireiras do Araguaia, vindos de Luciara, o Grupo de mulheres do PA – Projeto de Assentamento Dom Pedro – (MMTA), Município de São Félix do Araguaia, Grupo de mulheres de São Felix do Araguaia (MABAS), Grupo de mulheres de Ribeirão Cascalheira moradoras do PA Santa Rita, Associação de Mulheres de Confresa (AMAX) e outras organizações como a ARSX – Rede de Sementes do Xingu que realiza atividades na região.

Todo o encontro foi recheado e temperado com afetos, no que as mulheres fazem muito bem, que é cuidar do outro.  Nesse dia, porém, foram presenteadas com o “momento de beleza”, contando com a presença de manicures para fazer as unhas, enquanto outras, preparavam os cartazes que seriam usados na marcha das mulheres que aconteceria no dia seguinte. Depois disso, foi a realização do espaço de feira, com as exposições dos produtos para a venda, com trabalhos manuais de crochê, retalhos, bordados, roupas, remédios naturais, pães e cucas. Como não ´poderia faltar, a noite foi regada com muito forró música e alegria.

Animação e música marcaram o III Encontro das mulheres Camponesas. Foto: Arquivo pessoal das participantes.

Canabrava do Norte é um município pacato com pouco menos de 5000 habitantes e acordou no domingo, dia 08 de março, surpreendida pela Marcha das Mulheres Camponesas que diziam no microfone, em alto e bom tom, que, “basta de violência contra as mulheres”. Participaram mulheres de todas as idades, crianças e jovens, levando seus cartazes e suas palavras reivindicando “respeito” para quem quisesse ouvir.

Lugar de mulher é onde e com quem ela quiser!

Este texto foi escrito com a colaboração de Ana Claudia Timóteo, que faz parte do núcleo de Comunicação Popular da AXA, no PA – Projeto de Assentamento Dom Pedro.

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